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O mal que vem dos Trópicos

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Quase uma confusão terrível. Por pouco, não sou tomado por um risco à saúde pública. Do jeito que a turma anda neurótica por estas bandas, uma quarentena seguida de deportação não estaria inteiramente fora de questão. Durante alguns momentos, estive na berlinda, confundido com uma aberração doentia; lepra, micose, varíola, sei lá o que pensaram que eu tinha. Mas é profundamente desconfortável a sensação que dá quando as pessoas, no máximo de discrição de que são capazes, afastam suas cadeiras de você. O isolamento é doloroso, eu digo. E não passava, claro, de um pequeno mal-entendido.

Melhor começar pelo princípio, manda a prudência. Pois bem. Uma sala de aula ocupada por inteiro, três dezenas de pessoas espremidas em algo como 15 metros quadrados. Lá fora, a temperatura oscila entre frações de grau negativo e uns quebrados positivos. Dentro, a calefação automática exala seu ar pesado e mal-cheiroso, relegado à redundância pelas quase trinta respirações simultâneas. Alguém sugere abrir as janelas, mas os outros recusam. Medo do vento gelado e da chuva fina que às vezes cai.

O professor discorre sobre fenômenos, númens e coisas em si. É bom prestar atenção, para não perder o raciocínio. Difícil, com as alfinetadas do calor debaixo das três ou quatro camadas de roupa; entre a primeira e a pele, o suor se dissemina, desconfortável. Nada pior do que suar no inverno. Tentando não incomodar os demais, liberto-me do paletó opressor. Poucos minutos mais tarde, também parte o colete. É pena, mas tirar a camisa seria passar do limite. O máximo permitido é arregaçar – ou melhor, enrolar – as mangas. Eis o erro.

Área perigosa. Segunda fileira, posição central, bem diante dos olhos do professor. Enquanto transcrevo suas explicações intrincadas, ele lança um olhar involuntário para meu braço. Faz uma pausa, engole em seco, titubeia para voltar ao discurso. Mas é experiente e recupera o fio. À direita, um arrastar de cadeira. À esquerda, outro, um pouco mais violento. Buchichos; o mestre se irrita um pouco. Demoro a entender que a culpa é minha, mesmo quando dá a hora e todos se levantam.

Enquanto visto de volta as peças que arrancara em desespero, aproxima-se meu velho amigo Germain. Com a delicadeza que lhe é particular, tenta sorrir. Ofereço-lhe a mão para um cumprimento, mas ele, embaraçado, faz de conta que tem as suas ocupadas. Um ato desajeitado, que só fez sentido mais tarde. Tento não demonstrar que entendi. Germain, esforçando-se por não se aproximar demais, acompanha meus gestos com os olhos esbugalhados. Confesso-lhe minhas dificuldades com a aula. Ele não ouve; ao contrário, emenda uma questão envergonhada, em seu estilo pouco natural de falar, cheio de volteios literários e eufemismos estilísticos.

– Caro amigo, desculpe perguntar; quando você visitou seu país [ele sempre chama o Brasil de “meu país”], parece que cometeu uma pequena imprudência…

Nem preciso dizer que fiquei surpreso.

– Que imprudência, Germain?

– Estou certo de que existem avisos nas praias, para informar quando estiverem impróprias para o banho… Sua saudade era tão grande assim, a ponto de mergulhar em águas poluídas?

Só pude sorrir. Contei-lhe que não mergulhei em praia nenhuma. Nem própria, nem imprópria. Passei ao largo do fato de que os avisos aos banhistas só vêm pelos jornais e, mesmo assim, sem grande clareza. Expliquei que choveu o tempo inteiro nessas duas semanas, não deu praia, para meu desespero. Aliás, não me lembro que expressão usei para “dar praia”. Deve ter sido algo como “as condições não eram propícias”.

Germain alçou as sobrancelhas. Duvidava de mim. Sua incredulidade foi mais surpreendente do que ofensiva. Jamais ele havia colocado restrições a alguma declaração minha. Parecia absurdo que, de repente, ele resolvesse descrer assim. Percebi um movimento em seus lábios. De bem conhecê-lo, soube, desde o primeiro momento, que ele ruminava uma maneira de abordar o assunto incômodo sem causar ferimentos em minha sensibilidade.

– Desculpe, erro meu; pensei isso por causa da doença que te aflige…

Não há doença alguma que me aflija neste momento. Germain percebeu a interrogação desenhada entre meus olhos e se embaraçou. Gaguejou acintosamente e enrubesceu. Jamais eu o vira nesse estado. Quando, condoído, resolvi partir em seu socorro, ele se adiantou, inspirou profundamente e retomou o prumo. Delicadamente, admitiu a origem de sua idéia.

– Quando você enrolou a manga, pude ver o estado da pele… É terrível, quero que você saiba o quanto sou solidário!

Não foi de imediato que liguei os fatos. Quando o fiz, caí na risada. O professor, ainda na sala, me encarou, assustado, e escorregou para fora num instante. A expressão de Germain era toda enigma. Nas duas semanas em que estive no Brasil, de fato não deu praia; houve um único dia de sol. Nesse dia, eu estava nas montanhas. Sol de montanha, bem se sabe, é terrível. Fiquei vermelho, meus ombros ardiam, o peito do pé doía enormemente.

E como explicar para Germain que eu estava apenas descascando? Nem conheço a palavra francesa para “descascar”, nem, pelo visto, o sol da Côte d’Azur, do país basco e da Bretanha são capazes de fazer um banhista trocar de pele no dia seguinte. Tentei lhe explicar o princípio do descascamento: o sol bate, a gente esqueceu a loção 30, a pele vai escurecendo, às vezes fica vermelha, não passamos hidratante (bom, alguns passam…). Dá uns dias, a pele forma umas bolhas, pronto: descasca. Perfeitamente natural.

As sobrancelhas de meu amigo seguiam arqueadas; em sinal de dúvida, sim, mas sobretudo de asco. Esse papo de pele que descasca é coisa de bárbaros tropicais. As epidermes européias podem ficar encardidas, ásperas ou transparentes, mas, pelos céus!, jamais descascam. Nada disso ele formulou explicitamente, claro, mas pude ler por trás de seus olhos cinzentos. Era algo que ele preferia jamais ter aprendido. A esse ponto, eu já me divertia como uma criança; como uma criança, decidi torturá-lo.

Arregacei a manga novamente e anunciei: “vou te mostrar…” Germain é ágil, não me deu nem sequer o tempo de puxar a primeira pontinha de pele morta. Agradeceu, lembrou-se de algum compromisso e projetou-se porta afora, deixando-me de pé, sozinho na sala, brincando de descascar e rindo até cair no chão. Só consegui me controlar muito tempo depois, quando lembrei do professor: a essa hora, o sinistro filósofo poderia estar ao telefone, denunciando um aluno contaminado para o Ministério da Saúde.

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16 comentários sobre “O mal que vem dos Trópicos

  1. F. S. Júnior disse:

    mas a dúvida faz parte… é aquele pontinho de nada que separa a realidade da ficção ou que dá ares de verdade à ficção… o bom da estória bem contada é isto, a pessoa acreditar tanto naquilo ali a ponto de não saber se de fato não aconteceu… e se ao falar da realidade você dá cores de fantasia, torna tudo melhor… ares fantástico… a vida é fantástica, a realidade, por vezes é mais incrível que a ficção… de todo modo eu adorei o texto… expõe o incrível numa coisa que pra nós, nativos do seu país, é banal…

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  2. Anny disse:

    Você escreve muito bem. Sua descrição foi perfeita. Se imaginado ou real, fiquei esperando o final e sorrindo com o imprevisto. Muito bom.*Obrigada pela visita ao blog Linha e pode deixar que em abril vai ter uma tulipa em sua homenagem.Abraço

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  3. Critical Watcher disse:

    Hahaha…Muito engraçado isso!Essa coisa de cultura realmente tem dessas!Estou rindo sozinho…Muito bom mesmo!;)Ps.: Para não precisar de explicações melhores, você pode convidá-lo (seu amigo) a experimentar dessa “contaminação”. Convide-o ao nosso país. O ‘Brazil’ o fará bem vindo.

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  4. Mr. Ziggy disse:

    HUAAAAAAAAAAAhuahuahuahuhua! Poxa, nunca me passou que na Europa a pele das pessoas não usava descascar. Meu, isso aqui no Brasil é tão normal, ainda que seja meio feiosinho e às vezes nojento. Hehehe! E viva o que é multi e surpreendente! Abraço!

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  5. Isabella Kantek disse:

    Que situação, hein? Mas você se saiu muito bem, tanto que rendeu um ótimo texto – o que é sempre bom. =)Não seria difícil ir pra quarentena se estivesse nos eua…rs

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  6. deborah disse:

    Caro Diego,Se eu soubesse que iria encontrar um texto tão agradável e tão bem escrito por aqui, teria vindo antes agradecer tua visita lá no meu canto. MUITO bom!É curioso como os franceses, em geral, têm medo de doenças.Brinco sempre, dizendo que nunca vi um povo com tanto pânico de correntes de ar. “Courant d’air” mais parece nome de alguma entidade maligna. rs* Basta um ventinho e pronto, lá estão eles, com um pulôver nos ombros ou com seus inseparáveis cachecóis (será que o plural é este mesmo?), morrendo de medo de pegar um resfriado que, vai saber, pode matá-los!!! E eles têm tbém um lance ancestral muito forte com a pele – deve ser alguma memória do inconsciente coletivo da peste, não? Realmente gostei muito do teu texto. Só não gostei de relembrar do cheiro de zoológico das salas da fac, durante o inverno. Éca!Um abraço.

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  7. Sandro Fortunato disse:

    A ignorância, incluindo a nossa de cada dia, é um mal terrível. Pior é não estar aberto ao aprendizado. Sempre tive contato com muitos estrangeiros que visitam ou resolvem morar no “seu país”, o nosso, e sempre me divirto com suas surpresas em relação a coisas tão corriqueiras para nós. Mas sua história me fez lembrar uma que vivi e na qual o “preconceituoso” – e definitivamente, pelo menos neste caso, não o “ignorante sobre a cultura alheia” – teria sido eu. Há alguns anos, acompanhei por cinco dias um coral francês que fazia apresentações no Brasil. Eu morava em Natal nessa época. Era verão. Natal + Verão = Inferno na Terra. Eram uns 50. Uns 30 e poucos coralistas, alguns acompanhados de seus cônjuges. Reparei de imediato em um que desceu do avião com uma aparência terrível. Barba comprida, roupa escurecida, visivelmente suja… No salão de desembarque, a constatação: o cara já devia estar sem banho há alguns dias. E estava vindo de Recife. Recife + Verão = Inferno Fedendo na Terra. Pois bem… acompanhei o grupo durante cinco dias. Íamos à praia; o cara com a mesma roupa. Tomava banho com ela! Bermuda e camiseta. Todos iam para os lugares onde estavam hospedados e se reencontravam à noite. O cara do mesmo jeito. A maresia começando solta no couro do homem. Cinco dias disso! Vendo e cheirando isso. Esse era o que mais chamava atenção, mas havia outros em condições parecidas, sem banho, mas que disfarçavam trocando as roupas. No último dia, um jantar de despedida em um restaurante da cidade. Resolveram fechar tudo e ligar o ar condicionado. Eu não consegui comer!!!! Fuga rápida. Desde o pano.

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  8. Milena disse:

    Li e me arrebentei de rir! Morei um ano em Paris e fiquei imaginando a cara dos franceses! hihihi! Nada parecido me aconteceu, mas também não descaquei diante de nenhum deles! Adoro seu blog. As vezes venho e leio postagens antigas para ir conhecendo melhor seu estilo, suas historias! Um abraço.

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  9. Ivo Korytowski disse:

    Na minha modesta opinião, acho que a Veja e a imprensa em geral fazem muito bem em denunciar as desonestidades que cercam o governo – este, ou qualquer outro. O que a esquera quer? Uma imprensa amordaçada, como no tempo do regime militar? Uma imprensa servil, como no tempo do Estado Novo? Viva a liberdade de imprensa (com responsabilidade e cumprindo estritamente a lei)! Abaixo as ditaduras: de direita, sim, mas de esquerda também!

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