arte, centro, crônica, descoberta, frança, francês, greve, história, ironia, paris, Politica, trem

Greve (d’après Eisenstein)


Cena inicial de Greve, clássico do mestre russo Sergei Eisenstein

Europeus, em geral, adoram greve. E cada povo, claro, à sua maneira. Em Londres, certa vez, calhou que eu fosse surpreendido por uma. O dia inteiro sem metrô. Mas que eu não me preocupasse, contemporizou um tranqüilo funcionário. Qualquer chefe, qualquer professor, qualquer um perdoará o atraso. A greve britânica é um elemento natural do processo político. Quando há negociação importante em vista, uma categoria cruza os braços e pronto. Só para colocar as cartas na mesa. Mais civilizado, impossível. A terra de Thatcher, pelo visto, não é tão liberal quanto gosta de pregar.

Naturalmente, o dia em questão teve um trânsito histórico. Os automóveis em fila, acredite, literalmente não saíam do lugar. Mesmo assim, não ouvi uma buzina sequer. Tomei um ônibus e, afetado pelo fuso horário, adormeci. Quando acordei, sabe Deus após quanto tempo, estava rigorosamente no mesmo ponto. Metade dos passageiros já haviam descido. Segui o exemplo. A tal ponto a população reagia com tranqüilidade à situação potencialmente caótica, que não ouvi reclamações.

Outro canto em que uma greve me surpreendeu foi a Itália, aquele rabicho irritante de terra onde, não bastasse terminar, tudo começa em pizza. No vilarejo toscano de Chiusi, quis comprar passagem para Roma. A moça que deveria me dar informações, por trás da cara amarrada que caracteriza sua nacionalidade, limitou-se a fender o ar com um No! contundente, e ênfase no ponto de exclamação. Normal. A polidez, vinda de um italiano, é algo que me surpreende. Ela apontou para uma folha de papel, ali ao lado, com uma só palavra: Sciopero. Minha expressão vazia não a comoveu. Permaneceu imóvel, saboreando a indolência. Foi o vendedor de uma banca que me explicou o que ocorria. Uma greve nacional de trens, até o início da noite. Era um sinal. Eu deveria ter desistido de conhecer a Via Ápia, para permanecer entre os ciprestes da Toscana.

Os franceses, em particular, adoram greve. É parte de sua definição como povo, assim como os dossiês, as baguetes e a insatisfação. Não é absurdo que uma central sindical convoque uma paralisação apenas porque faz muito tempo desde a última. E a coisa é agressiva. Não basta parar o metrô. O país todo precisa ficar sem trem, ônibus, bonde, bicicleta. Todo mundo em casa, por favor.

A última greve inesquecível, de que todos falam com respeito reverente, aconteceu em 1995. Doze anos atrás, quando o século era outro. Por semanas, ninguém foi, ninguém veio. No dito Hexágono apertado entre Espanha e Alemanha, não circulou transporte público algum. Pessoas dormiam nos trilhos, sem ter como voltar para casa. Foram quase novas férias em pleno outono. Algo semelhante ocorreu há dois anos, durante os protestos estudantis que paralisaram a Sorbonne.

Nesta semana, anunciaram “Le jeudi noir”: quinta-feira negra, como alguns jornais se referiram ao movimento. Dia 18 de outubro, as composições manteriam repouso por 24 horas. A memória de 1995 logo assomou à mente coletiva dos franceses. Exagero, talvez; mas, naquela ocasião, tudo começou com um plano de um só dia, que foi se estendendo até quase dar um mês. Há quem preveja algo parecido. A greve deveria durar 24 horas, mas já passou de 48, embora uma parcela razoável do tráfego já esteja restabelecida.

Foi o suficiente para causar confusões de todo gênero. Congestionamentos. Filas nos pontos de táxi. legiões de estudantes e trabalhadores marchando pelas vias com uma dificuldade que nem as tropas de Hitler tiveram. As bicicletas públicas, em geral confiáveis, desapareceram nas mãos de usuários amedrontados pela perspectiva de depender das próprias pernas. Chegamos a perder duas entradas para um espetáculo porque não conseguimos chegar até o teatro.

Como os londrinos, os parisienses têm o hábito da greve. E o gosto, conforme eu disse. É assunto, e tudo que é assunto vale a pena. Sobretudo se for negativo. Mas, ao contrário de seus antípodas insulares, os franceses não reagem com galhardia. Cheguei a tentar um caminho pelo metrô. Levei sorte na primeira linha. Esperei apenas uma dezena de minutos. Na segunda, não foi bem assim.

Era uma plataforma aberta, elevada, exposta ao vento de quase inverno. Uma multidão já se acumulava, impaciente, impaciente, impaciente. A cada três minutos, um alto-falante estridente nos lembrava que a circulação estava “fortemente perturbada”, algo que podíamos constatar pelo silêncio imóvel dos trilhos. De súbito, uma outra voz, feminina e envergonhada, assume o microfone. Gaguejando, anuncia: o próximo trem virá em trinta minutos.

Parecia que o time da Argentina entrava no Maracanã. Uma vaia que materializou no ar vibrante a ira de centenas de cidadãos. Não houve um mortal que não recolhesse suas coisas para partir. Melhor esperar no café da esquina, tomando um aperitivo qualquer. Do meio da turba, porém, destaca-se um homem baixo, manco, velho e desdentado, com ar de desabrigado, que coxeia na direção oposta. Aciona o botão do telefone de emergência. Do outro lado, um grevista ingênuo atende a ligação. O velho baixo e coxo fala numa voz enrolada de ébrio.

  • Chamem um táxi, por favor.
  • Hein? – responde o grevista, inocente como uma criança.

O pequeno homem, externando toda sua raiva, exalta-se. Sobe na ponta dos pés para aproximar mais o rosto do aparelho.

  • Vocês vão pagar um táxi para mim, seus “isso e aquilo”! Eu quero ir pra casa, seus “isso e aquilo”! Não vou ficar aqui mofando neste buraco!

Todos interrompemos nossa retirada para acompanhar a gritaria. Alguns sorriem, outros caem na risada franca. Muitos, ali, gostariam de fazer o mesmo. A essa altura, o homem já não fala mais com um grevista, apenas uma caixa sem vida. Mas isso lhe é mais do que suficiente. Já reclamou. Seu instinto francês está saciado, ele pode prosseguir com sua vida. E, de fato, o faz. Toma o mesmo rumo dos demais usuários. Sempre praguejando, em coro com a multidão.

Anúncios
Padrão

7 comentários sobre “Greve (d’après Eisenstein)

  1. Kovacs disse:

    A França é um país maravilhoso com um legado cultural insuperável, mas tenho que concordar que a sua frase é perfeita: “Os franceses, em particular, adoram greve. É parte de sua definição como povo, assim como os dossiês, as baguetes e a insatisfação.”

    Curtir

  2. cris disse:

    Para completar o cenario, a primeira greve paulista que peguei, os meus unicos 3 quarteiroes normais de transito se tornaram 30, e os 30 minutos do meu trajeto viraram 3 horas, de buzinas, xingamentos e carros abandonados. Parei o meu e fui encher a cara – de coca. Se nao pode vence-los, junte-se a eles. (Tem um desafio para voce la no blog. Passa la. Beijos)

    Curtir

  3. S disse:

    Oi, a forma como a greve é encarada faz parte da cultura de um povo.Sempre defendí o direito à greve de qualquer categoria. Até que a greve dos funcionários do Ministério da cultura fez com que a biblioteca Nacional ficasse fechada por quase 3 meses e eu, consequentemente, não conclui minha pesquisa… Me enrolou de tal forma, que até hoje corro atrás do meu prejuizo.Faz parte do processo de negociação, mas muita gente não entende isso a acha que é papo de esquerdista a procura de um pretexto pra não trabalhar. Com relação aos franceses, faltou a “revanche”. Isso sim é criação deles e nunca ví um povo levar isso tão a sério quanto eles!Mas em relação à greve, mesmo prejudicada, continuo firme de que é um direito deles e deve ser plenamente exercido. Desde que não atrase minhas pesquisas, claro!No mais, eu acho que levantar a vida de uma pessoa pode ser curiosidade ou interesse e não uma mera obcessão. Mas depende muito da cabeça da pessoa, né! Beijo

    Curtir

  4. Silvia disse:

    Nossos hermanos argentinos também são briguentos, adoram greves, passeatas e manifestações variadas. Apenas nós, os brasileiros, somos assim tão “pacíficos”! Mas eu acho ótimo. Greve, em geral, só causa mesmo é confusão, prejudica muita gente, mais do que favorece. Não conte comigo com movimento nenhum contra nada… Já de alguma coisa a favor da paz, por exemplo, eu topo participar.

    Curtir

  5. tina oiticica harris disse:

    Vivo em um país onde tempo é dinheiro e greves são boicotadas. A Inglaterra castrou a classe operária com o pé duro de Thatcher durante a greve dos carvoeiros. A Inglaterra só não é pior que a Alemannha em sentido de ordem.Para mim, nesta série de aforismas, os franceses são latinos enrustidos. Adoram um bate-boca, furar fila, parecem brasileiros pão duros, exceto teu amigo ao norte.Lembro-me de uma greve durante o festival de Cannes, onde falam Godard e Truffaut. Mas ser a favor de greve de hospitais e serviçøs básicos? Não sei não.

    Curtir

  6. Lelec disse:

    Ainda bem que vou a pé ao hospital onde trabalho. Mas lá também não tive muito o que fazer, pois muitos pacientes agendados não conseguiram chegar, por causa da greve. Aí eu fico sapeando pela internet, caçando coisas legais para ler, como este blog…

    Curtir

  7. Eu já sabia que europeu sabia prometer, organizar e fazer uma greve. Diferente de brasileiro que vê coisas absurdas acontecerem e o máximo que faz é falar mal do governo, dos políticos e da polícia numa mesa de bar. Entretanto, não sabia que os europeus, em especial os franceses, GOSTAVAM com prazer de uma greve.
    bom saber o outro lado da vie. pq eu ainda estou muito limitada à imagem de turista encantada.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s