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Introdução à Toscana

Montepulciano
Vão me acusar de nostalgia, já sei, mas bateu uma vontade doida de voltar a um assunto que, em princípio, já ficou para trás. Por sorte, não é daqueles temas que caducam, como as ditas “atualidades”, tão efêmeras quanto uma chamada de primeira página em portal da internet. (Curioso, não? Até poucos anos atrás, diríamos “notícia de jornal”. Mas essa aí dura a eternidade de um dia. Para nós, contemporâneos, já pode ser considerada perene!)

Desculpem a digressão. Fato é que o tempo passa tão rápido, e o inverno promete um padecer tamanho, que não posso tirar da cabeça as memórias do verão. A estação da modorra, como eu já disse outras vezes neste espaço, fez que fez, e conseguiu não ter de passar por Paris este ano. Entendo perfeitamente sua opção: nos meses de férias e claridade, todo mundo prefere tomar a rota do Mediterrâneo.

Não teríamos visto o verão de 2007, se não tivéssemos a boa fortuna de encontrar passagens de trem em promoção para a Itália. Foram duas semanas debaixo de uma lua que encheria de inveja o sertão do Cariri, a tal ponto que chegamos a pedir arrego. Nós, os brasileiros, que enfrentamos com brio as areias de Ipanema em pleno Janeiro. Mas Ipanema tem água-de-coco, mate Leão e biscoitos Globo. Já Florença só tem escroques e hordas de americanos com camisas floridas.

Deixemos Florença para lá, que é tema para outro texto, daqueles bem sardônicos, demolidores, inclementes. Abandonamos essa cidade de ímpios, outrora magnífica, antes do tempo. Como os apóstolos seguindo instruções de Cristo, sacudimos a poeira das sandálias ainda na estação da cidade, um edifício de arquitetura fascista que não deixa dúvidas sobre o caráter da localidade.

Estávamos a ponto de decretar a condenação da Itália. Já lamentávamos o heroísmo de Garibaldi, que libertou o país do domínio austríaco, povo tão organizado, honesto e competente… O que resgatou o orgulho (vá lá, a aceitação) do país de nossos ancestrais foi a descoberta, quase por acidente, da Toscana, a legítima.

É irônico que tenhamos caído ali pelo desespero de escapar, justamente, do povo que tenta reproduzir a ausência de escrúpulos dos patronos, os Médici; a cidade em que um copo d’água custa meio rim, e saber as horas, o olho esquerdo. Encontramos, por um preço bastante razoável, um hotel perdido entre duas cidades: Chiusi e Chianciano. O acesso à hospedaria, anunciava a página, se fazia por trem, depois ônibus, depois uma caminhada. Pois era bem o que queríamos: distância e isolamento. Tomamos o primeiro trem.

Excelente decisão. Lá ficamos por três dias, em que cheguei a temer que estivesse morto. Na minha fantasia, tudo podia se explicar da seguinte maneira: a desidratação dera cabo de nós em plena margem esquerda do rio Arno. Os florentinos, em vez de nos conduzir a um hospital, esvaziaram nossos bolsos e jogaram dados por nossas roupas. Esgotado o garimpo, abandonaram os cadáveres sobre a calçada. Para os urubus. Os deuses, aviltados, compadeceram-se de nossas penas, e fizeram-nos crer que estávamos salvos, aproveitando o lado verdadeiramente maravilhoso da região.

Não será com um único texto que contarei tudo que passamos ali, antes de sermos atirados à dura realidade de Roma, outra cidade que já foi um esplendor. Este se pretende introdução a uma série, como tantas outras que já prometi (e poucas vezes cumpri). Cada detalhe daquele canto, que redimiu a península a nossos olhos, merece um relato independente.

Laura, dona do hotel, que se delicia em ajudar os hóspedes a aproveitar a estadia da melhor forma possível. Franco, proprietário de uma pequena, mas sofisticada vinícola, que teria alegremente esvaziado sua adega conosco, se não estivéssemos dirigindo. A senhora encurvada que vendia frios em Castiglione del Lago, vila deslumbrante, à beira do lago Trasimeno (só que lá não é Toscana, mas Úmbria).

Foi onde provei, também, a melhor refeição de minha vida, que superou até a de Turim, já relatada. Os Etruscos, antigos habitantes daqueles morros, povo que encarava a morte com simpatia e sabia tirar o melhor das derrotas. Enfim, cada cidade medieval que visitamos, os museus, as estradas, os castelos, os intermináveis trigais pontilhados de ciprestes.

Valerá a pena concentrar-se sobre esse período nas postagens dos próximos dias. Falando em dias, é pena que foram só três. Quando partimos, aqueles mesmos deuses ainda tentaram nos advertir contra a tolice que cometíamos. (Hybris, diriam os dramaturgos gregos.) Uma greve nos manteve presos em Chiusi por uma tarde inteira. Ah, se tivéssemos renovado a reserva do hotel! Falhamos nesse ponto.

Ao menos, tivemos a sorte de conhecer um sujeito chamado Massimo, alma de enorme nobreza, e sua filhinha Sophia. Mas esses dois também valem um texto só para eles.

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4 comentários sobre “Introdução à Toscana

  1. Ben disse:

    Olá!Estou de volta!Pow eu amo Florença!Adoro a Itália e passei com a Taty por lá tb!Volto pra ler o resto da sua estória!BjãoBen

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  2. maristela disse:

    Que maratona! Ficaram bem, enfim? Estou esperando as outras histórias. Vocês sabem – viajo de carona nestas empreitadas de vocês por aí. abraços

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  3. Diego Kehrle disse:

    Nossa, que susto cara. heheEu aqui testando meu blog(versão pré-alpha), e pela primeira vez na vida escrevendo algo, daí o cara que me inspirou a tentar – mesmo de forma indireta, vai e comenta! haha que susto! além da vergonha…Sobre o teu texto, é o meu preferido. E coragem também me falta pra fazer muita coisa, infelizmente.Abraço!

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