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As concubinas do sultão

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* Prometo que este é o último da série de textos antigos, pelo menos por enquanto. Foi escrito há mais de um ano, ou seja, a tal “recente” já não tem nada de recente… *

Uma cidade se conhece por seus espaços públicos. Construam-se os edifícios que forem, eles obedecerão sem recurso aos planos e projetos que o arquiteto aprendeu em sala de aula ou desenvolveu em laboratórios e escritórios; no interior, a mais transparente das atividades se dá às escondidas, atrás do concreto, entre as divisórias de compensado, de um pavimento a outro. Se isso parece um paradoxo, que seja. Mas os prédios jamais darão sentido a uma cidade. A não ser, eventualmente, para aniquilá-la, com seu silêncio grosseiro e pelo furto escandaloso de nacos do horizonte.

No espaço público, as coisas acontecem segundo o que são em seu instante. Ainda que sejam planejados os parques e passeios, geométricas as praças de um qualquer núcleo urbano, é muito limitado o poder que a habilidade dos construtores terá sobre o que se passe nos paralelepípedos e gramados. Que podem os técnicos calcular quanto aos encontros, os olhares, os figurinos, o linguajar? Os imóveis pertencem aos proprietários, pois não; os apartamentos são dos inquilinos e os escritórios, das empresas. Mas a rua pertence ao homem. A ninguém mais. Talvez por isso assuste tanto os misantropos.

A culpa dessas minhas reflexões recai toda sobre uma recente passagem por São Paulo. Curta demais para encontrar todos os velhos amigos e tão atribulada que mal pude rever os lugares determinantes do que sou – para o bem e para o mal. (Lembro de alguns que foi impossível visitar: o Bar do Cidão, os teatros da praça Roosevelt, a rua 13 de Maio com o impagável Café Piu-piu…) Mas não foi uma visita tão sumária que me bloqueasse o bombardeio de sensações e lembranças. Umas doces, outras amargas, as mais tristes nem por isso menos ternas.

Receber de uma só vez todas essas impressões emocionais, devo frisar, é coisa de uma violência atroz. Após algumas horas sobre o solo tão familiar e tão distante, percebi o quanto ficara aturdido. Os parentes vinham buscar ternura, queriam saber sobre a vida no estrangeiro e dar as boas-vindas, mas eu, num estado de quase catatonia, era todo balbucios. Graças, a viagem e o fuso horário serviram como desculpa.

Resta que minha relação com a cidade em que cresci nunca foi fácil. Reação, imagino, de um espírito de natureza perambulante, flâneur malgré soi, inconformado com as barreiras que lhe impõe um modelo urbano escamoteador. No entanto, eu jamais o percebera. Pensava que meu problema com São Paulo fosse a poluição, o desafio hercúleo de deslocar-se, o desastre estético, a incompreensível ausência de qualquer forma de ordem urbana. A exemplo de muitos vizinhos, eu me enganava porque tinha o olhar por demais voltado para o alto, lá onde estão as estruturas circunstanciais, aquilo que, por natureza, é e será sempre frio e morto.

Por um lapso de percepção viciada, não entendi que o problema estava ali, logo à frente, na altura dos olhos e dos corações. Foi necessário interpor um oceano entre ela e mim para me dar conta dos fundamentos do conflito em que sempre vivi com a estranha São Paulo das buzinas e mutismos temíveis. Hoje, afastado, perdido no meio de um povo cujas gírias ainda desconheço, o que desenvolvi foi, finalmente, a resposta para o antigo dilema que parecia ter ficado em casa, lá atrás, esquecido no armário.

Eis que São Paulo, enxergo afinal, é uma terra refratária ao espaço público. Parece aplicar um estranho programa: se há alguma área de convivência, em que os olhares se cruzem e se ponham em comunicação, que seja suprimida; se há um parque, que os escapamentos, milhões de galões de gás, sufoquem os freqüentadores; se há calçadas, que se alarguem as avenidas até só haver espaço para o asfalto; se há comércio pelas ruas, que seja confinado a enormes condomínios com ar condicionado e música ambiente.

Enquanto isso, na curta semana que passei entre os meus, eu nutria o enorme desejo de observar os tipos, delinear os rostos, adivinhar pensamentos. É o que faço quando caminho sem destino, a passo lento, pelas ruas de Paris. Só que em São Paulo, os rostos, tipos e pensamentos se furtavam a mim. Subindo ou descendo as calçadas esguias, era impossível decifrar as idéias dos transeuntes: em seus rostos, transparecia apenas a preocupação de desviar dos buracos, dos postes, dos ambulantes e dos demais pedestres espremidos. Cada corpo, ao sair de um carro, de um ônibus, de um prédio, de um buraco do metrô, logo dava um jeito de, furtiva e melindrosamente, enfiar-se novamente em algum buraco do metrô, prédio, ônibus, carro. De um caixote para outro, sempre, tão célere quanto conseguisse. Descobri uma população encaixotada.

Essa conclusão não tem nada de agradável, é claro. Ao contrário, ela perturba sobremaneira. Repito, uma cidade se conhece pelo espaço público. Com o que, de repente, depois de uma vida, percebo que não conheço São Paulo. Como corolário, acredito que ninguém conheça. Pois a cidade não se deixa conhecer. Como se precisasse esconder o rosto, ela abafa a própria voz natural, uma vibração produzida a cada instante pelo flutuar de seus habitantes.

Mas São Paulo parece envergonhada por constituir-se de pessoas. E que não são poucas: dezenas de milhões de almas, veladas como as concubinas de um sultão. Uma multidão que não se olha, não se enxerga, não se cruza. Trocando em miúdos, não se conhece.

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8 comentários sobre “As concubinas do sultão

  1. Diego,

    Este é o segundo relato, em pouco tempo, que vejo sobre um paulista que retorna à terra, e todas essas dinâmicas de proximidade e distanciamento acontecem.

    O que acho interessante é que sempre que vou a São Paulo, tenho a mesma sensação que essa: “Eis que São Paulo, enxergo afinal, é uma terra refratária ao espaço público. Parece aplicar um estranho programa: se há alguma área de convivência, em que os olhares se cruzem e se ponham em comunicação, que seja suprimida; se há um parque, que os escapamentos, milhões de galões de gás, sufoquem os freqüentadores; se há calçadas, que se alarguem as avenidas até só haver espaço para o asfalto; se há comércio pelas ruas, que seja confinado a enormes condomínios com ar condicionado e música ambiente.”

    Certa vez o Hermenauta ironizou algo parecido com São Paulo, “território inimigo”.

    O ruim é que não posso empregar o argumento ingênuo “ainda bem que Curitiba não é assim”, pois é precisamente nisso que ela se torna também, e vagarosamente, nas últimas décadas.

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    • Diego Viana disse:

      Estive uma vez só em Curitiba. Eu esperava ver aquela que todos chamavam de “cidade modelo”, e o que encontrei foi completamente diferente… Parecia que eu tinha caído no meio de uma brincadeira de Lego dos meus oito anos… foi essa a sensação que tive.

      PS: Não pense que não li seu e-mail. Vou respondê-lo por esses dias…

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  2. Diego, conheço deezenas de cidades do Brasil em muitos estado, capitais e interioranas, sem menciobnar outras do planeta, mas te confesso, São Paulo me aterrorisa, me dá medo, se tivesse que trabalhar por lá preferiria vender sorvete em Ipanema, me lembro alguns anos atrás, muitos, eu estava com minha bela e jovem meretriz minha amasia no apartamento dela no edifício COPAN cidade ondulada surgida da imaginação do Nyemaier, minusculo e acocorado acima do vigésimo andar e eu amava aquela mulher e ela a mim e planejava passar a noite num amor inimaginável e me aproximei da janela, o céu sem lua sem estrelas, cinza poluição e lá embaixo formigueiro de carros, nenhum som de ondas do mar nem pio das gaivotas, vesti – me apavorado, larguei a mulher, perdi um amor jamais esquecido, caí na rodoviária pra chegar destruido de manha cedo no meu Rio de Janeiro, São Paulo maldita cidade, te odeio

    abraço

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  3. Sempre me escandalizo com a desumanidade de São Paulo. Cidade horrível, onde tudo parece feito para os carros passarem por cima das pessoas. Me parece saída dos piores pesadelos de ficção científica.

    Mas de certa forma acho que o brasileiro tem, em geral, essa horrível vocação privatista. Horror ao espaço público, ao comércio de rua, à convivência entre seres desnudos de equipamentos escamoteadores. Não participamos nem do nosso condomínio, que dirá da nossa cidade ou das questões nacionais de Estado.

    Minha Curitiba é uma São Paulo em miniatura. Das cidades que conheço acho o Rio um pouco mais humano, o carioca tem gosto de ficar na rua, há movimento, há vida (pelo menos na velha Zona Sul – Catete, Botafogo). E BH com seus bares na calçada – os mineiros parece que ao menos gostam de conversar.

    Mas as cidades européias parecem tão legais por causa disso – essa disposição de estar na rua que, afinal, é de todos.

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  4. Diego, meu lindo! Quanto tempo…
    E deparo-me com excelente texto, bem, isto é um lugar comum.
    Achei fantástica a analogia entre as pessoas de São Paulo com concubinas de algum sultão. Talvez nem o sultão tenha personalidade, quem será? É poético, mas analítico, mordaz e verdadeiro. Eu não fui à Paris (ainda), mas pude sentir teu dilema. Vou ler mais esses fantásticos e atuais textos antigos.
    Beijo carioca (e igualmente conturbado hehe)

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