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Marlon Brando, o terrorista

Ventava forte naquela noite. Choveria ao final da sessão, senão antes. Mas, contra o clichê literário, ainda não estava escuro quando começou o filme. Os organizadores do festival adiantaram o início, temendo a tempestade inevitável. O cinema ao ar livre é uma delícia, mas está sujeito a emoções fortes também fora da tela, como bem sabe quem frequenta o evento anual do <em>Parc de la Villette</em>, cravado num dos bairros mais humildes de Paris.

A tela enorme ondulava a tal ponto que os <em>closes</em> e paisagens pareciam de sonho ou embriaguez. Tínhamos combinado com um grupo de amigos, mas quando nos sentamos sobre a grama, éramos só nós, o casal de guerreiros inquebrantáveis. Todos os demais tiveram medo da fúria dos céus, e com razão. No dia seguinte, algumas cidades da França foram desmontadas por um tornado. Ora… os covardes vivem mais, mas saboreiam menos a vida.

Nós, ao contrário, por amor ao cinema, nos enrolamos em cobertores e enfrentamos a tormenta. Pois os nomes pesavam mais do que as nuvens, era irresistível. Roteiro de John Steinbeck, ninguém menos. Marlon Brando e Anthony Quinn sob a direção de Elia Kazan, magníficos todos eles. Um grande clássico, quase uma chave inaugural da Guerra Fria: <em>Viva Zapata!</em>, de 1952. Com todos os tiros, belos cavalos e proselitismo velado em que o cinema americano é imbatível.

Marlon Brando, em seu estilo habitual, travestiu-se de seu personagem, para não precisar interpretá-lo. O astro, que esticou os olhos para virar japonês, pintou o cabelo para virar polonês e encheu a boca de algodão para virar italiano, vestiu organdi branco e sombrero, passou uma temporada na praia, fez-se de estrábico e se pôs a falar muito lentamente. <em>Voilà</em>! Um autêntico mexicano humilde, analfabeto, honrado e bigodudo. Zombaria à parte, o filme é um espetáculo. Anthony Quinn rouba a cena. Embora nos créditos seu nome ainda não apareça com destaque, já mostra por que foi um dos maiores atores do cinema no último século. As batalhas, os diálogos, tudo é belíssimo. E, se há incorreções históricas, se há um a pitada de doutrinamento, respondo que ao cinema tudo se perdoa. Era a Guerra Fria, cada fotograma tinha de estar a serviço da pátria.

Mas o melhor de tudo, na verdade, foi ver projetada na tela a ironia do tempo. Se fosse produzido hoje, <em>Viva Zapata!</em> seria considerado um atentado ao patriotismo. George Bush o condenaria como antiamericano, acabariam deportando Elia Kazan de volta para a Turquia, a Fox se recusaria a passar o material promocional. Marlon Brando, o mito fanhoso e fortão, teria seu retrato afixado em praça pública, procurado como perigoso terrorista. O grande sucesso, quem diria, transformado em enorme perigo pela correnteza das décadas.

Não há dois seres humanos mais distintos que o Zapata que morreu no México em 1919 e o Zapata que nasceu em Hollywood em 1952. Este último se espelhava metade em São Francisco de Assis, metade em Rambo. Descendia de uma família de renome, mas não sabia ler e não tinha um grão de terra que fosse seu. Desprezava as roupas elegantes e só queria um pouco de paz para os camponeses, seus vizinhos. Virou general por acaso, derrubou governos por sorte, teve uma rápida passagem pela presidência, mas renunciou, tomado de asco pelo universo do poder. Quando morreu, na emboscada, era cansaço de tanta luta, quase uma desculpa para depor as armas.

O Zapata do México era um pouquinho diferente. Tinha terras; era pouca, mas produzia. Adorava vestir-se com garbo, destoava pela elegância até exagerada nas festas, cultivava um bigode que devia lhe subtrair não pouco tempo da vida. É provável que soubesse ler, caso contrário teria sido em vão o esforço do amigo Ricardo Flores Magón em lhe apresentar livros anarquistas. Mas, ao contrário, deu resultado: Zapata se encantou pelo anarquismo a ponto de escrever um projeto de reforma agrária, o Plano Ayala, que influenciou o debate político mexicano por décadas. Por fim, se ele foi presidente do México, esqueceram de registrar e só contaram a Steinbeck.

Nem preciso dizer que o Zapata das telas é muito mais interessante. Fico imaginando os suspiros de nossas avós nos cines Serrador e Payssandu. O verdadeiro era muito humano, não chegou a general por acaso, tinha aspirações políticas e gosto de sangue, perdeu muitas batalhas e morreu porque se deixou enganar. Já Marlon Brando, quando mexicano, levava uma vida muito dura em nome de uma causa. Vivia escondido nas montanhas, arregimentava pobres camponeses ingênuos para sua luta, atacava comboios, preparava emboscadas, o escambau. Suprema ousadia, associou-se com comunistas e exilados para derrubar sucessivos presidentes de seu país. Alguns deles, até eleitos.

Não raro, dava um passo para fora de seu analfabetismo e discursava com as melhores técnicas da oratória. Conclamava cada homem a pegar em armas contra a iniquidade dos poderosos. Afirmou mais de uma vez que, se os oprimidos não se organizassem e lutassem, seriam humilhados até o fim dos tempos. Para ele, não havia governo e não havia lei que estivessem acima do sagrado direito do trabalhador à terra. Parecia que falava Jacobo Arenas ou Osama bin Laden, mas não. Era um astro americano, explicando ao público o poder do indivíduo contra a ameaça soviética.

Eis, porém, que nesse meio-tempo os vermelhos viraram poeira. Grupos armados que vivem nas montanhas, preparam emboscadas, atacam comboios, ameaçam governos e desconsideram leis fundiárias ganharam uma nova alcunha. Não são mais interpretados por galãs do naipe de Marlon Brando, levam no máximo alguns cascudos de James Bond, quando tentam destruir a civilização ocidental como antes faziam os vilões russos. A idéia de que as pessoas peguem em armas contra os poderosos se tornou perigosamente inconveniente, agora que no ringue do poder mundial só sobrou um lutador de pé.

O Zapata de Marlon Brando não era um general competente como o Zapata de Morelos: era um terrorista (pelos padrões contemporâneos) cujas vitórias se apoiavam tão somente em sua ideologia e sua sede de lutar. Hoje, mais de meio século depois de filmado, <em>Viva Zapata!</em> de Elia Kazan, mais do que um filme épico, é um documento histórico. Onde mais podemos ver a indústria de Hollywood aplaudindo efusivamente um grupo paramilitar, sabotador, proscrito, liderado por um anarquista violento, mal ajambrado e de pele morena (artificial, mas enfim)! Em tempos de Halliburton, o filme é uma oportunidade rara de ver os Estados Unidos prestando homenagem à iniciativa privada.

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7 comentários sobre “Marlon Brando, o terrorista

  1. o Marlon só tá um pouco mais descabelado que o original… Ainda não vi o filme, só que p/ falar a verdade eu não sei se encararia um tornado por ele… rsrsrs

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  2. a Internet me sabotou por uns dias, mss hoje ganhei o jogo.
    Quanto ao Anthony Quinn concordo, pra mim foi um dos maiores atores do cinema, deve ter feito teatro também, não sei dizer e o junto ao esplendido Burt Lancaster.
    Elia Kazan grande diretor, cometeu o erro de agradar o senador caçador de bruxas,e por falar em Marlon Brando fico no meio, nunca soube avaliar com exatidão seu mérito de ator.Assito filmes desde o tempo da mudez, vi o primeiro falado O cantor de Jazz(outra paixão minha, o jazz mainstream), mas tenho certeza absoluta, todos atores de origem ingleza( falo da Ilha)
    são fora de série, etc., etc, e também curti a história verdadeira de Zapata

    abraço

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  3. Pingback: Marlon Brando, o terrorista | O Pensador Selvagem

  4. Marlon Brando fez coisas maravilhosas e coisas questionáveis. Com o próprio Kazan, fez Sindicato dos Ladrões com mestria. Queimada é maravilhoso, Don Corleone é hors concours… Mas às vezes ele canastreava um pouquinho…

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