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Triste é depender do acaso

Patos+dormindo
Raras vezes falei de futebol por aqui. Não que eu ache o tema inferior. Ao contrário, os irmãos Rodrigues estão aí para provar que textos maravilhosos podem ser escritos sobre o brutal esporte bretão. A poética dos pontapés e dribles me encanta e fascina. Mas há um lado idealista em mim, e tem coisas que não estou disposto a fazer. Por exemplo: comentar a Seleção Brasileira. Jamais de la vie, mon cher. A camisa canarinho, aquela mesma de Pelé, Zezé e Didi, anda sendo conspurcada pelos jabazeiros que a envergam, em nome da ganância espúria “daqueles que usam terno”. A exemplo de seu escrete, o futebol brasileiro anda no mesmo nível. E, particularmente, soy contra. Como não sou homem-bomba, minha única reação possível é o silêncio.

Contudo, não posso me furtar a deixar uma palavra sobre o assunto do momento, ou seja, o rebaixamento do Corinthians. Nem tanto pelo fato em si, que pode ser explicado de muitas maneiras, a principal delas sendo: “fez um número insuficiente de pontos para permanecer na primeira divisão”. Mas por todo o barulho que se produziu em torno do evento, e principalmente, o que mais me interessa, pelo que tudo isso nos diz sobre nosso país, esse que construímos no cotidiano, em cada gesto e palavra proferida.

Sim, um evento futebolístico pode explicar a essência do Brasil. É o país do futebol, não é? Os muitos rebaixamentos de clubes grandes que já tiveram lugar pouco repercutem na história nacional, a não ser na dos próprios clubes. A queda do Corinthians, ao contrário, é um excelente trampolim para entender nossos vícios nacionais. Por quê? Nem tanto pelo fato de que, pela primeira vez, a CBF se distrai e “deixa” cair um clube de massa. Tampouco pela festa da torcida arco-íris paulista (e, sejamos honestos, nacional), que fez buzinaço pela avenida Paulista como se fosse para um time campeão. E sim, principalmente, pela forma como esse rebaixamento se deu. Pelo rebaixamento em si. E, de quebra, pela reação da imprensa e dos torcedores em geral.

O que tem de errado na maneira como caiu o Corinthians? Simplesmente, é uma vergonha, uma verdadeira tragédia nacional, que o clube de Itaquera tenha sido rebaixado pelos resultados do campo. É uma prova de que o brasileiro confia demais na divina Providência. Não fosse a incompetência dos jogadores e o time ainda estaria na primeira divisão. Mesmo depois que seu ex-presidente confessou a manipulação de resultados há dois anos. Mesmo depois de tornar-se patente que o Timão foi usado para a lavagem de dinheiro de um mafioso iraniano. Mesmo onze anos após a gravação em que o então presidente do clube organiza um esquema de corrupção de juízes (quem não se lembra do “um, zero, zero”, estrelado por Ivens Mendes, Corinthians e Atlético Paranaense, é porque não tinha televisão em casa nos anos 90).

Pois bem. Depois de tudo isso, a única punição à irresponsabilidade dos dirigentes, ao desvio de verba, ao roubo puro e simples, teve de cair do céu. Enquanto isso, tomemos exemplo da Itália. Trata-se de um dos países mais desorganizados e corruptos do mundo. Mesmo assim, há dois anos, enquanto o Corinthians passava a mão no campeonato brasileiro, estourou um escândalo de manipulação de resultados no país de Berlusconi. Envolvidos estavam muitas pessoas e quatro clubes: Juventus, Lazio, Fiorentina, Milan. Pois bem. A tradicional Juve foi rebaixada para a segunda divisão, e começou a disputa com 30 pontos negativos, além de ver extirpados de sua sala de troféus dois títulos conquistados no período investigado. Lazio e Fiorentina também foram rebaixados. E o Milan, time do então primeiro-ministro e manda-chuva do país, ficou na primeira divisão, mas não pôde disputar a Copa dos Campeões, e também largou com pontuação negativa. E não estamos falando da Suécia ou da Alemanha, mas da Itália. A Itália!

E o Brasil? O rebaixamento natural, nesse caso, é uma punição branda e casual. O “título” de 2005, primeiro campeonato entre aspas da história do futebol brasileiro, não está com cara de que vai ser revogado. Os clubes prejudicados pelo trambique não serão ressarcidos. O Corinthians não será multado. Nada impede que, daqui a dois anos, tudo tenha sido esquecido, e ainda lancem um DVD com a campanha heróica do clube na segunda divisão.

Nada mudará. O sofrimento dos corinthianos será tão vão quanto a alegria de seus adversários. Nenhuma lição será tirada do episódio. Ora, normal, isso é Brasil. Não punimos a desonestidade no futebol da mesma maneira como não a punimos na política, na economia e na história. É a mesma coisa. Comemorar a queda do Corinthians é tão ridículo quanto celebrar um escorregão de Collor ou uma doença de Maluf.

Mas de quem, em tese, poderíamos esperar um alerta, uma denúncia, uma voz contrária? Ora… Da imprensa, de quem mais? Pois espere sentado. A Globo, não contente em transmitir um treino do clube do Parque São Jorge, lamentou cada gol e cada resultado adverso. As manchetes todas, na segunda-feira, davam conta de uma comoção nacional que deveria existir, é certo, mas por outro motivo. Ávido por um pouco de seriedade, entrei hoje no blog do Juca Kfouri, que tantas vezes já assumiu o fardo de lutar contra as sujeiras de nosso futebol. Um verdadeiro paladino da justiça aplicada ao esporte, que já comprou briga com Eurico Miranda, o finado Caixa d’Água, Ricardo Teixeira e cia. Sempre com muita coragem. E agora, o que ele apresenta? Uma comparação entre o rebaixamento de seu time e Maysa cantando “Meu Mundo Caiu”, a história poética de uma criança que chora a derrota, reclamações tardias contra Alberto Dualib. E mais nada.

Eis por que fico sem vontade de falar de futebol.

(PS: Este texto não é um xingamento ao Corinthians ou seus torcedores; tampouco é mais um a tirar sarro do infortúnio do clube. Pelo contrário, ele é coisa séria; discute a complacência do brasileiro para com a desonestidade. Portanto, nada de reações futebolísticas coléricas. Combinado?)

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5 comentários sobre “Triste é depender do acaso

  1. João disse:

    Olá, Osrevni. Vejo que conseguiu arrumar o blog para o Firefox. Muito bom. Sobre o Timão, só lamento, meu coração ainda dói com a velocidade terrível da queda. Abraço.

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  2. Tiago Duarte Dias disse:

    verdade, ninguem vai fazer nada mesmo estando na cara que o corinthians ganhou em 2005 roubado e foi uma lavanderia internacional.mas, como flamenguista, eu comemorei a queda do corinthians uhsauhuhsauhs

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