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Cilada e cinema

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Escorreguei para o mundo do crime. Foi sem querer. Culpa das más influências. “Dize com quem andas e te direi quem és”. Pois bem. Sou um fora-da-lei. E tudo aconteceu quando convidei um amigo para passar a soirée em casa. Era uma noite calma de agosto. Não passava alma pela rua. Jamais poderia supor que algo de anormal fosse acontecer. Nem mesmo a ventania, um pouco mais forte do que o habitual, me soprou um alerta ao ouvido. Céus, como eu estava enganado!

Meu amigo havia acabado de pousar em Roissy. Quinze horas mais cedo, perambulava pelo Galeão, incógnito, esperando a hora de seu vôo. Não sei se assoviava, nem se usava óculos de sol; o certo é que ninguém desconfiou de nada. Não sabiam que, atrás da expressão limpa de um viajante comum, escondia-se um criminoso frio e sem escrúpulos. Como poderiam imaginar o que havia dentro de sua bagagem de mão, acompanhando-o para cima e para baixo, entre executivos e turistas, lojas e restaurantes?

Era nada menos do que o objeto que me introduziu no submundo. Contra minha vontade, como eu disse. Um objeto achatado, mais ou menos um palmo de largura. Aconteceu há pouco mais de um mês. Conto essa história agora porque não posso mais conter a aflição e o remorso que me vão corroendo o fígado. O amigo já chegou em minha casa com o elemento ilícito na mão esquerda. Nem ao menos a preocupação de escondê-lo dentro de um saco. Quanta desfaçatez! Na mão direita, uma garrafa de vinho. Como se aquela ainda pudesse ser só mais uma noite normal.

Ah, que vinho amargo! Não vou, é claro, dar o nome desse pilantra. Vou chamá-lo de Sr. X, para que não me apontem como cagüeta, mas também porque passa uma impressão algo mais dramática e digna de Poe. Pois esse Sr. X, traidor, depois dos abraços de praxe de quem não se vê há semanas, anunciou a intenção criminosa: “Trouxe um filme pr’a gente ver!” Àquela altura, bem me lembro, ainda inocente das maldades deste mundo digital, não percebi a presença da contravenção. Só fiquei animado.

Fui o dito otário. Perdi. Se lesse com mais atenção os jornais brasileiros, estaria informado de que o filme em questão não havia sido, ainda, nem lançado no cinema. Mesmo assim, todo o Rio de Janeiro já tinha visto “Tropa de Elite”. Naquele momento, do outro lado do Atlântico, ao inserir o disco no aparelho, eu me tornei apenas mais um a sujar as mãos. Daqui por diante, viverei nas sombras.

Agora que já fiz minha penitência pública; agora que já confessei o crime e expliquei como é possível que eu tenha visto um filme que acabou de estrear oficialmente no Festival do Rio, sinto-me mais leve e, por conseqüência, livre para dar uma palavrinha a respeito. Ou, antes, duas palavrinhas, porque já comecei a bolar uma entrada, também, para o outro blog, o Cálculo Renal. Quem sabe, assim, não consigo compensar um pouco minha rápida derrapada para o lado obscuro, ao convencer dois ou três internautas a pagar ingresso pela fita de José Padilha?

Primeiro: fiquei muito impressionado com a qualidade do filme. É tão bem feito que nem parece brasileiro, e são poucos os momentos que entregam os vícios de nosso cinema atual, sobretudo no que tange às atuações. E foi isso, o que mais me impressionou: os atores são muito bons nesse filme. Aleluia! Wagner Moura, por sinal, está impecável como capitão do famigerado Bope. Tão convincente que apaga a péssima impressão que me causou o tal “Deus é Brasileiro”, de Cacá Diegues. Ou melhor, não apaga. Aquilo é um desastre absoluto…

Caio Junqueira, como um dos candidatos a novo oficial de elite, chegou a me dar a impressão, no início, de que não sustentaria o papel. Ledo engano, caro amigo. Sua transformação em máquina de triturar bandido é uma das melhores coisas do filme, digna de prêmio. Quem dera, esse esmero fosse generalizado nos atores do cinema brasileiro! Daria muito mais gosto sair de casa para vê-los, não?

Mas os elogios vão além das atuações. A produção é excepcionalmente rigorosa, considerando a prática corrente do chamado “cinemão” do Brasil. As cenas de batalha (não há outra forma de designar o confronto entre policiais e traficantes), o baile funk e o caos urbano do Rio de Janeiro são reproduzidos com um cuidado redentor. É um alívio para quem não agüenta mais a estética chupada da televisão, sempre ela, que impregna mesmo os filmes que, até segunda ordem, estão livres dos tentáculos da Vênus Platinada.

O roteiro, baseado em livro homônimo, tende a um certo deslumbramento com os “Caveiras”, seu rigor e sua truculência. É compreensível; afinal, é o ponto-de-vista deles. Fora esse detalhe, é um texto muito bem trabalhado, apesar dos mesmos velhos truques batidos que contaminam qualquer projeto em que Bráulio Mantovani e sua patota metem o dedo. Mas isso é uma ressalva, não uma condenação. A história é muito bem contada.

Da tropa em si e seu significado em termos sociais e políticos, deixo para tratar no texto que pretendo escrever para o Cálculo Renal, que é mais propício para esse gênero de reflexão. Se tudo der certo, vai para a rede ainda hoje; mas já sei que nem tudo dará certo, então deve ficar para amanhã mesmo. Avisarei com antecedência.

ATUALIZAÇÃO: Finalmente, cumpro uma promessa blogueira! Está pronto o texto do Cálculo Renal. Longo à beça, como sempre. Estão convidados.

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6 comentários sobre “Cilada e cinema

  1. Isabella Kantek disse:

    E eu achando que estava lendo um pequeno conto – ficção. Você me pegou, hein! A narrativa flui naturalmente, o vocabulário é rico, muito bem escrito (como sempre, como tenho lido).Abraços.

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  2. João disse:

    também achei que era um conto, eita. osrevni, não vi o filme ainda, mas depois do seu post, fiquei com mais vontade. vou já. um abraço.

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  3. João disse:

    esqueci de perguntar. o seu template é assim mesmo ou é o meu navegador que bagunça tudo? aparece um monte de links acima e os posts ficam em baixo. eu uso o firefox. será que é isso?

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  4. marilia disse:

    Apesar de vc não dar a mínima pra minha opinião, no que faz muito bem, vou escrever:há muito fazem filmes bons no Brasil, depende sempre de quem vai assistir e da sua expectativa… O filme é genial, e muito bem feito, realmente. E é nacional. e a historia, infelizmente também…é real!bjos

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  5. Gleise disse:

    Olá criatura inversa,tem um bom tempo, nem tanto assim, que venho dar uma lida aqui e tenho que concordar contigo: sim o filme é bom, os atores ótimos, o tratamento que deram ao filme fez com que ele mostrasse a violência cotidiana de uma forma dura, não gratuita, mas ainda assim fica aquela coisa de mocinho e bandido um pouco cinema americano demais, o que não tira nenhum mérito, é só uma opinião. E, por fim, sim, seu outro texto é enorme mas ótimo.beijos e boa semana…

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