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Para os últimos miseráveis

Gente+no+metro
Já virou madrugada. Alguns gatos-pingados insistem em vagar pela plataforma, esperando o último metrô. Ainda terão de perambular, os algarismos amarelos avisam, por mais oito minutos. Na superfície, reinam o vento e a chuva. O outono começou na data precisa. Os casacos, sobretudos e capas de chuva são negros, cinzentos, pardos. Reforçam a monotonia do ambiente, decretada pela luz fria e os tijolos pálidos.

Os sapatos de quem vai chegando, sempre em passo arrastado, trazem notícias das condições melancólicas da superfície. Deixam no chão as marcas da cidade, como cartazes de propaganda. Uma trilha de pegadas, molhada e suja. Uma folha amarfanhada de jornal. Uma poça d’água que reflete a luz inconstante da lâmpada. Uma mancha de terra, quase lama, torna opaco o chão de piche.

Os casais não conversam, o grupo de adolescentes não se esganiça, os jovens estudantes que retornam, solitários, dos bares e restaurantes onde cavam seu parco orçamento, encolhidos nas cadeiras espaçadas, deixam pender as cabeças sobre os livros que pretendiam ler. O placar luminoso vai, pouco a pouco, acrescentando ao relógio os minutos que subtrai do cronômetro. Mas é lento. Transmite falta de esperança e uma estranha dor de enfado. Alguns, sem dizer palavra, têm a impressão de que a realidade se congelou. Outros deixam escapar suspiros e rejeitam qualquer impressão concreta, por desagradável.

Há muito ficou para trás o horário da loucura, em que os trens chegam um atrás do outro, as pessoas se empurram para entrar, sair, sentar-se. Para toda uma cidade, o dia terminou há muito. São horas de não estar. Mesmo os músicos anônimos, que se revezam entre vagões e estações, guardaram seus instrumentos e tomaram o caminho de casa. No meio da semana, só os irresponsáveis trocam o dia pela noite. E os miseráveis. Na extensão da plataforma, miseráveis e irresponsáveis não se deixam confundir. Mas é impossível evitar que se confundam suas faces, seus nomes, suas memórias.

A ponto de se converterem em massa despossuída, disposta a abjurar sua humanidade insustentável, cortam-se os liames de musgo que arriscavam fundir esses restos de almas. Quantos, ali, identificarão o milagre? Somente, é certo, os que abraçariam em gozo a loucura. No sentido inverso ao de todos os colegas, um homem vem instalar-se com seu estojo negro no último canto da plataforma. O último canto, aquele até o qual nenhum passageiro preocupou-se em caminhar. Um homem que já passa da meia-idade, olhos e lábios do extremo-oriente, cabelos curtos que disfarçam em vão a calvície de seus anos.

Movimentos lentos, fazem lembrar uma dança. Do estojo, quando o abre, salta um instrumento que seus dedos parecem apenas sustentar, não conduzir. O bojo tem as dimensões e a aparência de uma cuia grande. O braço é uma tira frágil de bambu envernizado. Somente uma corda se oferece para produzir toda a música. Em seguida, surge o arco. O velho chinês sustenta seu instrumento sobre os joelhos, com a mesma atitude cerimoniosa que exibiria diante de um público amplo e interessado. Apresentar-se para os últimos infelizes lhe é indiferente. Em nada menos honroso do que qualquer outra platéia.

Toda a cena passa despercebida dos viajantes impacientes. Mas é impossível, e não seria justo, que, por cada uma daquelas espinhas encurvados, um calafrio de choque não passe, quando a fricção de corda e arco lança pelo túnel as primeiras freqüências pungentes. Uma melodia de escalas desconhecidas, trazendo a estampa de outro mundo, oposto a este. E, nesse buraco abaixo de todos os bueiros, qualquer outro mundo é um alento. As pessoas não se voltam para o músico. Mantêm-se nas mesmas posições, como se congeladas. Não à toa. O estranho concerto não tem lugar no ar entre os corpos encolhidos. Seu ambiente são os espíritos aprisionados e opressos. Ali dentro, espectador algum pode manter-se indiferente.

O que espera esse homem, quando põe a acompanhar seu instrumento uma voz forte e colocada, cantando em mandarim ou nas línguas dos cãs? Não há de ser as moedas, que os miseráveis do final dos trabalhos não as têm. Pode-se fantasiar que ele atribua a seus sons algum poder mágico, como teriam sustentado os idealistas da arte. Mas o homem não tem a postura de quem reivindica um título de profeta ou xamã. Vêem-se no pescoço magro, debaixo da pele áspera, as veias que saltam quando ele canta, de olhos fechados.

Parece, sim, alguém que, vivendo de sua música, existe para ela. Sentindo-se compelido a tocar naquele espaço lúgubre, naquele momento improvável, obedeceu. Tomou seu estojo, levou-o à estação e dedicou-se a seu trabalho. Não pôde fazê-lo por mais de cinco minutos, até irromper pelos trilhos o peso grosseiro e agressivo da composição. Foi o bastante.

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4 comentários sobre “Para os últimos miseráveis

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