arte, crônica, ironia, opinião, prosa, reflexão

A boa leviandade

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De todos os enormes livros que Henri Bergson escreveu, confesso que li só alguns trechos de um ou dois. Achei tudo muito interessante, mas meio fantasioso, então deixei de lado. Mas uma minúscula passagem se fixou na minha memória, não sei por quê. Uma idéia curta, a única que guardei do filósofo, mas riquíssima. Diz Bergson que, se corremos feito loucos atrás de uma resposta, certamente é porque fizemos a pergunta errada. Quando acertamos na questão, a solução se entrega sem resistência, como uma donzela embriagada. Ou seja, em vez de quebrar a cabeça com um paradoxo insolúvel – que deve ser falso, no final das contas –, mais vale reformular o problema inteiro.

Não sei como foi que lembrei disso. Ou melhor, lembro sim. Tropecei por acaso, durante uma dessas vadiações cibernéticas, no artigo escrito por um velho amigo da escola. Nem vou indicar o endereço, porque está numa dessas revistas de acesso fechado (acredito piamente que o conceito de acesso restrito está em vias de se tornar obsoleto). Nem valeria a pena. O conteúdo, embora magistralmente redigido, é chão. Uma diatribe cheia de ironias e impropérios, visando retratar como perfeito idiota um certo crítico que o pintou também, certa vez, nas cores da mais absoluta estultice. Ou seja, o de sempre. Mesmo assim, eu me deliciei com a leitura. Não tinha a menor idéia de que aquele sujeito, que na minha cabeça ainda era uma criança, andava publicando romances. O tempo passa rápido… Da última vez em que ouvira falar desse aí, ele cursava uma conceituada faculdade de Direito e sonhava virar sócio de um grande escritório. Porque isso dá dinheiro, não dá?

Seguindo minha curiosidade, entrei em contato com o jovem autor. Telefonei para o mesmo número de anos atrás, sua mãe me forneceu o atual, encontrei-o. Lembrava-se de mim, como eu esperava, menos como colega de estudos, e mais como zagueiro intransponível. Perguntou como viera à minha memória a sua tão distante existência, e ficou envaidecido ao aprender que eu havia lido algo de sua lavra. Tudo muito cordial.

Sabia que ele estava formado, mas não se advogava. Não, nada disso, ele contou. Nem buscou o diploma. Virou jornalista, produtor cultural e, acima de tudo, escritor nas horas vagas, as muitas horas vagas. Encontrara sua verdadeira vocação, estava feliz. A primeira coisa que perguntei foi se a questão da renda muito menor não seria incômoda. Estou certo de que um advogado ganha melhor. Mas ele deu de ombros. “Dá pra viver, dá pra viver…”

Era claramente a pergunta errada. Enveredei por outra senda. Coloquei a questão da seguinte maneira: “O que te impede de fazer as duas coisas ao mesmo tempo?” Ele suspirou. “Ah, não… que inferno! Eu não ia ter fígado pra rapapés na frente de um juiz, um sujeito todo metido só porque passou num tal concurso depois de estudar que nem maluco, mas que eu sei muito bem que é um idiota. Quanto tempo você acha que eu agüentaria uma vida dessas? Não, não ia dar certo, não… de jeito nenhum!” Insisti: “Mas vamos convir que o universo do jornalismo, da cultura e da literatura também está infestado de gente idiota, metida, esnobe, que se acha importante por causa de cargos… e tem picuinhas, rixas sem sentido, rivalidades levianas… Em termos de vaidade, não deve nada ao mundo das leis. Só não rende dinheiro”.

Com isso, finalmente, obtive minha resposta. “Tem razão. Mas é diferente. Aqui está todo mundo na mesma lama. Um xinga o outro, mas ninguém tem público, é só a gente, mesmo, que vê. E acaba sendo divertido, consegue-se um pouco de atenção, arruma-se assunto pra escrever. Dá pra dar umas boas risadas. Na hora, é claro que a gente fica irritado. Mas depois, ninguém leva muito a sério. No caso do Direito, é bem mais complicado. Tem muita coisa em jogo. Dinheiro é uma delas, e não é pequena. Mas tem pior. Um juiz que dá uma sentença injusta porque acha a advogada gostosa. E aí? Vai fazer o quê? E tem o cara que é corrupto, descaradamente ladrão. Enfim, tome recurso. Não dá, né? É demais pra mim. Muita sujeira, muita coisa em jogo. Prefiro minhas polêmicas literárias sem importância…”

Ouvindo a alusão a polêmicas literárias sem importância, acabei rompendo o decoro. Soltei uma risada, ele não me acompanhou. Fez que não entendeu por que eu ria. Ora, se não têm importância, perguntei, por que se dedicar a elas? A explicação de meu amigo foi um primor de simplicidade. Elas o divertem. Ajudam a passar o tempo, divulgar seu nome, exercitar a habilidade eurística, arrumar assunto para o bar e, eventualmente, descolar uma ou outra leitora desavisada. “E o mais importante”, ele acrescentou, antes de desligar, “é que não tem risco nenhum. Não vai morrer ninguém, ninguém vai preso, ninguém vai ficar pobre… No fundo, é tudo só pra passar o tempo.”

Eis um ponto de vista, no mínimo, divertido. Mais do que concordar ou discordar, compreendi que, como prescreveu Bergson, eu tinha encontrado a pergunta certa. Está aí minha resposta. O sujeito largou mão de uma aposentadoria tranqüila e bem provida para escapar de um mundo leviano, sim, mas de uma leviandade séria, perigosa. Ele fez sua escolha, com toda consciência, por um outro mundo, igualmente leviano, mas de uma leviandade apenas leviana e nada mais do que isso. Para passar o tempo. E como eu poderia censurá-lo?

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