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Olhos de pedra

Esta é uma cidade erguida em pedra. Seu crescimento mais brilhante veio pouco antes de se abandonarem os blocos cinzentos e custosos em nome do ferro torcido e, finalmente, do concreto, este também acinzentado, mas pastoso e barato. A pedra era matéria nobre, privilégio de fortes e palácios. Cedida à cidade, ergueria o nome da capital do terceiro Napoleão acima de suas rivais e vizinhas do Velho Continente, que se espalhavam ainda com o pobre e simplório tijolo de barro. Que importa se as outras cresceriam mais, enriqueceriam, seriam coalhadas de edifícios altos, para ocupar o espaço deixado vazio pelas bombas de duas guerras? Ainda hoje, esta Paris regular, simétrica, monótona, é incensada ao redor do mundo, justamente por sua arquitetura litólatra.

Pois foi nessas pedras que os arquitetos esculpiram rostos humanos. Nos prédios mais nobres, cada friso de janela é coroado por uma face em baixo-relevo, como se o cômodo que defende fosse um ventre exposto e arejado. A caminhar pelos bairros de boa linhagem, progridem os números dos edifícios, desfilam as imagens. Muitas dão a pensar nas máscaras da tragédia ática, grandes bocas escancaradas em risos ou máscaras de terror. Outras se quedam neutras, caladas a mirar os passantes sem julgá-los. Há ainda faunos e sátiros, deusas e musas, demônios, esgares furibundos. Uma população, em suma, tão variada quanto a dos vivos.

Gosto de observá-los, esses rostos centenários que testemunharam revoltas, guerras e gerações. Ali estão, a enfeitar apartamentos sem que os proprietários dêem por eles. Diante da variedade de traços e feições, que refletem talvez os humores do arquiteto, troco olhares com as pedras e sou tomado por perguntas que elas não podem responder. Desejo entender o que representam tantas faces, como se escolhiam os temas, por que não se fazem mais. Parecem mais interessantes que os monumentos.

Busco me informar nos livros e na rede. Não encontro estudos a respeito e isso me irrita, mas concluo que sou eu que procuro com palavras equivocadas, porque é certo que alguém já escreveu, já disse, já estudou algo sobre as fileiras de faces. Com meu insucesso, enfim, as imagens frias, que choram quando chove, mas não coram se faz sol, seguem sendo enigmas. Tanto mais, quanto mais meus caminhos as cruzam.

É patente que viviam em outro mundo os ancestrais a quem não bastava edificar as paredes, nuas e lisas, para abrigar os cidadãos honrados, como fazem nossos pares. Aqueles eram tempos em que a eficiência cedia, um pouco pelo menos, lugar aos gracejos. Ardo para saber o que se passava em suas cabeças, quando se dispunham a encarecer o orçamento para que as janelas pudessem contar com cabeças vigilantes e severas, entre os capitólios e as folhas de parreira, também esculpidos.

Lembro de Panofka, que deslindou a charada da perspectiva, eminentemente horizontal: baseia-se, ele entendeu, nas proporções do rosto humano. Cada palácio, cada prédio inteiro, é calculado para harmonizar-se muito mais para os lados que para cima, pois seu princípio, sua causa inconsciente, está posta pela linha dos olhos, a circunferência do crânio, o risco dos lábios. Por que, então, pontilhar de faces as fachadas, se já cada construção é um grande rosto disfarçado, sólido e vivo?

Os prédios são antigos, mas os dias que a cidade vive são os de hoje. Abaixo de sua arquitetura centenária circulam veículos do ano, entre os cartazes contratados pela quinzena. Nas esquinas, postes elevados, coroados por tubos soturnos em lento movimento pendular, mais ativos do que os rostos de pedra que já vão trincando. Dentro dos cilindros, já integrados às paisagens e esquecidos dos passantes, trabalham as câmeras que me protegem, à espera de que eu, ou alguém mais, atente contra a segurança pública.

Dos olhos que não me enxergam, das lentes que me perseguem, sinto que me dedicam uma atenção exagerada. Pedras e circuitos, convidando o indivíduo a cair na paranóia. Seja talvez por isso que não se esculpem mais os rostos. Para evitar o excesso, pois um cidadão abafado é menos produtivo e mais irritadiço. E como as câmeras são mais eficientes, gravam crimes e os evitam, enquanto os rostos só enfeitam as ruas, fica-se com as máquinas, abdica-se das faces, na seqüência de um cálculo bem natural de lógica impecável. Tudo assim se explica. Nem tanto, é certo, como pensavam os antigos, mas sem dúvida como pensam os atuais. E é isso, a bem da verdade, que se quer sempre explicar.

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14 comentários sobre “Olhos de pedra

  1. as edificações “antgamente” eram erguidas por artífices quase artistas,tantos detalhes ornamentais desaparecendo com o tempos, como também desapareceram os “artistas”, as figuras esculpidas na fachadas dos prédios parisienses não sei dizer o motivo a não ser ornamental,que as “inventou” não sei mas sei com certezas que os artistas da construção civil desapareceram e exemplico, construir hoje um prédio leva 1/3 do tempo quando eu construía, hj é montagem desapareceram os carpinteiros portugueses que faziam as esquadrias em madeira, os que retalhavam pedras, os calçadeiros das “pedras portuguesas” das calçadas originais não existem mais, nada é feito mais pra eternidade,
    tudo descartavel e desmontável, qndo souber a origem das figuras das fachadas parisienses me avise

    abraço

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  2. Tu tens uma linguagem poética que eu aprecio. Já tinha vindo aqui quando tu comentou no Usina, mas na hora não consegui parar pra ler com calma. Agora voltei exatamente no texto que me chamou mais atenção, por causa da foto. “que choram quando chove, mas não coram se faz sol”. Inpirado.

    Já visitaste o cemitério da Recoleta, em Buenos Aires? É repleto de imagens assim, além de anjos. Muito bonito.

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