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A oficina de um passado vivo

Cadeira+antiga
Bons são os edifícios mistos, daqueles que se faziam antigamente, com lojas no térreo e apartamentos por cima. Da maneira como se planejam hoje as moradias e as cidades em geral, parece que a arquitetura torce o nariz para eles. É pena, acho, mas não posso fazer nada. Sei que estou falando como um romântico; para me defender, evoco um argumento de autoridade: Paulo Mendes da Rocha também gosta, e ele é um ganhador de prêmio Pritzker. Com essa companhia, não posso estar tão errado.

Pois bem, apesar de toda essa preferência pelas construções mistas, nunca tinha morado em uma. Dirá algum rabugento que isso explica muito. Não teria tanto entusiasmo, se conhecesse na pele o que é viver sobre comércios movimentados, barulhentos, insuportáveis. Nada mais ultrapassado e miserável, para nós que vivemos na era do condomínio fechado! E também confesso, é bem o momento, que já recusei um apartamento porque era no primeiro andar, logo acima de um açougue. Tive receio de dividir a vida com ratos, baratas e o cheiro da carne. Pois é, sou um hipócrita.

Acontece que, em torno dessa ciranda de gostos, idéias e ações, há um elemento chamado mundo. E o mundo, já sabemos, dá voltas. Eis que, agora mesmo, finalmente, passo pela experiência de viver na estreita vizinhança de lojas e outros serviços. Não posso nem dizer que vivo acima deles, porque o apartamento é térreo. Trocando em miúdos, durmo e acordo espremido entre um laboratório de próteses dentárias e um entreposto da Cruz Vermelha para distribuição de roupas usadas.

Não posso dizer que tirei a sorte grande. Mendigos fazem fila diante de minha porta, na expectativa de obter casacos e cuecas. Quando partem, deixam para trás garrafas vazias e, vez por outra, fluidos corporais. Às vezes deixam também garrafas cheias, mas não de bebida. Do outro lado, zumbem os aparelhinhos dos protéticos, cujo timbre, irônica mas bem apropriadamente, faz lembrar os dos dentistas. Como se não bastasse, um dos profissionais, sempre animado e expansivo, tem o curioso hábito de conversar pelo celular, manhã cedo, logo ao chegar ao serviço. Muito educado, não quer incomodar os colegas. Prefere ir à rua e discutir diante da janela mais próxima, que, ora, é a minha. É impossível demovê-lo.

Em que pese tudo isso, estou contente com a nova experiência. As dezenas de pequenas lojas enchem de vida o bairro, por onde há sempre gente circulando, comprando, discutindo. Se, não raro, caminhões bloqueiam a rua, tanto pior, a gente desvia. Se temos pressa, esbarramos uns nos outros, rudes e irresponsáveis, mas não nos ofendemos particularmente se nos esbarram. Xingamos sempre, é claro. Mas é só para estar certos de que não somos estátuas de mármore.

Essa animação revela detalhes inusitados, muitas vezes deliciosos e pitorescos, difíceis de perceber no meio da algazarra. Costumo passar diante de um edifício, aqui perto, cujo negócio, ao rés-do-chão, é uma oficina de conserto de cadeiras. O moveleiro, se posso chamá-lo assim, é um senhor idoso, que trabalha diante da janela aberta para a rua, trançando seu vime e encaixando a madeira, em gestos lentos, discretamente trêmulos, com a ajuda de óculos espessos.

A oficina jamais está plenamente iluminada. Conta apenas com um abajur que clareia, sem grande brilho, a área de trabalho do artesão, e confere uma aparência fantasmagórica às cadeiras; as prontas, afastadas a um canto, e as enfermas, que se empilham à espera do remendo do encosto furado ou do encaixe de um pé que se quebrou.

Esse homem velho, que passa o dia todo sozinho em seu ambiente de lida, está ali sem falta, semana após semana, cumprindo o mesmo serviço simples, com o mesmo cuidado. As pacientes são mais antigas ainda do que ele. Cadeiras como as do famoso quadro de Van Gogh, ou mais elegantes, com braços de veludo, como as de um palácio, daquelas que tomam emprestado o nome de algum rei. Objetos de séculos idos. Custo a acreditar que ainda existam na casa de alguém, e constato, algo surpreso, que existem na minha própria – cuja proprietária, diz a correspondência, é condessa.

O homem que conserta cadeiras na minha rua é como uma encarnação da história diante de meus olhos, em pleno século digital, com quase todos os seus atributos de passado real, vivo. Tão prosaico em seu quotidiano, esse negócio pode se dar ao luxo de ignorar que o tempo passou. E, com o orgulho febril de último de sua espécie, herói entristecido, tenta ignorar que o tempo sempre passará. Que esteja fadado a desaparecer sob a avalancha de cadeiras mais modernas e confortáveis, pouco lhe importa.

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5 comentários sobre “A oficina de um passado vivo

  1. Anna disse:

    Encontrei você no blog do André.Adorei seu post.Muito bom de ler.Desenha com as palavras e isto me encanta e me deixa facinada com a leitura.Muito bom.Bom mesmo.

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  2. S disse:

    Ler a sua descrição faz lembrar a capital do Rio de Janeiro, onde o novo e o antigo dividem o mesmo espaço.Confesso que adorei quando se afirma como um hipócrita quando admite suas contradições. Mas não creio que seja hipocrisia gostar de algumas coisas mas não aceitá-las em qualquer condição.Adoro passar em frente aos antiquarios e restauradores para ver o trabalho deles. Maravilhoso!Mas o que me deixaria muito incomodada te que limpar sujeira e desejo que a população de rua deixa na porta. Minha faculdade fede por conta disso, já que toda noite lá se amontoa gente para esperar o sopão da igreja.Nada contra o sopão, nem tneho solução sobre um lugar para eles fazerem suas necessidades, mas que o cheiro é muito desagradável.Beijos

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  3. Ilis disse:

    narciso gosta mesmo de espelho.sempre que venho aqui, eu me identifico com você. para completar: moro sobre uma loja de ferragens.:)bj

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