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Frente a frente com os tipos de Fellini


Foi na Toscana que entendi o cinema de Fellini. Finalmente. Antes de cair quase por acaso nessa parte única do mundo, eu me deixava encantar pelas idéias mirabolantes do gênio, personagens inverossímeis, diálogos cínicos, paisagens coloridas, maquiagens estrambóticas. Até onde podia alcançar meu entendimento, a obra do mestre casava, com perfeição milagrosa, a observação ácida e a simples loucura. Filmes como E La Nave Va e Giulietta dos Espíritos me deixavam boquiaberto.

Foi assim até o dia em que me vi em pleno , (a meu ver) a maior das obras-primas de Fellini. Isso talvez me acontecesse se eu fosse conhecer a Cinecittà, complexo de estúdios nos arredores de Roma que conserva alguns cenários da época em que o cinema italiano era grandioso. Mas não caí em nenhum cenário: caí no próprio filme. Pensei mesmo que fosse flagrar alguma câmera escondida ou ouvir o fantasma do cineasta berrando “corta!” em tom de irritação. Sei que falar assim soa louco, mas pouco importa. Foi assim.

Melhor passar para o relato direto. Como expliquei no penúltimo texto, a pequena hospedaria que nos recebeu pelos três dias que passamos entre os ciprestes da Toscana fica localizada entre duas pequenas cidades, Chiusi e Chianciano. Esta última vem com um adendo: Chianciano Terme. Isso se explica pelo fato de que não há grande coisa, no município, além de um punhado de estações de águas.

Mas não são pouca coisa, essas termas. Existem ali, incrustadas entre as colinas, há coisa de três milênios. Desde então, vêm curando etruscos, romanos, italianos e turistas, plenos de fé nos poderes purgativos da água que brota do chão. Consta que o primeiro freqüentador muito famoso foi Horácio, o poeta lírico da era de Augusto, que sofria dos rins por conta de uma vida bastante desregrada. Grandes odes latinas devem ter sido compostas entre aquelas fontes e colunatas.

A última celebridade, até onde conheço, foi ninguém menos que Federico Fellini. O diretor freqüentava a pequena cidade, tratava-se em suas águas e passava o resto do tempo batendo papo com alguns dos pouco menos de sete mil habitantes da localidade. Na companhia de Giulietta Masina, sua eterna protagonista e esposa, passava ali dias inteiros, concebendo roteiros e tipos estranhos para povoá-los. Pois uma visita à estação de águas de Chianciano Terme foi o suficiente para me revelar de onde vinha a inspiração para esses tipos, representados com sarcasmo demolidor em .

Logo à entrada, vi duas senhoras muito idosas que tentavam cumprimentar-se com ósculos nas faces. A tarefa não era tão simples. Entre os lábios de uma e as bochechas de outra, entrepunham-se duas abas de dois chapéus, tão largas, tão bem desenhadas, tão cheias de babados, que não permitiriam o menor contato entre as peles enrugadas. Aquela situação, para mim beirando o surreal, lhes parecia supremamente engraçada. Rendia risadas histriônicas, que ecoavam por todo o saguão de entrada do parque, e chamavam a atenção dos funcionários. Elas não davam importância ao incômodo que causavam. Tentavam beijar-se, enquanto, a seus pés, dois cães do tamanho de camundongos se engalfinhavam.

Pelos caminhos do jardim, quase fui pisoteado por um cortejo que avançava feito as tropas de Aníbal. Homens de terno e gravata e mulheres de luvas brancas, todos exibindo sorrisos desesperados. Uma dúzia de pares de olhos, apertados e mareados, fitavam um homem obeso, alto, de cabelos engomados e vestimenta toda negra, que discursava com uma voz pastosa de insolência à frente da comissão. Não entendi o que ele dizia. Devia ser um homem muito importante. Em passos miúdos, seu séquito não o largou por toda a manhã.

Finalmente, cheguei a uma área com mesas de plástico, onde homens e mulheres encurvados jogavam cartas e dominó. Garçons atravessavam a clareira, equilibrando bandejas e guardanapos, ouvindo desaforos dos clientes, servindo bebidas coloridas. Ao centro, o coreto. Um teclado, uma guitarra elétrica, uma bateria. Um tenor jovem, também engomado, também todo de negro. Pôs-se a cantar, em tom de ária, canções populares americanas de décadas passadas. Foi o suficiente para que as mesas se esvaziassem, os jogos terminassem, e as pessoas encurvadas se entregassem à dança, como se a água milagrosa contivesse anfetaminas. E sou capaz de jurar: de toda a má música a que já fui submetido nesta vida, aquela figura entre as piores.

A princípio assustado, logo me vi maravilhado. Todas aquelas pessoas nada mais eram senão personagens de Fellini, ali, à minha volta, em carne e osso. Senti-me um privilegiado. Existe, no mundo real, gente tão esquisita quanto as figuras que o mestre do cinema italiano desenhava para depois filmar. É uma pena que o próprio Fellini não estivesse ali para conversar comigo, como fazia com os freqüentadores de sua época. Tenho a impressão de que ele era tão interessante quanto seus tipos.

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Um comentário sobre “Frente a frente com os tipos de Fellini

  1. Flávio disse:

    O Fellini sempre me lembrou o circo. Os seus filmes são uma roda viva permanente de figuras excêntricas e coloridas, tal e qual como nos espectáculos circenses. Mais tarde, vim a saber, sem grande surpresa, que o senhor, enquanto jovem, trabalhou no circo.

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