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O sorriso de Oscar Peterson

Oscar+peterson
Se é verdade que virtuose é quem faz o difícil parecer fácil, então o mais patente de todos foi Oscar Peterson, o pianista canadense que, aos 82 anos, acaba de deixar esta vida. Discretamente, enquanto o mundo só tinha olhos para as festas de fim de ano.

Espera-se de um virtuose que consiga embaralhar os dedos sobre as teclas, as cordas ou os pistões de seu instrumento, encadear uma nota à outra com clareza e velocidade, produzir harmonias complexas em seqüência – tudo isso, sem deixar transparecer o esforço que a música exige. Pois Oscar Peterson ia além. Sobre os temas clássicos do jazz, improvisava melodias que quase não se podia acompanhar. Em seu rosto, sempre a mesma placidez. Sempre um sorriso. Se o virtuose exibe uma expressão tranqüila, Oscar Peterson era mais do que um virtuose: era um gênio. O que ele oferecia era a alegria brilhante de quem produz o jazz mais elaborado como se o piano fosse um brinquedo.

Não sei explicar por que o jazz produziu tantos gênios, tantos músicos tão brilhantes e inventivos. O pendor para a autografia que reside no âmago do estilo talvez seja a chave da explicação. Não há música tão aberta ao improviso quanto o jazz. Mais além, tenho dificuldade em imaginar um estilo de conceito tão amplo, agregador de toda influência que lhe passa pelo caminho: o blues na raiz, o caribenho, o urbano, o rock, os gêneros dos países para onde se expande. No Brasil, aliás, imprimiu seus genes sobre a Bossa Nova.

No século da obra aberta, da dissolução dos gêneros, da rixa entre a reprodução técnica e a mística do efêmero, o jazz se encaixou como uma luva. Gosto de pensar que, se as grandes figuras musicais oitocentistas foram heróis do quilate de Chopin e Wagner, as reverências do último século devem ser reservadas a gente como Louis Armstrong, Charlie Parker e Miles Davis.

Nesse restrito panteão, Oscar Peterson tem vaga inconteste. Somente os semideuses da música são capazes, como ele, de levar ao extremo da possibilidade expressiva temas simples como os de Night Train, Laura, On the Sunny Side of the Street, tantos outros. Debaixo de seus dedos grossos, não eram mais as mesmas melodias. Renasciam como monumentos da ação humana. E enquanto o público se entregava ao êxtase que os grandes gênios do jazz sabem catalizar, Oscar Peterson, ao centro do palco, sorria. Como se zombasse do fascínio de seus admiradores. Mas quem haveria de achar zombeteiro aquele rosto iluminado? O sorriso era de satisfação, o êxtase da beleza pelo som. A mesma satisfação experimentava o público, diante da arte que nascia. Ali, naquele instante, enclausurada em cafés esfumaçados ou serelepe pelas grandes salas de concerto.

Era como se nada fosse difícil para Oscar Peterson. Talvez ele próprio fosse o único a não se considerar o maior dos pianistas de jazz. Havia um outro, cuja grandeza sempre o intimidou. Até o fim de seus dias. Era ninguém menos do que Art Tatum, seu antecessor no panteão, o “Chopin maluco” da definição de Jean Cocteau. Na adolescência, um dedicado e estudioso Oscar quase desistiu da música ao tomar contato com as estripulias do mestre e futuro amigo. Anos mais tarde, apesar da estreita ligação entre os dois, Peterson ainda evitaria colocar-se ao piano diante de Tatum.

Desde 1993, quando sofreu um derrame cerebral, Oscar Peterson não podia exibir o máximo de sua capacidade técnica diante das técnicas. Tocava esporadicamente, jamais em grandes salas. Não tive oportunidade de ver ao vivo o deslizar veloz de seus dedos e seu sorriso tranqüilo. E nem seu rosto brilhante, efeito do reflexo da iluminação no suor da testa – suor de calor, bem entendido, não de esforço excessivo. Uma pena. Mas é um alento saber que, mesmo com as limitações que lhe causou o derrame, ele continuasse compondo. Sua última música chama-se When Summer Comes, recebeu letra de Elvis Costello e foi cantada por Diana Krall.

Na página oficial do músico, sua família agradece o carinho demonstrado pelos admiradores, e sugerem doações para uma instituição de caridade. Pois, além de sua atividade como instrumentista, Peterson foi um ativista dos direitos humanos. Na primeira vez em que tocou no sul dos Estados Unidos, foi obrigado a peitar um policial, pelo direito de tomar um táxi “para brancos”. Escapou por pouco de levar um tiro. Se tivesse acontecido, seria mais uma vez em que o irracionalismo étnico subtrairia ao mundo um de seus espíritos maiores.

Mas a humanidade deu sorte: não houve disparo, graças à intervenção de Norman Granz, seu empresário. Do episódio, como da obra de Oscar Peterson, restou a lição: a estupidez é perigosa e deve ser combatida. A arte é sublime, e deve ser aplaudida. Segue um vídeo do Oscar Peterson Trio, para que possamos aplaudi-lo, da maneira como ainda podemos.

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5 comentários sobre “O sorriso de Oscar Peterson

  1. Lord Broken Pottery disse:

    Com muito atraso venho concordar com você. Oscar Peterson fará muita falta. Ficará, felizmente, boa parte de sua genialidade gravada para que possamos ouvir. Para sempre. Artistas como ele não morrem.Abração

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  2. Lelec disse:

    Ah, quanta poesia melódica, quantos ritmos doces se vão no apagar desse sorriso inesquecível!Fica um vácuo oceânico entre os amantes do jazz.Abração, mon ami!

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  3. Fanny Webber disse:

    Uma grande perda, passei algumas madrugadas na compania de sua musica e isso me da uma estranha sensação de amizade com ele. Realmente fiquei abalado quando soube de sua morte, mas mesmo assim sabia que iria ser cedo ou tarde. De Oscar Peterson guardo recordação de invernos em Porto Alegre, com meu toca-disco, ouvindo enquanto o piano era tocado e as pessoas passavam pela rua.

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