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Esqueletos no armário

Duas semanas atrás, recebi de meu amigo Leonardo (que, aliás, não gosta de ser chamado pelo nome inteiro) um e-mail que me instava a ir ver a última pepita do cinema alemão, em cartaz nalgumas poucas salas de Paris. Der Baader Meinhof Komplex é o nome do filme, que deve sair no Brasil como “A Facção Baader-Meinhof”, a não ser que entre em ação nossa velha mania de estragar nomes de filmes e ele acabe como “Jovens, rebeldes e armados” ou algo parecido.

Achei que não conseguiria atender ao pedido de Léo, assoberbado que estava, e estou, com as obrigações da vida. Mas surgiu um par de horas vagas, vi o filme e posso fazer um agrado ao amigo, que manifestou seu desejo de discutir a obra via blogs. Pois bem, ao trabalho! E já aviso que vou precisar, provavelmente, dividir minhas idéias a respeito por dois textos, se as leis da blogosfera não se opuserem. Neste primeiro, mando comentários sobre o filme em si. No próximo, enveredo pelas questões um tanto problemáticas que ele suscita.

Em primeiro lugar, devo declarar o seguinte: contra os alemães, podemos fazer todo tipo de crítica, mas não dá para negar que cinema, eles sabem fazer. O filme de Uli Edel, apesar de um roteiro que tenta ser enciclopédico e acaba ligeiramente confuso, além de um retrato talvez conveniente demais dos personagens (sei que o comentário é obscuro; pretendo esclarecê-lo adiante), é daqueles que só deixam indiferente o espectador beócio completo (não que essa seja uma espécie rara). Pertence a um gênero bem típico de nosso tempo, e que a Alemanha tem motivos particularmente fortes para cultivar.

Podemos batizar esse gênero como “esqueleto do armário”. São reconstituições romanceadas, às vezes mais, às vezes menos, de momentos históricos traumáticos e, se possível, embaraçosos. No Brasil, por exemplo, discute-se a última ditadura, a luta armada e, de preferência, a tortura. Os franceses começam a abrir a caixa preta da colaboração com os nazistas, enquanto remoem a saudade do tempo em que a juventude não estava contente só de reclamar e tinha coragem de enfrentar, de verdade, a polícia sua inimiga – falo de 68, claro.

E para os alemães não falta assunto. A ascensão de Hitler, o holocausto, a guerra, a Gestapo, a Stasi, a divisão do país, os grupos extremistas, os neonazistas, o muro de Berlim… Milhares de roteiros estão garantidos. Baader Meinhof (vou chamar assim para simplificar) conta a história dos membros fundadores da Rote Armee Fraktion, ou Facção do Exército Vermelho, um grupo de extrema-esquerda que deu um trabalho enorme ao governo da Alemanha Ocidental nos anos 70.

Fundado em reação à morte do estudante Benno Ohnesorg por um policial e a quase concomitante tentativa de assassinato, por um rapaz de simpatias nacional-socialistas, do líder estudantil Rudi Dutschke, a facção acabou se tornando o mais famoso grupo de ação política violenta do país, a ponto de realizar e inspirar ações que beiravam o terrorismo e, no final, descambaram em definitivo para o terror puro e simples. No início dos anos 90, quinze anos depois da morte dos pais do movimento, ao dar por oficialmente encerradas suas atividades, a R.A.F já era definitivamente uma organização terrorista.

Comparado a outros emblemas do esqueleto no armário, como Adeus, Lênin, Edukators, A queda, A vida dos outros e Sophie Scholl, este não chega a ser exatamente um ícone do gênero. Por exemplo, o que deveria ser a história dos fundadores da R.A.F. acaba se perdendo em subtramas sobre as (assim chamadas) segunda e terceira gerações. Mesmo assim, é um grande filme para quem se interessa pelas peripécias da geração de nossos pais. Menção honrosa, como sempre, para as interpretações. Os atores alemães dão seu espetáculo habitual.

Isto aqui, porém, como de costume, não é uma crítica. Muito mais me interessa a história, um enredo que dá pano pra manga a quem se deixa fascinar por eventos do passado, com toda a estranheza que eles podem causar em quem não tem a triste pressa de encaixá-los logo de uma vez num julgamento qualquer, um juízo determinado, no mais das vezes, por conveniências pessoais. Nossas sensibilidades de princípios do século XXI, diante de ações como as de Andreas Baader, Gudrun Esslin e Ulrike Meinhof, provavelmente perguntarão por que essas pessoas jovens, belas e inteligentes largaram tudo para viver na clandestinidade e na cadeia; por que pegaram em armas e arriscaram a própria vida; por que se radicalizaram tanto, a ponto de perder a noção de quem estavam atacando e por quê.

Tenderíamos a rapidamente lhes atribuir um enorme ódio à democracia, pelo fato de quererem derrubar pela força das armas um regime, para instaurar outro em seu lugar, sem grandes consultas à população. Tenderíamos a dispensá-los como iludidos ou loucos. Mas tudo isso parece apressado, se não partimos de um ponto quase ingênuo: a perplexidade perante uma era de conflito e engajamento que, aos olhos de alguém com menos de trinta e tantos anos, parece não ter sentido.

O diretor Uli Edel e o roteirista Stefan Aust (autor do principal livro sobre o grupo) afirmam terem se preocupado em realizar o filme da forma mais objetiva possível. É claro que isso não existe e eles falharam. Através da Europa, estão sendo acusados de glorificar o terrorismo. Talvez por mostrarem na tela o encadeamento causal da escalada do terror, o que é quase proibido num tempo em que as condenações têm de ser sumárias e veementes, qualquer olhar em perspectiva sendo carimbado como “justificativa do injustificável”. Talvez por esconder casos como o de Horst Mahler, que, membro da facção e advogado dos companheiros, tornou-se, atualmente, um dos principais líderes neonazistas do país. Talvez por não mencionar que os principais movimentos de esquerda da Alemanha Ocidental repudiaram com veemência as ações do grupo, a começar pela Sozialistischer Deutscher Studentbund (Sindicato [União] dos Estudantes Socialistas Alemães) de Rudi Dutschke, ironicamente um dos principais inspiradores de Baader, Ensslin e Meinhof.

Talvez, também, por realçar o lado glamoroso dos envolvidos, o apoio popular que eles receberam durante os julgamentos, que foi grande, mas nem de longe tão exuberante. Ou com pequenas atitudes como esconder a língua presa de Andreas Baader, retratado como o rebelde inconseqüente que era, mas um tanto romântico, o que não é preciso: sua rebeldia era uma extensão politizada dos tempos de delinqüência juvenil. Mesmo depois de se engajar na luta contra o capitalismo, continuou tendo fixação por (roubar) automóveis de luxo. Em resumo, ele não tinha, à parte um carisma fora do comum, qualificação nenhuma para liderar um grupo clandestino.

Quanto ao retrato do grupo, o filme insiste de maneira talvez suspeita em mostrar a preocupação da “primeira geração” em não atacar alvos civis (“o povo”, na terminologia que empregavam). Insiste também nas cenas emocionais e na tentativa de explicitar até que ponto aquelas eram, afinal de contas, pessoas normais, como qualquer um de nós, mas que “simplesmente resolveram agir”. Ora, convenhamos, a pasmaceira de nosso começo de século é uma prova irrefutável de que resolver agir não tem nada de simples.

Mas a acusação de apologia ao crime, creio eu, não procede. Afinal, por outro lado, o filme releva algumas questões graves que conduziram à radicalização dos fundadores do grupo. Fica-se com a impressão de que todo aquele esforço era em protesto contra a guerra do Vietnã e nada mais. Embora a maior parte das bombas da primeira geração da R.A.F. tenham explodido em dependências do exército americano, essa interpretação está bastante exagerada.

Por exemplo, o governo da Alemanha Ocidental. A administração do país ainda estava, por incrível que possa parecer, apinhada de ex-membros do governo nazista. O braço direito de Konrad Adenauer, o ícone da democratização da Alemanha Ocidental, era Hans Globke, redator do ato que retirou a cidadania alemã de judeus, em 1935. Em 1966, a coalizão no poder elegeu Kurt Georg Kiesinger, membro do partido nazista durante a guerra, como primeiro-ministro. Muitos alemães não engoliam a rapidez com que o processo de desnazificação do lado ocidental foi dado por encerrado, entendendo que a Alemanha tinha se tornado apenas mais um instrumento do imperialismo americano. (Algo semelhante ocorreu também na Itália.)

Nesse contexto, é menos surpreendente o rumo que as circunstâncias tomaram. Benno Ohnesorg, já mencionado, foi morto pela polícia numa manifestação que o filme reconstitui perfeitamente, mostrando como a polícia permite aos manifestantes pró Xá Reza Pahlevi descer a mão, além de objetos terrivelmente dolorosos, sobre os estudantes que protestavam. O que o filme não mostra é a forma como o rapaz morreu: com um tiro à queima-roupa na nuca. Vemos apenas uma morte acidental, quando o que ocorreu, de fato, foi uma execução.

Não leia os próximos parágrafos quem desconhece inteiramente a história, para não, digamos, “perder a surpresa”. Mas a ausência mais grave do filme é a polêmica em relação à morte dos protagonistas. A versão oficial, do suicídio coletivo, é comprada e, pois sim, justificada. Dos três mortos em outubro de 1977 (Ulrike Meinhof, a jornalista, já tinha se enforcado), dois teriam tirado a própria vida com revólveres que, até hoje, não se sabe ao certo como entraram na cadeia. A terceira (Gudrun Ensslin) se enforcou na janela e uma quarta detenta, Irmgard Möller, golpeou-se diversas vezes no peito com uma faca de ponta arredondada, dessas de passar manteiga no pão, mas sobreviveu para declarar repetidamente que seus companheiros haviam sido executados por agentes da prisão.

Der Baader Meinhof Komplex passa por cima da suspeita. Mostra toda a preparação das mortes, o contrabando das armas para dentro da prisão (uma realização, no mínimo, espetacular), o pranto dos mais jovens quando uma veterana de R.A.F. lhes anuncia o suicídio coletivo. Porém, vá saber por quê, não se vê nada sobre o inquérito relâmpago que, em menos de uma semana, atestou as causae mortis. Tampouco se fala sobre o fato de que o canhoto Andreas Baader tinha marcas de pólvora na mão direita, nem por que Jan-Carl Raspe não tinha marcas de pólvora em nenhuma das mãos. Ficou por explicar, também, como Baader teria conseguido atirar em si mesmo na base do crânio, numa posição de contorcionista um tanto improvável. Aliás, mais que contorcionista, o rapaz era muito ruim de mira: havia três balas alojadas na cela, o que significa que ele errou a própria cabeça duas vezes antes de morrer.

Gudrun Ensslin, que se enforcou pulando de uma cadeira que, magicamente, estava contra a parede do outro lado de sua cela, tinha entregue um bilhete a seu advogado, algumas semanas antes, em que afirmava ter medo de “ser suicidada” como tinha acontecido, no ano anterior, com Ulrike Meinhof. (Cheguei a mencionar as suspeitas sobre a morte dela? Pois bem… a autópsia indica que ela teria sido violentada e sufocada antes do enforcamento.) Mas também não se ouve nada a esse respeito no filme de Edel e Aust, que supostamente celebra o terrorismo.

Somando as omissões de lado a lado, o filme parece equilibrado; objetivo, não. Isso, como eu disse, não existe. Todas essas informações fundamentais que estão ausentes poderiam perfeitamente não aparecer no filme se ele assumisse uma configuração de thriller, aventura, romance. Mas a escolha ficou dúbia, em muitos momentos parece que a intenção era fazer um documentário. Nesse caso, a falta de menção a tudo que está dito acima e a aceitação sem questões da versão oficial são, de fato, graves. Poderíamos alegar que o filme mistura, ou funde, a ficção e o documental, mas num tema tão repleto de polêmicas, o resultado é apenas ficar no meio do caminho.

Mesmo assim, estranhezas à parte, reafirmo que Der Baader Meinhof Komplex faz parte da lista de filmes que precisamos ver, para adquirir um pouco de perspectiva sobre a história recente. Mas, como este texto já está extenso muito além da conta, deixo para o próximo as considerações que o filme me causou.

(Enquanto isso, mudo bruscamente o assunto para deixar meus votos de um feliz natal!)

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20 comentários sobre “Esqueletos no armário

  1. concordo com você que o cinema alemão é “bom”, alias como todo o cinema europeu em geral, mas devo anunciar que detesto o “alemão” e não pense pelo obvio por eu se judeu,detesto sua mente mecanizada,sua alma burocrática e suas crenças medieviais ainda nele enrraizadas.Quanto ao Baader-Meinhof inicialmente dá até pra simpatizar, protestar pela não desnazificação da Alemanha pós guerra, mas depois descambaram pro lugar comum de “bando” sem ideologia, e aí não dá pra condenar nenhuma das partes envolvidas (é o meu pensamrnto), guerra é guerra mesmo na “surdina”,morre e mata quem dela participa,a convenção de Genebra já foi pro espaço há muito tempo, tortura e execuções imperam em todas as guerras,enfim,só me resta talvez a apreciar o filme pela arte cinematográfica em si quanto ao resto é o resto, a humanidade é canalha, você que é filosofo espero que encontre alguama centelha de esperança e bondade, na minha longa vida não vi nada que valesse a pena, gerações com mesmo DNA sempre em conflito não há pior que isso, tenha certeza

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  2. Alba disse:

    Taí um tema interessante. O último filme alemão que vi sobre este tema, foi “Os Anos de Chumbo” da Margarethe Von Trotta. Saí do cinema sinceramente impressionada com a crueza de algumas cenas, como a que mostra a morte da militante da Baader-Meinhoff e a expressão que têm no rosto, totalmente distorcido, mostrando intenso sofrimento.Só um comentariozinho, talvez irrelevante, mas que é uma das coisas que me incomoda nos pretensamente “criativos” brasileiros: a expressão “anos de chumbo” passou a ser usada, abusada e lambuzada, por anos a fio, por conta deste filme, e referindo-se à nossa ditadura, por supuesto.

    Como sempre, seu texto é muito bom. Não tenho conhecimento extenso sobre a origem dos grupos armados que agiram nos anos 70, como a Baader-Meinhoff e as Brigadas Vermelhas (essa última foi lembrada no bom filme de Marco Belocchio – “Bom dia, Noite”, sobre o assassinato de Aldo Moro), mas acho que é muito razoável supor que, na Alemanha, um dos elementos que compuseram a formação de tais grupos tenha sido a pouca desnazificação na Alemanha Ocidental – o que nos traz um outro dilema, já que até certo ponto, teria sido muito mais difícil reconstruir o país depois da guerra, sem a formação técnica e administrativa dos nazistas. O desastre da intervenção americana no Iraque, sacrificando todos os administradores, por conta da associação com Saddam, mostra este truísmo: a História não é mesmo escrita como um filme de Hollywood, com bandidos e mocinhos bem delineados.

    No próprio “Anos de Chumbo”, se a memória não me falha, agora falando sobre a questão do voluntarismo, ou dos grupos que “pareciam surgir do nada”, fiquei com a nítida impressão de que o entusiasmo militante da moça abraçando causas como a Fatah, parecia muito mais um gesto de voluntarista, de boas intenções, do que motivado por considerações mais pensadas, ainda que a luta dos palestinos seja sempre digna de apoio, na minha opinião.

    Por fim, acho interessante que se lembre de que a marca dos grupos armados dos anos 70 era mesmo evitar atingir a população civil, muito diferentes, portanto, de grupos do tipo Al Qaeda.

    Obrigada pela dica. Vou demorar talvez, pra ver, porque moro numa cidadezinha, que é claro, não privilegia este tipo de filmes na programação do único cinema. 😦

    E, sim, Boas Festas para você e todos os frequentadores do seu espaço!

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  3. Olá Diego, mon ami,

    Antes de tudo, gostaria de lhe agradecer efusivamente por ter atendido ao meu pedido e ter topado escrever sobre o filme. Fico feliz que tenha apreciado o longa.

    Bem, quanto ao meu nome, Leonardo, gosto muito dele. O que às vezes me causa um estranhamento é quando, em uma descontraída roda de amigos, me chamam “Leonardo”, ao invés de “Léo”. Fica parecendo que fiz alguma coisa errada. Mas é só um calafrio passageiro, nada com o nome em si, que acho muito bonito.

    Mas vamos falar do filme. A primeira e óbvia constatação ao vê-lo é que não é apenas na música que a geração de nossos pais foi mais feliz que a nossa, pois “conviveram” com Beatles, Led Zepellin e tantos outros – e nós ficamos com os Backstreet Boys. Até no terrorismo nossos pais foram mais bem aventurados que nós! Enquanto os terroristas de nossa era são uns barbudos feiosos, fedorentos e com turbante na cabeça, para a geração dos anos 60-70 as terroristas eram umas loiras nórdicas, bem vestidas, voluptuosas, que escondiam metralhadoras por baixo do vison. Ô épocazinha infeliz essa a nossa…

    Alguns pontos para discussão:

    1)Concordo que o filme não é objetivo. O diretor disse ter procurado fundamentar os diálogos nas transcrições de documentos da época, entrevistas, etc. Mas é claro que a tal objetividade não foi alcançada. Não vejo isso como uma falha. O filme, como você bem diz, é equilibrado. E nós sabemos que imparcialidade não existe: “o ser humano é capaz de tudo, até mesmo de uma boa ação, só não é capaz de uma imparcialidade”, já dizia Nelson Rodrigues.

    2)Também concordo que o filme não faz apologia ao crime. Ao contrário, penso que ele quer justamente desmistificar o romantismo dos que pegaram em armas contra o governo alemão. Essa aura paira sobre grupos de esquerda dos anos 70 – mesmo a Legião Urbana fez uma música intitulada “Baader-Meinhoff Blues”, que começa com versos fortes: “a violência é tão fascinante / e nossas vidas são tão normais”. Quando um jornalista francês disse ao diretor que o filme sugere que a Alemanha da época merecia o tratamento que recebeu de Baader-Meinhoff, Uli Edel respondeu: “O Sr. me surpreende profundamente, porque não foi isso o que quis dizer, absolutamente. Isso significaria validar atos criminosos. Ora, segundo o que penso, o recurso ao terrorismo não admite nenhuma justificativa, mesmo quando ele se faz “a serviço” de uma democracia em perigo”.

    3)Por esse esforço de mostrar o grupo como terroristas, é que penso que o diretor preferiu deliberadamente não investigar a hipótese do “suicídio” dos líderes presos. Aliás, a última frase do filme é tremendamente significativa (não me lembro exatamente das palavras): “Vamos olhar para o que eles realmente eram”, vindo da boca da então líder do movimento, retrucando aos jovens que queriam acreditar que o trio fora assassinado e que a causa mortis não fora suicídio.

    4) O filme começa em uma praia “burguesa”, ao som de Janis Joplin (Mercedes Benz): “Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Bens/ My friends all drive Porches..” A canção que encerra o filme é Blowin’ in the Wind. Talvez seja uma reflexão a mais: uma juventude espremida entre duas coisas, o repúdio à sociedade consumista e a vontade de mudar o mundo. Deu no que deu.

    Grande abraço, e, mais uma vez, obrigado por trazer essa discussão a este espaço.

    Léo/Leonardo/Lelec

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  4. Diego, nesta categoria tão bem batizada por você como “esqueletos no armário” achei “Adeus, Lênin” um filme fantástico já que conseguiu lidar com a delicada questão da queda do muro e da unificação Alemã de maneira bem humorada e leve. Vou aguardar o lançamento por aqui deste filme sobre a organização Baader Meinhof com interesse. Aproveito para desejar um EXCELENTE 2009 para você e sua família!

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  5. Uma questão que vejo no cinema alemão mais atual, em particular esse que fala dos esqueletos no armário, é que os novos cineastas parecem não mais carregar a culpa por Hitler como a geração anterior — os Fassbinder, Herzog, Schloendorf e cia da vida. Os filmes atuais são bem mais leves nesse aspecto, por mais que lidem com temas sensíveis à alma alemã.
    Bom, agora é esperar a seqüência do post.
    Bonne année, mon pot!

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  6. Salve, salve camarada… Não preciso falar muito sobre o texto. É bom. No mais, meu caro, fico na angústia de assistir ao filme, que temo não chegar aqui no Brasil… Como você sabe, filmes do tipo não circulam muito e as salas que se dedicam a exibi-los estão fechando. Triste, por exemplo, ver um cinema como o Palácio, ali perto da Lapa, fechar as portas e olha que o tal nem era tão “cult” assim! Enfim, deixando as mazelas de lado, aproveito para desejar um feliz ano novo atrasado!

    Respondendo ao teu questionamento sobre o fim do mestrado: Melhor não poderia ter sido, fechei o caixão com indicação, por parte da banca, de publicação da dissertação. E as novas? Inicio o doutorado em março.

    Forte abraço e saravá!

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  7. Diego,

    não é só a qualidade do seu texto que me impressiona, aliás seduz! é o time de comentaristas, todos com muito argumento. Eu, cá da Paulista não vi o filme, mas adoraria. Ah, e seja Léo, Leonardo ou Lelec , o cara é brilhante né? Aliás, cara não, Dr!

    Feliz 2009, apesar do mundo tentar conpirar

    beijos

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  8. Caro Diego, acho esse assunto muito interessante. Enxergo aquele momento como decisivo na mudança de percepção do mundo e da política que se consolidou durante a década de oitenta. Acredito que foi lá que uma energia contra-cultural dos anos sessenta se esmaeceu. A reivindicação por um mundo além das opressões civilizatórias do ocidente, parece se voltar contra as suas características anti-autoritarias e se tornam uma forma de dominação. Acho que o exemplo mais nítido é o da anti-psiquiatria, que acabou por se tornar o maior defensor do fim das políticas públicas de saúde mental do final do século XX.

    Lembro de outros filmes que tratam desse assunto, como o Gimme Shelter, dos irmãos Maysles e o Terceira geração, do Fassbinder. Aliás, dois filmaços.

    No caso da R.A.F., o meu interesse é ainda maior. Eles pareciam encarnar uma situação sem saída, uma luta contra um aparelho de estado democrático pronto para atuar de forma nazista, de acordo com as exceções do regime vencido na guerra. Contra essa violência herdeira do totaliarismo, forjam um grupo que mais do que propor uma saída, propõe o caos, a confusão na vida cotidiana, em uma espécie de aposta em uma pedagogia irracionalista. O autoritarismo e um recrudesimento do absurdo na sociedade alemã. Mais uma vez, tentavam tutelar a racionalidade, no estilo mais próximo da racionalidade instrumental.

    De forma intervertida, o totalitarismo seria combatido com os paradoxos da violência e Assim, ao mesmo tempo em que a R.A.F. condenava a violência, a produzia.

    Quando eu vi, gostei muito do filme de Von Trotta que a Alba mencionou. Considerei, ao contrário de sua ironia, cheio de desequilibrios.

    A diretora tratava o que o grupo tinha de heterogeneo. Suas divergências, contradições e impasses. sobretudo, tratava da dificuldade de se justificar o destino que aquela juventude perigosa teve. é um filme sobre a violência e seu ciclo de auto-reprodução. Aliás, aparecem cenas em que a confusão do grupo fica bem clara, como em sua relação com outros grupos revolucionários, como no do esculacho que eles levavam ao tentar se aproximar da OLP. O Spielberg, cineasta que não é da minha predileção, também falou dessa ingenuidade de Andreas Baader. No filme Munique, ele é um inocente útil, um otário que se torna um fantoche manipulado pela rede de espionagem internacional.

    Ainda não vi esse filme de Uli Edel, mas no filme de Von Trotta, as cenas de repressão policial são as que mais chocam. É desesperador ver os militantes nas tais celas a prova de som. A situação se mostra sem saída, em uma sociedade que não quer saber da sua crueldade e uma forma de mostrar o absurdo da sociedade alemã pós-nazismo que só aumenta essa crueldade.

    Na minha opinião, no entanto, o artista que melhor retratou a indiferença e a frieza diante dessa tragédia foi o pintor alemão Gerhardt Richter. Na sua série hiper-realista, lida com a indiferença quase documental do tratamento do caso e dos possíveis assassinatos pelas autoridades alemãs.
    http://www.gerhard-richter.com/art/paintings/photo_paintings/category.php?catID=56

    Por fim, não acho que existam povos bons ou maus, existem é situações históricas. Interpretá-las a luz do caráter de um povo é desconsiderar o que acontece e imputar um desvio, uma doença onde existe uma situação concreta. Aliás, não consigo pensar em um caráter nacional, numa personalidade nacional (como melhor definiu o Dante Moreira Leite). Involuntariamente, iosif joga água no moinho do anti-semitismo. Bem abraço e obrigado por me entusiasmar.
    PS – Diego e comentaristas do blog, por favor, dêem uma olhada no blog que eu participo com outros camaradas.
    http://guaciara.wordpress.com/

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  9. O tema do esgotamento da capacidade crítica das vanguardas e das neo-vanguardas me interessa sobremaneira. Aliás, dedico muito tempo ao assunto.

    Acho que existem contra-culturas e contra-culturas. Estou certo que aquelas forças radicais tiveram importância fulcral em vários lugares do mundo e em diferentes áreas. O assunto permeia o feminismo, os Panteras Negras, a Nova música experimental européia (tipo Cornelius Cardew e nos EUA todos os filhotes do Cage), a Pop Art, as guerrilhas latino-americanas e até o jeito como aparece o futebol nas canções dos novos baianos, por exemplo. O que parece juntar coisas tão distintas é uma contestação da autoridade, melhor, uma contestação jopvem da autoridade. No livro Youth, do Jon Savage (tal como no seu Faber Book of Pop) esse fenômeno é narrado de maneira belíssima. Assim como nos escritos do Mike Davis sobre as riots em LA Strip e o imaginário em torno dos drop outs na Califórnia dos anos sessenta, no livro Cidades Mortas.

    Ambos os casos falam de uma sociedade que não dá mais conta de uma energia libidinal que tem força destrutva e cria novos modos não tradicionais de sociabilidade. Essa busca para o novo, aqui ganha um novo fôlego e não é atoa que a revolução cultural tenha chamado a atenção de tanta gente no período. Assim como os jovens membros do PC chinês, capianeados por Mao, essa molecada queria tomar o mundo, nem que precisasse quebrar tudo. Por isso, o Adorno até chamado a polícia. Para apagar o incêndio no célebre Instituo de Pesquisas sociais.

    Aliás, é aí que chegamos ao caso específico da RAF. Eles também tentam romper com uma tradição que teve seu apogeu e ocaso no nazismo. Que no caso era mesmo a maior personificação da autoridade castradora e repressora. Uma civilização do controle, da racionalidade técnica e da violência calculada.

    Para reverter isso, os RAF recorrem à tática do pavor, da destruição da vida das pessoas. Em certo aspecto, são um caso clássico: faze a luta para acabar com a opressão, mas se esquecem de perguntar aos oprimidos sobre as consequencias de suas ações. Dizem libertar as pessoas, mas não perguntm o que elas querem. Assim, traam uma luta que é mais conceitual e uma vontade de provar que tem razão do que uma melhoria na vida de alguém.

    Tão grave quanto isso, eles se consideram proprietários de uma supraconsciência crítica. A nós, pobres mortais, resta o espanto diante daquele espetáculo e a obediência às concluoes dos iluminados. Assim, aquele pensamento anti-autoritário, tenta amedrontar os outros e se pensa como aristocracia. Eles acharam a salvação, mas não nos indicam, só nos lembram o quão oprimidos e dominados nós somos, mas eles não. Essa saída pelos costumes me parece problemática. Agora, nada do que falo tem a ver com o filme.

    Acredito que o que falei antes também seja o pecado de origem dos situacionistas. Não tenho certeza disso, teria que pensar melhor, mas isso me incomoda. Sinto-me chamado de trouxa toda vez que leio esses trecos.

    Sobre o Andreas Baader, naquele livro Televisionários falam que ele não era uma liderança intelectual do grupo, mas um militante com carisma e coragem. Topava qualquer parada e se tornou um membro de confiança de todos. Assim que ele galgou postos, não na elaboração de um programa. quem era dada a elocubrações era a filha de pastor alemão Gudrun Ensslin. Pelo que sei– muito pouco, muitíssimo pouco — ela parece ter muita importância programática, embora não tenha aparecido no nome do grupo.

    Agora, que engraçado, eu nem tinha me atinado às datas. Valeu por lembrar. O personagem do Spielberg é fictício, mas se chama Andreas, é líder da RAF e traz parte das contradições da guerrilha alemã da época a tona. No filme, o sujeito ajuda o Mossad e pensa prestar um serviço à “causa”.

    O que eu achei curioso mesmo é o que eu vi hoje de tarde na internet: o ator que faz Baader no filme de Uli Edel é o mesmo que faz Andreas no filme do Spielberg. O sujeito está se especializando.

    Gostei muito do que você falou desse período de engessamento da contestação. Estou muito curioso para ler este post vindouro. Muito obrigado por acompanhar o papo no guaciara. Fico muito honrado.

    PS _ Olha o que eu achei por aí:

    http://www.marxists.org/reference/archive/sartre/1974/baader.htm

    http://thequietus.com/articles/00799-the-baader-meinhof-complex

    muito obrigado e um abração

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