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Todo dia é dia da mentira

Tela E Chao
Quis postar ontem alguma grande mentira, aproveitando o Primeiro de Abril. O mais difícil, eu já sabia, seria criar uma lorota tão crível que se destacasse de todas as outras mentiras que publico neste blog, já sem grande compromisso com a verdade. Quebrei a cabeça de madrugada, não dormi, subi e desci pelo metrô pensando em lograr o leitor. Falhei na missão. Estou tão acostumado a mentir quando escrevo que, ao precisar fazê-lo deliberadamente, acabo enredado na confusão de versões e percepções. Condenado pela fé nos fatos. Só que aqui é caso de texto, não de fato.

Quando alguém escreve, parte de uma impressão, talvez uma idéia, no máximo um conceito, para chegar ao texto. A grande desgraça e, ao mesmo tempo, a grande riqueza desse processo é que – e isso é um fato acima de todo questionamento – o produto resulta sempre, sempre, infiel à afecção que deu origem ao palavrório. Quem procura no texto alguma bela verdade cai na armadilha da ilusão perniciosa. Mas aquele que lhe extrai certeza e dogmatismo só pode ser tolo ou desleal.

A salvação está no fato de que não apenas o texto é infiel às impressões, mas as impressões traem o texto despudoradamente. O velho poeta que conta nos dedos as sílabas das rimas, o jovem que escarra na métrica e na assonância, o gabola que passa por cima dos versos e compõe em torrentes, todos esses são presas fáceis para a falácia de copiar suas emoções no peito do leitor. Isso não é possível. A relação entre um texto e quem o lê é insondável. Um neurologista pode se esbaldar com o cérebro de um leitor, cheio de campos acesos. Mas isso não lhe traz ciência do imaterial, e é de imaterial que tratamos.

Toda a beleza da leitura está nesse livre jogo de infidelidades. Aquilo que a alma reproduz ao receber o escrito depende mais dela mesma e menos de quem cortou os pulsos para aperfeiçoar a expressão; mas, no limite, é o fruto de ambos. Daí a frustração de quem crê ter algo a dizer ou a passar. Desconfio sempre dos autores satisfeitos, orgulhosos, realizados. E, nisso, jamais me enganei.

Nem poema, nem tratado, nem romance, nem cálculo algébrico: texto algum pode ter a ousadia de tentar reter os vapores do inconsciente. Nem à própria consciência, de onde saem palavras e gestos, isso é dado. Uma proposição pode ser prudente, pode ser rigorosa, pode ser aberta e repicada de ressalvas, mas não captaria as nuances do que pretende expressar. Morte à estatística, que se crê capaz de quantificar as imperfeições e discrepâncias de todo discurso. A porcentagem é desonesta.

Ao escrever, a única maneira de ser honesto de fato é apagar todas as palavras imediatamente. Engoli-las. É por isso que a fala é sempre mais sincera, mais humana e verdadeira. Uma frase pronunciada morre tão logo seja dita. A não ser na memória de quem falou e de quem ouviu. Mas isso é outro tema. Já diziam os latinos: verba volent, scripta manent. Podemos inverter a ordem do ditado: o texto fica, com toda sua inverdade. O dito voa, desaparece, subsiste apenas sob a forma de lembrança. Nada mais maneável do que uma lembrança.

Perseguido pelas mentiras que venho empilhando neste endereço há quase dois anos, saí pela rua atrás de uma boa brincadeira de Primeiro de Abril. Não a vi. No lugar dos chistes, dei com faces, edifícios, árvores, automóveis, lojas, mendigos. Verdades, enfim, todas elas a postos, à espera de serem transformadas em mentiras. Pacientes algumas, outras roendo as unhas, parecem acreditar que as frases vão torná-las imortais, reproduzidas como impressões e idéias no espírito do leitor. Eu mesmo, honestamente, já acreditei nisso.

Post scriptum: foram duas as coisas que me atraíram a atenção na tarde de ontem, e serão tema para as próximas duas crônicas. A mudança radical que se produz nos semblantes no início deste mês; e um par de plátanos na praça aqui atrás. Pode me cobrar.

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9 comentários sobre “Todo dia é dia da mentira

  1. Talvez, a maior diferença do 1º de abril para os outros dias do ano é que no demais, mentimos de verdade.

    Posso concordar contigo quando dizes que o texto é, por natureza, infiel à realidade, mas não tenho tanta certeza sobre a sinceridade da palavra dita. Quando convém, mente-se tão naturalmente que a verdade se transforma em algo que beira a grosseria.

    Talvez nossos olhos e ouvidos estejam acostumados demais com mentiras sinceras (como dizia o poeta).

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  2. comentar seus textos é fácil, basta escrever :gostei!, mas explicar por que não é fácil.
    Sua cultura linguística é impressionante, a exposição do seu pensamento faz a minha mente pensar, meditar, desperta em mim a inveja pela neo – cultura, pelo neo de tudo, pelo pós que você já desvendou com certeza, meus conhecimentos são de um passado perdido para sempre.
    Abraço

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  3. Salve, Mythus!
    Uma pequena precisão: sobre a fala ser mais “verdadeira”, eu não quis dizer (nem seria louco de fazer isso) que, ao falar, só digamos a verdade; a fala “em si” é mais verdadeira, mesmo quando mente. Ela é mais fiel, ou melhor, menos infiel à mentira do que a mentira escrita.

    A propósito, postei no Cálculo Renal um texto que comenta uma discussão antiga que rolou no seu blog. Dê uma passada lá qualquer dia.

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  4. Recebi um convite para escrever um capítulo da Memistória – a
    Perseguindo Nisus – que parou no blog da Dai (http://dai.lendo.org/). Eu já escrevi . E gostei.
    A questão é que devo indicar alguém para continuar a história, penso em indicar você, pelas leituras cotidianas que faço do seu texto e pela qualidade deles. Estamos na companhia de Alex Primo, Gabriela Zago, Marcos Donizetti, Olívia Maia, André Gazola, Daniel Lopes.
    Posso? Dê uma olhada, por favor.
    Um grande abraço.

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  5. Meu amigo, devias ter feito esta propaganda muito antes! Fabuloso o texto. Escrevi um comentário de quase duas páginas, mas não sei se foi enviado ou não (ainda bem que escrevi num editor). 🙂

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  6. Justo no dia da mentira você foi deveras verdadeiro. Hehehe! Na escrita, quando se “força” a fazer algo, não adianta, que será mais difícil extrair palavras orgânicas e verdadeiras. As gavetas, cada qual a seu tempo, devem ser abertas de forma espontânea e livre, até que as palavras brotem e o texto se configure diante de você. Muito bom texto e com colocações que procedem. Abraços!

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