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De volta aos rostos

Mundo+de+gente
Quase esqueci dos outros. A Terra está apinhada de gente, mas todos já iam sumindo da minha memória. Uma semana inteira com os olhos voltados para dentro bastou para que eu me isolasse do mundo. Eu, que gosto tanto das fisionomias, das expressões, das histórias de vida que os rostos não conseguem esconder. Dias a fio, sem contato com ninguém além dos comerciantes da rua. Mas os comerciantes não são outros. São os mesmos de sempre, estão sempre ali. Têm seus nomes, suas profissões, seus postos na minha realidade. Os outros são imagens no desfile cotidiano de faces, que procuramos não encarar. Anônimas, dizemos, cretinos que somos. Elas não são anônimas. Cada uma cultiva seu orgulho do nome a que responde. Cada uma carrega no bolso uma carteira puída, com números a preencher em formulários. Cada uma inventou – e não esqueceu – um punhado de senhas, para abrir as portas da vida social. Cada rosto desses é tão anônimo quanto o meu. E, como o meu, reconhece um “eu” como centro de seu universo.

Ao reencontrar as fisionomias, sou tomado pelo alívio. Estão todos ali, onde deveriam estar, indiferentes, na plataforma do metrô. Vejo-as congeladas, num estranho estado de suspensão, enquanto esperam o trem para subir. Também eu estou em estado de suspensão. Oscilo, pendular, na mesma freqüência dos demais. Congelado, na plataforma do metrô. Só que eles não me olham, e eu olho para eles. São relances, olhares curtos e furtivos como os dos criminosos e dos amantes tímidos. Quando percebem que alguém ali os contempla vagamente, ficam incomodados, afastam-se, franzem a testa. Ofendidos, há até os que gesticulam e se põem a ameaçar, aos berros. Melhor ter cuidado. Eu mesmo, na verdade, tampouco gosto que me olhem. Não sei o que pode buscar um olhar perscrutador nesta fisionomia carrancuda, de manhã, esperando o trem. Detesto que tentem decifrar minha vida pelas linhas de minha preocupação, como eu tento ler as rugas desses desconhecidos todos. Sou assim. Inconsistente. Rejeito meu papel no anonimato.

Como é prático atribuir a cada corpo desses um anonimato generalizado! É cínico, é injusto, mas é prático. De um gesto, cria-se a massa. Inerte e pluricelular, uma forma cuja agitação não tem sentido e se pode ignorar. Condená-los ao anonimato parece expiar a culpa do isolamento. Se não têm nome, não são indivíduos, não vivem histórias que mudem com o dia. Manter-se afastado durante uma semana não é perda alguma, não é nada. Falar em massa, sufocar os nomes, é colocar-se em outro plano. O único plano individual, em que o eu é legítimo e a vida deve se conservar. Melhor. A ilusão é um caminho justo para a paz de espírito. Pois mais vale encher de enfeites esta margem que me cabe na existência, que desesperar dos muros altos do entorno.

Assim se apresenta o estranho gosto pelos rostos meus estranhos. Misto de curiosidade e desprezo, despeito e orgulho. Em comum, todos eles traçam biombos imaginários para resguardar a intimidade. Em pleno transporte público. Todos têm nuvens diante dos olhos. Há os sérios, de pensamentos distantes, solitários no rumo das funções. E há os grupos, os pares, os casais, os amigos. Falam, gesticulam, movimentam-se. Incomodam os sérios, porque parecem mais leves, embora sofram tanto quanto cada um. Há os espalhados, jovens garbosos: ainda não entenderam que seu universo é só mais um canto escuro. Há os pequenos, humildes, escondidos nos assentos porque desistiram de crer no próprio mundo. Há os leitores insondáveis, os músicos tristonhos, os pedintes em profusão.

Em comum, o fato de que não sei como se chamam. Tento adivinhar, examino as fisionomias, invento nomes para todos. Nomes brasileiros, em geral. Até me dar conta de que dificilmente alguém se chama assim. Invento outros nomes, agora internacionais. Como um despótico Adão, batizo-os. De todas as pessoas que convivem naquele parco espaço, uma apenas não é renomeada pela minha imaginação doentia. Ora, eu conheço meu verdadeiro nome. Não teria por que escolher outro. Mas dentre eles todos, não há um que saiba quem sou. Nem há quem invente um nome para mim. Entre as criaturas que batizei, eu mesmo sirvo apenas para compor a massa.

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17 comentários sobre “De volta aos rostos

  1. Elton Pinheiro disse:

    Diego, que texto bom. Não apenas o texto de corpo inteiro, mas os comentários entrelinhados, isso sim.. a visão “única” do narrador e o encontro final consigo, sendo outro.

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  2. F. S. Júnior disse:

    é estranho pensar que ao nosso redor e derredor existem milhares e milhares que não conhecemos e nunca vamos conhecer… histórias que não fazem o menor sentido para nós… histórias que de certo modo não existem para nós… são milhares de mundos paralelos, universos paralelos, que de quando em qunado se esbarram… as vezes, a massa, a turba, serve para nos dá um nome genérico, uma história comum… somos todos brasileiros ou somos todos franceses ou ainda, somo estrangeiros… nossos antepassados fizeram isso ou aquilo… como se nós também tivessemos feito… o que é uma grande ilusão, embora em última estância nossa vida seja atingida… pouco fizemos… teu texto me lembrou de um que escrevi anos atrás… e falava disso… da não-existência daqueles que não conhecemos…

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  3. Rose disse:

    Eu pensava nisso outro dia: pessoas cruzam minha vista e minha vida por breves segundos, e na maioria das vezes pra nunca mais.Um número infinito de pessoas que jamais vou conhecer…obrigada pela visita!

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  4. Claudio disse:

    Olá. Vim agradecer e retribuir a visita. Também sinto curiosidade pelos rostos estranhos. Gosto de imaginar que histórias estão por trás daquelas faces. E, assim como você, vou me integrando e fazendo parte da massa.Abração.http://ouacbem.zip.net

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  5. DiegoSanchezMásSaintMartin disse:

    bicho, muito interessante o lance do ônibus,achei mais egraçado proque eu sempre fico observando as pessoas dos ônibus e as vezes relaemtne chego a inventar nomes para elas.

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  6. Mythus disse:

    Olá! Bom vê-lo de volta por lá!Também é muito bom revê-lo aqui. excelente texto. Só vou discordar com o narrador em um ponto: não há como saber se ele também não é batizado por outrem que possua o mesmo costume de nomear e criar estórias sobre os personagens daquela mesma estação a esperar o próximo trem.No lugar de “anônimos”, refiro-me aos desconhecidos nas ruas normalmente por “transeuntes”, mas acho que isso me qualifica igualmente como cretino, não?

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  7. Isabella Kantek disse:

    Belo texto, Diego! Gosto muito de ler e escrever sobre o outro porque traz possibilidades e amplia o nosso olhar. Parabéns!

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  8. Magnífica realidade.
    Estamos rodeados de seres tão inconstantes como nós. Pessoas que respiram, têm suas vidas, possuem suas dádivas, cobiçam sonhos. E o mais interessante é que, por vezes, são tratadas como anônimas. A complexidade da realidade a que me submeto me assusta…

    Parabéns pelo blog, e obrigado pela visita.

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  9. Bom dia!
    Há um código de conduta implícito especialmente nesses lugares públicos. Todos os seguem religiosamente sem ousar quebrá-lo, parece algo inadmissível olhar por muito tempo pra alguém, somente de soslaio, de relance, e com muito cuidado para que o outro não perceba. Mas o bom mesmo é a vontade de infringir de vez em quando e procurar desnudar cada rosto, entrar em sua alma e saber exatamente quem são.
    Mas lembre-se, cada um finge que não se interessa.
    Somos maus fingidores!

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  10. Oi, obrigada pela visita.
    Incrível como vivemos num mundo onde nem mesmo muitas das vezes conseguimos dar rosto a quem convive lado a lado conosco. Seja em casa, no trabalho ou outro lugar qqr.
    Mas acho que seu texto nao é bem por ai nao. Nao sei porque senti que suas palavras um grito de injustica.
    O que foi que te fizeram?

    Boa semana

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  11. Poxa, Diego. Sabe que eu estava pensando muito nesse tema, ultimamente?

    É curioso como há blogs em que reconheço meus próprios pensamentos. Será que há pessoas que têm certa similaridade no pensar ou será que todos os pensamentos são, na verdade, meio comuns?

    Não sou de lamber o chão do Francisco Buarque mas esse trecho “Os outros são imagens no desfile cotidiano de faces (…)” lembrou-me muito o tal “turbilhão da galeria”.

    um abraço,

    Luca.

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