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Das cidades, como do amor

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Certo amigo costuma dizer que nossa relação com as cidades é como as relações amorosas. Ele diz, por exemplo, que Roma é cidade para namorar; Paris, para casar. Não peça explicações para seu julgamento, por favor! Essas coisas, todo mundo sabe, são o que há de mais pessoal. Sendo assim, minha opinião e a dele têm lá suas diferenças, como era de se esperar, mas não posso negar que a analogia tem sentido.

Jamais, para ilustrar, eu me meteria num namoro com Roma. Eis aí, ouso dizer, uma cidade a ser tratada com toda a cafajestagem que faz a má fama dos homens, isto é, a velha trinca: álcool aos litros, elogios absurdos e telefone falso. Já Paris, é difícil dizer; anos atrás, talvez eu também pensasse nela como uma cidade para casamento, filhos e aposentadoria. Sempre, claro, com separação de bens, que seguro morreu de velho e o europeu é tudo, menos confiável.

Mas, passados dois anos e meio, vejo que esta é uma cidade com que se pode ter no máximo um relacionamento razoavelmente durável, feito de passeios e conversas deliciosas, ou de exibi-la como prenda para saborear a inveja nos olhares todos que se voltam para sua companheira. É que esses invejosos não têm idéia do que possa ser a vida com a prima donna que compartilha de sua intimidade. As pequenas irritações, manias e exigências. O egoísmo de quem foi criada para só merecer admiração e cuidados. A distância insolente de quem pensa ser sempre precisada e nunca precisar. Essa é Paris, a cocotte.

Desenvolvendo a analogia suscitada por meu amigo, venho pensando nas muitas relações diferentes que mantenho com as cidades que conheci, e mesmo com algumas em que nunca estive, no que poderia ser classificado, para seguir na linha amorosa, como fantasias. É sempre tão irracional, circunstancial, acidental, quanto tudo o mais na nossa vida, menos aquilo que, ainda irracionalmente, acreditamos tratar com a razão. E o curioso é que, ao contrário das relações que um sujeito normal pode ter com mulheres no longo prazo, com as cidades é possível viver dezenas de romances simultâneos, na imaginação como na carne. Afinal, a não ser que seja mitologicamente histérica, a cidade em que está fincado nosso lar jamais terá ciúmes de uma visitinha que façamos a alguma outra nas férias ou no fim-de-semana. Turismo, neste caso, não é adultério.

Minhas relações mais complicadas são, é claro, com as cidades brasileiras. Estive nelas a maior parte da vida, balancei entre umas e outras, em tantas briguei e amei, com tantas rompi e reatei. Por sinal, já falei um pouco disso em outros cantos. Agora é hora de pensar nas estrangeiras, que, além de tudo que uma cidade já normalmente significa, têm ainda o mistério da outra cultura, da diferença, da variação infinita dos povos.

Buenos Aires, a misteriosa cigana sentada a uma mesa no fundo do salão, que dirá coisas absurdas ao ser abordada, rirá em desvario de enunciados que nem terão sido piadas, mas levará o parceiro à loucura em mais de um sentido. Lisboa, sempre à espera, para amolecer os membros e as articulações pela mera força de seu olhar de melancolia e devaneio. Barcelona, fulgor sufocante de um caso de verão regado a música e boa bebida, papos despretensiosos sobre arte que não entendemos, mas amamos, depois uma despedida sem tristeza. Berlim, divina e altiva, sempre sedutora e simpática, mas brilhante demais, muito poderosa e difícil, a ponto de não termos nem coragem de tentar uma aproximação. E assim por diante.

Dentre todas essas, há uma cidade que não consigo descrever nesses termos. Talvez seja aquela que conhecemos na primeira juventude, para um amor que ainda não consegue se reconhecer como grande ou pequeno, e depois perdemos de vista, para depois reencontrar um pouco mais tarde e sentir a mesma coisa, sabendo que é recíproco. E assim, sucessivamente, talvez pelo resto da vida, curtos momentos de pura felicidade, mas que não podem se estender, e que às vezes nem se concretizam, como quando há algum outro relacionamento em curso e não estamos dispostos a interrompê-lo.

É Londres, louca terra dos carros na esquerda, da polidez inquestionável polindo a superfície de uma frieza involuntária, dos preços altos para tudo que não seja cerveja. Capital de um império caído que ainda se vê em todas as caras, nas feições que os povos subjugados transmitiram ao opressor para toda a eternidade. Londres que divide os sonhos entre a glória austera dos tijolos vitorianos e e o brilho vertical de vidro que atesta o triunfo do século americano. Green grass, grey sky, God bless. Venha o que vier, serão sempre deliciosas as tortas e a geléia que acompanham o chá.

Mas não há modo de termos, London, London, nada mais, neste momento, do que isso que tivemos nas duas últimas semanas. As caminhadas no South Bank, o teatro esplêndido do West End, as bolas de neve no Green Park, de nome subitamente tão irônico debaixo da nevasca histórica que interrompeu o transporte através do Reino Unido. Tudo isso será inesquecível, como sempre foi. Mas a vida agora é além-túnel, além Mancha, naquilo que teus habitantes, ainda mais petulantes do que são excêntricos, chamam desdenhosamente de “Europa”. Mas Paris, minha cara, é o contra-exemplo de um diamante que não é eterno. Quem sabe o que traz velado o futuro?

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21 comentários sobre “Das cidades, como do amor

    • osrevni disse:

      Engraçado, Veneza nunca fez parte das minhas fantasias… é aquela que a gente vê passar, cumprimenta, e fica por aí… e olha que essa é desejada, hein!

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      • Fui feliz em Veneza. Foram duas vezes: na primeira, sozinho, a namorada no Brasil e uma saudade imensa, pensando em como seria bom namorar por lá. Na segunda, casado — mas não com a tal saudosa namorada —, 2, 3 e 4 de um janeiro nem um pouco qualquer, um frio agradabilíssimo — apesar da (óbvia) umidade elevada —, mostrando o que já conhecera e explorando outros cantos a dois, rindo, namorando, emocionando-nos e, o melhor, partindo de lá antes de experimentar qualquer uma de suas mazelas — pois toda cidade as têm.
        Sou só elogios a essa cidade, dos melhores lugares que conheci para namorar, sem sequer precisar andar de gôndola para tal (ou, quem sabe, justamente por não entrar nelas).
        Já passava da hora de saborear um dos teus textos, Diego.
        Abraço

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        • Então Veneza virou dica. Ainda não fui, com medo das hordas de turistas, mas depois de uma indicação qualificada dessas, entrou para a lista de desejos e em posição altíssima!

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  1. Bruno Alvaro disse:

    Meu caro, a metáfora da cidade é maravilhosa. Texto bem construido. Simples e forte. Delicioso de se ouvir (ler), confesso que, em partes (e bem distante, é claro), lembrei-me do Rio e da Confeitaria Colombo (nem tanto pelos quitutes), dos passeios que atualmente não são tão possíveis de se fazer. Me questiono, então: Qual seria a metafora amorosa que mais se aproximaria do meu amado RJ?

    Forte abraço!

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    • osrevni disse:

      Pra mim, o Rio é sobrenatural, aquela figura mitológica que sempre flerta com a morte e a transfiguração, à beira do sublime e da aniquilação absolutos…

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  2. Diego disse:

    E aí, meu velho! Ótimo texto. Engraçado que estes últimos eu estava justamente pensando sobre cidades. Fui ao Rio e no ônibus de volta conversei com uma paulistana de verdade (meus amigos em São Paulos são quase sempre de outros lugares!). Acho que São Paulo é uma cidade inconsciente, uma saudade de nunca ter se visto. E eu só fui entender isso agora, já que aqui sempre fui o baiano-mineiro deslumbrado.

    E quem sabe não tomo isso como mote para escrever algo nas já plácidas perambulagens?! rs

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  3. sim, tudo certo, tudo perfeito, bem pensado, bem sentido, Paris nas 4 estações o eterno romance, Roma uma balburdia, o italiano um fdp, Barcelona, arte e cultura,e Londres conheci bastante bem, a Londres de antes Guerra, em 1937 e de lá saí em 1940, não vivi ali todo esse tempo, maior tempo no College e na férias no Continent, e amei aquela cidade, cinemas confortaveis, podendo fumar e chá servido durante a sessão, e os music halls de 24 horas, e black tie ao jantar no Hotel Savoy, e o Picadilly Circus o maior Barato, Oxford Street um bom passeio, of course before the bombing, mas e daí, o inglês na sua infantil valentia esperava a invasão com seu Home Guard munido de refles esculpidos em madeira, teve mais sorte que juizo, Hitler deixou a Inglaterre por conta do Goering e foi atrás do rabo do Stalin, o black tie foi abolido, o londrino continuou indo ao cinema, dançar o Lambeth Walk (horroroso) nas boates e fleugmático aguardava o bombardeiro que iniciava em torno das 21 horas,e em dias do sol de agosto ia pro Hyde Park pra namorar, se bronzear, escutar uns caras a xingar o rei, e olhar pro céu azul os dog fights ente os Spitfires e os Messerschmits, com aplausos e vaias, viajei pra cá, pro Rio, a cidade que amo loucamente, quase um vilarejo em 1941 hoje uma metropole cheia de defeitos, mas aí ainda está a Copacabana (mutilada) e Ipanema e Leblon ainda civiluzados, a Barra e Recreio jão são outra Cidade, eu aqui no meu canto em Ipanema há 50 anos e a 1000 metrs do Arpoador estou muito bem obrigado e pra você meu amigo se puder nas sua andanças ao passar pelo Leste europeu, passe por Bucareste e visite a rua onde morei, te darei o endereço quando for
    abraço

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    • Iosif, estou aqui com teus livros, que chegaram finalmente. Vou começar pela autobiografia, de que tenho tido diversos aperitivos cá nesta caixa de comentários. Obrigado pelo presente magnífico!
      Se quiser mandar o endereço, pode fazê-lo desde já, que guardarei para quando for viajar.
      Abraço!

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  4. Dizer qual é a cidade pra casar é mesmo complicado. Eu diria João Pessoa. Ainda bem que todas as ficadas que posso dar nas outras cidades não vão comprometer (muito) minha vida matrimonial, salvo se eu acabar sentindo muita falta depois. 😉

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    • Puxa, meus tios estavam para se mudar pra João Pessoa no ano passado. Adoravam escutar o saxofonista à beira do rio, tomando chope e vendo o por-do-sol (será que agora tenho que escrever “pordossol”?). Mas alguma coisa deu errado, foram parar na Florianópolis de sempre, hehehe.

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  5. Olá mon ami!

    Bom vê-lo de volta à blogosfera!

    Vejo Paris exatamente como essa dama que você fala. Mas, ao contrário de você, se eu juntasse meus trapos com ela, seria com comunhão de bens, e não separação.

    Afinal, eu, “latino-americano sem dinheiro no banco”, não tenho muito a perder e, no divórcio, poderia pleitear uma boa dúzia de restaurantes para me refestelar. Além, é claro, do Musée d’Orsay. O resto eu deixo para a prima donna mais sensitiva do mundo.

    E você, o que gostaria de levar de uma eventual separação litigiosa de Paris?

    Abraço,

    Lelec

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    • osrevni disse:

      Sei não… a história nos ensina que esse pessoal é mais competente que nós em tirar as riquezas alheias. De qualquer forma, se eu pudesse levar alguma coisa, levaria o sistema de transporte público. Não, naturalmente, os operadores desse sistema. Só as linhas, mesmo…

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  6. Que texto lindo! Que idéia maravilhosa! Namorei em Roma: tem razao em tudo que disse! Mas é lindo! Lindo. Londres, fria como minhas montanhas mineiras. Mas nunca vi o individualismo, em sua forma mais radical e corrompida, algo já previsto pelos teóricos, como na Inglaterra! Nao conheco Paris, mas no sul da Franca vi falta de docura. Brasil….só o Rio Grande do Sul é namorável. Barcelona é encantadora! E Berlim nao me fez medo.

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    • osrevni disse:

      É interessante como, ao escrever um texto como esse, a gente não se dá conta como o leque das experiências humanas pode ser rico e variado, às vezes mesmo contraditório, e cada um que coloca uma palavrinha a mais sempre tem alguma coisa a acrescentar sobre as idéias que a gente fomentou um pouco egoisticamente dentro da cabeça… É nessas horas que ter um blog compensa!

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  7. Novaes disse:

    Prezado Diego:

    Ao ler esse seu texto lembrei de outro, de Italo Calvino:
    “Em Maurília, o viajante é convidado a visitar a cidade ao mesmo tempo em que observa uns velhos cartões-postais ilustrados que mostram como esta havia sido: a praça idêntica mas com uma galinha no lugar da estação de ônibus, o coreto no lugar do viaduto, duas moças com sombrinhas brancas no lugar da fábrica de explosivos. Para não decepcionar os habitantes, é necessário que o viajante louve a cidade dos cartões-postais e prefira-a à atual, tomando cuidado, porém, em conter seu pesar em relaçâo às mudanças nos limites de regras bem precisas: reconhecendo que a magnificência e a prosperidade da Maurília metrópole, se comparada com a velha Maurília provinciana, não restituem uma certa graça perdida, a qual, todavia, só agora pode ser apreciada aravés dos velhos cartões-postais, enquanto antes, em presença da Maurília provinciana, não se via absolutamente nada de gracioso, e ver-se-ia ainda menos hoje em dia, se Maurília tivesse permanecido como antes, e que, de qualquer modo, a metrópole tem este atrativo adicional – que mediante o que se tornou pode-se recordar com saudades daquilo que foi.”

    (As cidades Invisíveis)

    Lembro-me sempre de Maurília quando vejo as cidades que se modificam, se transformam todos os dias, quase sempre para pior. O que me causa uma certa angústia. Outro dia, visitando um velho amigo em um bairro onde vivi muitos anos e sem ter estado por lá por outros tantos, não o reconheci. Senti como se me houvessem tirado os pés do chão. Meu passado estava como que apagado.
    Incomoda-me essa falta de memória das cidades, principalmente as do novo mundo. Por isso, muitas vezes resisto a voltar a lugares/cidades onde vivi, porque sei que estão tão modificados que já não os reconhecerei e temo perder o pouco da lembrança que deles ainda tenho… ah, a memória, essa impostora…

    Novaes

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    • Diego Viana disse:

      Olá Novaes,

      Obrigado pelo comentário simpaticíssimo. Volte sempre, eu suplico.
      Você citou um romance (se posso chamá-lo assim) que, para mim, é uma das coisas mais belas escritas no último século.
      E aproveitando o seu gancho: será que nosso fascínio pelas cidades, como se fossem mulheres, como se tivessem uma alma e uma identidade imutável e profunda ao longo do tempo (até certo ponto, têm mesmo), não seria justamente uma reação mais ou menos estética, mais ou menos moral, à monstruosidade das transformações urbanas dos últimos cento e tantos anos, que fizeram de nossos lares (as cidades são também lares coletivos, por que não?) verdadeiros Leviatãs de asfalto e aço?
      Talvez seu clamor pela memória das cidades também reflita essa angústia, aliás já presente em Baudelaire.

      Um abraço
      Diego

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  8. Novaes disse:

    Prezado Diego:

    Para arrematar o papo, mando um pequeno trecho do livro de Ariel Dorfman, “Uma Vida em Trânsito”, que é uma linda declaração de amor a uma cidade:

    “Saí para uma demorada caminhada sozinho. Eu gostava, e ainda gosto, das
    noites de verão em Santiago. Mesmo hoje, quando o nevoeiro e a fumaça
    arruinaram o Vale Central, quando o excesso de carros poluiu o ar e as
    árvores foram derrubadas para dar espaço a feias quadras de prédios e
    avenidas infestadas, mesmo hoje que sujamos impiedosamente o que foi uma
    paisagem mágica, ainda hoje, permanece a sensação de deslumbramento e
    gratidão quando o sol começa a se pôr. Estar vivo no momento em que a brisa
    desce das montanhas e você respira fundo, não somente com os pulmões, mas
    através da própria pele, como se a terra o acalmasse, é conhecer uma medida
    do perdão. É somente uma trégua no escuro, mas sempre que estou sob os Andes de Santiago e sinto essa súbita rajada que parece vir dos portais do Paraíso e faz recuar o calor intenso e seco do dia, quando olho para cima e as
    montanhas estão em fogo com o pôr-do-sol, os Andes se tornando laranja,
    depois, vermelho, e o céu atrás cada vez mais púrpura, até escurecer, e a
    noite fica em suspensão, tenho certeza de que essa é a condição para a qual
    fomos feitos, essa paz. Tudo é uma ilusão, não pode durar, esse interlúdio
    de crepúsculo, quando parecemos ser abençoados, quando parecemos ter
    reencontrado o nosso caminho, o que, por um breve momento, é verdade, o
    corpo, a brisa, esse momento silencioso suspenso entre a luz e as trevas,
    que se deseja que nunca termine. …”
    Novaes

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