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À menor das grandes capitais

Genebra, crepúsculo no verão
Estou em dívida com uma cidade. Tudo que ela quer de mim, e eu venho protelando, é um punhado de palavras sobre como ela encanta sem fazer alarde, ao ponto de definir a si mesma como “a menor das grandes capitais”. Pois bem, cá estou para saldar a dívida, começando pelo epíteto que equilibra com tanta competência a auto-ironia e o orgulho, de uma maneira que só conseguem os muito refinados. Em outras palavras, ele se aplica com perfeição a Genebra.

Como um todo, a Suíça é um país muito instigante. São 41 mil quilômetros quadrados de lagos e montanhas, espremidos entre as legiões sempre famintas de França, Alemanha, Itália e Áustria. Esse adorável cubículo é compartilhado por menos de oito milhões de almas, que falam, de seu jeito bem particular, os idiomas de todos os vizinhos, mais um punhado de dialetos. Não consigo deixar de me surpreender com o fato de que um país tão pequeno tem quatro línguas oficiais. Mas é assim.

Os helvécios são gente conhecida por ser ordeira, educada e competente. São notórios especialistas em fabricar canivetes e relógios, além de lavar, nas horas vagas, o dinheiro de corruptos do mundo inteiro. Talvez seja por isso que as notas do franco suíço sejam tão belas, estampas coloridas de um bom gosto tamanho, que dá tristeza gastar.

Nesse país cheio de paisagens bucólicas, cada cidadão é um soldado, mantém um fuzil em casa e, se acaso for piloto de aviões, obrigatoriamente já comandou caças, na juventude. Não que haja risco de o país entrar em guerra, por suposto. A Confederação Helvética, que é como o país se chama oficialmente, é neutra por cláusula constitucional. O último aventureiro que inventou de atacar esses pacatos montanheses rigorosamente treinados para as batalhas foi um corso invocado de nome Napoleão, mas ele não demorou a se arrepender.

O país surgiu no século XII, em busca da tranqüilidade que as disputas internas do Sacro Império não proporcionavam. Genebra, por sinal, foi o último cantão a aderir, já no século XIX, quando se libertou do mesmo imperador corso que esbarrou na resistência suíça. Com isso, o cantão de Genebra é uma espécie de península cercada de França por quase todos os lados, ligada ao próprio país praticamente apenas pelas águas de um lago que leva seu nome.

Não chega a ser, como Berna e principalmente Zurique, a sede de grandes bancos e seguradoras, embora tenha lá seu pé no mercado financeiro. Na realidade, o próprio do local são as organizações supra-nacionais, que fazem de Genebra algo como a capital européia, para não dizer mundial, da diplomacia. Não é à toa que a Convenção de Genebra tem esse nome; dê um passeio sem direção pela cidade e esteja certo de passar diante dos escritórios da OIT, da OMC, da OMS e outras siglas célebres.

Talvez venha daí a definição de Genebra como menor dentre as grandes capitais. Pequena, ela é, sem dúvida, com seus cento e oitenta mil habitantes, incluindo as áreas rurais. Mas também, certamente, o ambiente é de grande capital. Avenidas largas, edifícios imponentes, arquitetura variada (bem mais do que a de Paris), gente na rua, excelentes bares, restaurantes, teatros, museus. Mas, acima de qualquer outro atributo, é preciso louvar o lago.
vista para o lago e o centro
Genebra está situada no ponto preciso em que o lago Léman (ou Genebra) desemboca no Ródano, um belo rio, e importantíssimo, cujo valor estratégico e econômico deu ensejo a uma infinidade de batalhas, desde o tempo dos centuriões. Mas para o turista, felizmente, o que mais conta é o tom esverdeado, único, da água, cuja superfície se estende em forma de triângulo em direção às montanhas cobertas de neve. Para a alma, o contraste com o azul de um céu descoberto é agradável como receber uma massagem; não há melhor lugar para contemplá-lo do que a relva esmerada dos diversos parques que ladeiam o núcleo urbano.

É difícil explicar o prazer mágico que aquele lago produz, mesmo à distância, pontilhado de veleiros, lanchas e banhistas. Talvez seja um efeito do cheiro forte de maresia que impregna toda a região central, muito embora a água seja doce como chocolate suíço. Talvez seja o gorgolejar que abafa o ruído tísico dos automóveis, quando caminhamos pela orla. Talvez seja a população incontável de cisnes, exibindo-se por todos os lados, brancos e sinuosos, sempre a atazanar os patos, tão mais fracos e discretos. Que fantástica descoberta: o lago dos cisnes existe, fica na Suíça, Tchaikovski não o inventou; quando muito, o descreveu, inspirado por Genebra.

Do barqueiro que alugava pequenas lanchas de 13 pés, ouvimos que a pequena embarcação poderia subir o lago e nos levar até Lausanne e Montreux, se dispuséssemos de algumas horas e muitos francos suíços. Quase cedemos, atiçados pelo desejo, mas declinamos da idéia. Imagine! Como seria a experiência chegar de barco a Montreux, cenário do jazz e de Smoke on the Water, um dos refrões mais famosos do Rock n’ Roll, senão o mais famoso? Todas as perspectivas, é claro, pareciam maravilhosas, mas tivemos de nos contentar com um mergulho rápido por ali mesmo. E já bastou para que nossos corpos se declarassem agradecidos.

Seria um crime retratar Genebra como apenas um balneário, embora a cidade goste de reforçar esse seu aspecto, celebrando o lago com um enorme jato d’água. Uma visita ao centro histórico, encarapitado num morro e cercado de antigas muralhas, é obrigatória para todos que tiverem interesse em arquitetura, história, teologia, filosofia e gastronomia. Come-se bem naquelas ladeiras, isso é garantido e dispensa delongas. Mais interessante é o orgulho que a população demonstra dos eventos cruciais que se passaram ali. De distrito do Sacro Império a laboratório de Calvino; depois, república protestante que recebia os refugiados de todo o continente, ao ponto de que novos pavimentos foram acrescentados a todas as edificações, para abrigar a população que dobrou da noite para o dia no século XVII; finalmente, um canto delicioso da Suíça.

O legado da Reforma é valorizado em cada esquina da cidade velha. O parque mais conhecido exibe um painel de cem metros, o dito monumento internacional, com alto-relevos que contam a história das disputas religiosas que culminaram na criação de um leque de novas religiões, na Europa do século XVI. Um espaço de relativo destaque é reservado a Lutero e Zwingli, mas a principal escultura, aliás de aspecto um pouco sinistro, põe lado a lado João Calvino, Teodoro de Beza, John Knox e William Farrell, enormes e solenes.
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No alto do morro, ao lado da catedral, o museu da Reforma, muito mais do que informativo, é apologético às raias do exagero. A julgar pelo que está exposto ali, todas as boas iniciativas dos últimos séculos são obra de protestantes, a começar pela fundação da Cruz Vermelha, ocorrida ali mesmo, duas ruas abaixo. Curiosamente, contudo, o brasão de Genebra carrega ainda os símbolos de duas instituições superadas por sua história: as chaves do arcebispo e a águia do imperador. Da mesma forma como o hino nacional holandês, até hoje, faz referência ao domínio espanhol.

Outro filho celebrado da cidade é Jean-Jacques Rousseau, que passeava solitário pelas alamedas, produzindo devaneios e pensamentos. Isto é, só até as idéias resultantes culminarem em sua expulsão e exílio em Berna e na Inglaterra. Felizmente, as discordâncias são águas passadas, Genebra abraça a memória de seu filósofo (e romancista e músico) com enorme boa vontade. Hoje, ruas, edifícios e parques ostentam seu nome em diversos bairros. Certamente esse não é o lugar ideal para fazer elogios a Diderot e Voltaire (embora esse último vivesse ali ao lado, em Fernay, França).

Espero ter quitado meu débito com Genebra, embora o comércio pareça um tanto desequilibrado. A cidade suíça, reafirmo, me proporcionou alguns dias de muita satisfação: estética, gastronômica, física. Eu, de meu lado, só pude retribuir com um parco consumo e uma quinzena de parágrafos, como se ela estivesse interessada no que tenho a dizer. A solução recai sobre uma promessa: hei de retornar para, quem sabe, cortar o lago Léman em toda sua extensão, como sugeriu o barqueiro, e ver de um ângulo muito diverso a menor das grandes capitais.

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15 comentários sobre “À menor das grandes capitais

  1. Seguir de barco ou de carro em direção a Lausanne e Montreux, seguindo adiante até circundar o Léman vale a pena. Passarás por Vevey, nada muito especial, exceto por ser a casa da Nestlé, a mesma que muitos europeus boicotam pelo histórico de desserviços prestados aos países em desenvolvimento…
    Sair pelo outro lado e seguir em direção a Chamonix, atravessar o túnel do Mont Blanc e descer pelo Vale da Aosta é tb um passeio belíssimo. E fazer tudo isso no verão, quando os suíços só querem saber de esportes aquáticos e lotam as “praias” do lago e suas próprias águas com seus veleiros e lanchas, numa alvura que de longe lembra os cisnes de que vc falou.
    É uma bela cidade, reconheço, e um país de belíssimas paisagens, com flores em todo canto — como gostam de florir as suas janelas esses suíços! Pena que sejam tão conservadores e insulares, mesmo a quilômetros do mar, e as flores devem compensar-lhes o humor. Não que sejam propriamente mal-humorados — fama dos bufantes franceses —; são apenas absolutamente desprovidos de genes para reconhecer e/ou produzir algum traço de humor…
    Vc falou do orgulho protestante dos suíços, o que me fez lembrar de sua impoluta ética… das pequenas coisas. No atacado, essa tal de ética é um substantivo feminino muito pouco conhecido.
    Belo texto, para não variar!

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  2. Não conheço Genebra mas, ah, deu uma vontade !
    Gostei demais do post, “viajei” nele em todos os sentidos.

    Abraços desde o Porto que, não sendo europeu, ainda assim é Alegre.

    Cecilia

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  3. como sempre excelente texto, conheço Genebra, Lausanne quando passava as ferias (antes da guerra) do lado francês em Evian, a familia ia e vinha da França pra Suiça.
    Interessante é que por razões que não consigo definir não gosto do suiço, perfeição demais me incomoda e a Suiça dita neutra abrigou na Caverna do Ali Babá suiça bens roubados, fortunas abandonadas por os vitimados do Shoah, e o Ali Babá de 4 idiomas, mexeu e remexeo no dinheiro sem dono (aparente) e distribui bens a anonimos clientes e a outro bem conhecodos pela infâmia, novos milionários apareceram milagrosamente após guerra em paisees Sul Americanos, povos, paises sem excessão são vitimas da Condição Humana

    abraço

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  4. É um pessoal muito esperto, predestinado aos céus segundo sua própria religião, sabem muito bem como encher as burras de dinheiro e não se preocupam de fazê-lo de maneira pouco ortodoxa.

    Mas puxa vida, que cidade agradável!

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  5. Olá mon ami, cá estou eu depois de voltar de uma viagem… E eis que, lendo-o, já me deu vontade de viajar de novo… Para Genebra, claro!
    Na Suíça, conheço bem Lausanne. Em Genebra, passei muito rapidamente, o suficiente para me entupir de fondue com vinho branco.
    Creio que foi sem dúvida proposital a omissão da referência ao Consistório de Genebra. Através dele, Calvino, bom cristão, mandava à morte (na fogueira) os dissidentes e os não predestinados, como Michel de Servet. A polícia moral de Calvino não ficava nada a dever para essas teocracias islâmicas. Aliás, um amigo de Genebra certa vez me disse que o comedimento não festeiro, o apego a rígidos valores morais ainda hoje observados no povo dessa cidade, são herança do Consistório.
    Bem, mas achei bacana a idéia de atravessar o lago a barco. Podemos organizar uma viagem de casais, algo bem burguês…

    Que tal?

    Abraço,

    Lelec

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  6. Ótima idéia, até sei onde alugar o barco.
    Pô, o texto não é sobre histórias macabras, é sobre uma cidade agradável. Meti tudo de terrível que aconteceu dentro de “laboratório de Calvino e monarcomaquia de Teodoro de Beza”… Há crianças na sala.

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  7. Ótima idéia, até sei onde alugar o carro.
    Pô, o texto não é sobre histórias macabras, é sobre uma cidade agradável. Meti tudo de terrível que aconteceu dentro de “laboratório de Calvino e monarcomaquia de Teodoro de Beza”… Há crianças na sala.

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  8. Laura disse:

    Antes de sair a viajar pelo mundo a fora, meu grande sonho era conhecer e morar em Paris. Quando resolvi me aventurar pelo mundo, conheci diversos lugares e diferentes culturas, mas posso dizer sem sombra de dúvidas que o lugar que eu mais gostei foi Genève. Com certeza é um povo que sabe muito bem como ganhar dinheiro, é impressionante, eles são literalmente oportunistas e sendo europeus tem aquele frieza típica dos europeus.
    Para quem não conhece ainda e tiver oportunidade, não perca, os alpes são maravilhosos, as comidas excelentes, mas o frio…Vá no verão, é bem melhor.

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