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Independência e idade adulta

Saint+germain+des+pres
Hoje é meu aniversário de França. Um ano desde que desembarquei em Paris e, de repente, sem motivo, bateu uma saudade irresistível das idiotices da puberdade. Esse é, certamente, o momento mais difícil da vida, mas, mesmo assim, vale a idéia de que só tende a piorar com o tempo. Quando garoto, a gente não pode nem acreditar, se nos disserem algo assim. Para um pré-púbere, acumular anos é uma escalada segura para a independência.

Que sonho louco, a independência! Dezoito anos, maioridade, um carro, entrar e sair quando der vontade. A faculdade, onde acompanharemos “as aulas que escolhemos”, como nossa ingenuidade nos faz crer, malgrado as reclamações dos irmãos e primos mais velhos. Crescer parece muito bom.

A primeira vez em que temos a convicção de que rumamos a passo firme para a absoluta independência é quando nos vemos capazes de discordar com veemência das opiniões do pai, ou de dizer à mãe algo como “você é chata, mãe!”. Quando se dá isso? Entre os nove e os doze anos, imagino. Não lembro. E, no entanto, parecia inesquecível. Depois, chega o momento de derrubar as barreiras que nos parecem tão injustas.

No caso dos meninos, pelo menos, isso envolve, pela ordem, os palavrões, o álcool e a revista de mulher pelada, que é o primeiro passo no caminho desesperado do “comer alguém”. (Que palavra capciosa, esse “alguém”.) Depois da etapa fundamental que é o primeiro porre, a pornografia parece a vitória definitiva, após a qual não haverá mais objetivos, porque todos os objetivos possíveis já foram alcançados. Bem se vê: para aprender as coisas da vida, é preciso começar não sabendo nada.

Isso explica o ar de general de um menino que comprou sua primeira “revista de sacanagem”. Sente-se um transgressor, indomável, explorador dos maiores segredos das mulheres de plástico, todas nuas, com que irá se maravilhar dentro daquelas páginas, e que achará mais tarde, se tudo se passar bem em seu desenvolvimento, pior do que deploráveis. Se, nesse dia, ao entregar nas mãos do vendedor o volume rechado de nudez que escolheu, suas pernas tremeram e suas mãos se afogaram em suor, é mais um símbolo do sucesso. Da próxima vez, não haverá tremedeira, nem coração acelerado. Ele será um verdadeiro homenzinho. Está aí o buço não raspado, para provar.

Daí por diante, etapa após etapa, parece que tudo é conquista. Os momentos tão simples de auto-afirmação são como fincar uma bandeira em praia hostil. Depois, quando passa o tempo do vestibular e do exame de direção, vai-se com ele todo o deslumbramento com as tais conquistas. A universidade é uma decepção, verdadeira fábrica de gente mal qualificada, e andar todo dia de carro é meio caminho para o hospício. Finalmente, no subir do pano, uma verdade singela e amarga se revela: não há um pingo de independência na vida adulta.

Uma criança lida com duas grandes forças de contenção e autoridade, que são seus pais. Convém obedecer, vez por outra, e parar de chorar antes que eles sejam levados a nos estrangular. Uma situação castradora, pode ser, mas fácil de administrar, e que a escola só virá intensificar ligeiramente. Nada de mais. O problema, que ironia, só começa a se tornar mesmo sufocante (e não estou falando da opressão de que um adolescente se considera vítima) após a maioridade. Os centros de contenção de nossa criatividade se multiplicam e ganham outros nomes. Em geral, siglas: INSS, CPMF, DPF, RH. E não tem escapatória: errou no menor passo, é dor de cabeça garantida.

Um ano, hoje, como eu disse, em que estou na França. Isso significa, entre outras coisas, renovação de título de permanência. Graças a Deus, não houve grandes problemas, mas a tensão que precedeu a entrega da papelada interminável foi quase demais para os meus nervos. Meses e meses de angústia. Algum funcionário podia resolver que não posso continuar meus estudos. E não haveria nada a fazer. Não que, no Brasil, a coisa fosse diferente. Não votou? Não tira passaporte, malandro.

Enquanto isso, os bancos querem cobrar taxas por serviços que pareciam nem existir; o aluguel precisa ser renovado. Senão, rua. Há trabalhos a entregar, horários e prazos a cumprir. Senão, mesma coisa, rua. Enquanto estou aqui, escrevendo para o blog, sei que há alguém de olho em meu fígado e nos olhos da minha cara. Lembro do exemplo de um amigo próximo que caiu, recentemente, no golpe de um sujeito que dizia alugar um apartamento. Perdeu uma nota preta, e ainda precisou comemorar o fato de não ter sido seqüestrado ou esquartejado.

O chefe mais desagradável que já tive era, por outro lado, um sujeito muito sagaz e, apesar de duro e grosseiro, justo. Certa vez, vendo a fumaça que soltava uma dúzia de cabeças em sua equipe, ele se virou para nós e disse: “Estão reclamando do quê? Vocês só têm um chefe. Eu tenho cinco.” Nunca me esqueci dessa frase. Quanto mais se sobe, mais se é empurrado para baixo. Mais querem nos oprimir. Mas a única alternativa a continuar subindo é se esconder debaixo da cama, até que os agentes de despejo venham recolhê-la.

Sonho com uma existência em que não seria necessário se sujeitar às fustigadas da vida em sociedade. Morro de medo de acordar e ter à minha frente os guardas que executaram Joseph K. Às vezes, não consigo aproveitar os bons momentos, porque já antevejo os aborrecimentos do dia seguinte. E pensar que já houve um dia em que o que mais me deixava ansioso era ver uma mulher sem roupa.

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17 comentários sobre “Independência e idade adulta

  1. Daniel disse:

    meu amigo, eu sou um jovem de 23 anos, e sinto cada bez mais saudade da minha meninice. nada que perdi lá foi compensado pelos ganhos da dita “independência”. eu escreveria mais sobre isso, se tivesse seu fôlego de cronista 🙂

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  2. Kovacs disse:

    Diego, obrigado pela visita ao meu mundo. Algumas vezes também me sinto como Joseph K. Gostei dos seus textos e voltarei por aqui.

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  3. marilia disse:

    salue diego…ça c’est bon…fait comme touts les garçons et les filles de ton ãge… Cara, vai aproveitar o dia, vai baladé, promené, comemoré…( rsss) – desculpe o afrancesamento…rsssafinal, apesar de tudo, paris é sempre uma festa aos olhos… sucesso e que vc fique o tempo que precisar para realizar seus objetivos!um abraço…

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  4. BethS disse:

    Oi menino, desejo que as coisas fiquem mais leves e alegres pra você… não esqueça que, de qualquer forma, é um privilegio estar estudando em Paris com a sua idade…Grata pela visita e fique bem.Beijo grande

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  5. Sylvio Fraga disse:

    Diego,É sempre um enorme prazer ler o que você escreve. Hoje, porém, o prazer foi dobrado ao lembrar dos bons tempos — aqueles que, e agora percebo com mais clareza, resistem para mim nos meus poemas.abração,Sylvio

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  6. Silvia disse:

    Tô aqui explorando seus posts mais antigos e descobri que um dia fomos quase vizinhos… moro no Jd Bonfiglioli. Adorei o seu post de 14.5.06 – “Sou feia mas tô na moda” – tanto vc queria mudar de país que consegiu, né?? Um dia eu chego lá!! []s

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  7. Palhaco66 disse:

    Eh, rapaz. Lembrei-me de vc, o mais moleque da turma de trainees da FSP, todo feliz com a “fortuna” do primeiro salário, enquanto os demais (incluindo este que vos escreve) xingavam a merreca recebida. Se eu tivesse me recordado de que a felicidade pode residir na aquisição de playboys e congêneres, veria a fortuna que tinha em mãos! Mto bom seu texto, como de costume. Saudoso abraço!

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  8. Franciel disse:

    Meu velho, obrigado pela visita. Quanto ao fardo da passagem do tempo, furto o poeta baiano Antônio Brasileiro: “A verdade é uma só: são muitas. E estamos todos certos – e sem rumo”. abraços.

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  9. Anonymous disse:

    parabéns… e tô meio nessa fase de passar da aborrescência pra vida adulta. quero independência, mas tenho medo… sabe com é né?!!! bjs.

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  10. você falou uma grande verdade – a perda paulatina de uma sonhada independência a medida que envelhecemos. mas não desatine – você está em Paris. Quem me dera!
    bonsoir

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  11. Ça va bien? Não sabia que estava morando na França.

    Morei em Paris um ano.Faz tanto tempo que não sei como eu sabia usar o metrô com uma facilidade incrível;mas foram tempos sombrios; época em que a Iugoslávia se desfez e vários imigrantes foram para Paris….tempos difíceis.

    Me recordo, certa vez,quando aí morava, de uma francesa que, vindo de Provence, veio a Paris visitar a cidade: pasmem, assim que saltamos o metrô Bastille, ela me perguntou num tom sério de voz: “mas…onde está a Bastilha?” Acredite!

    Teu blog pode ser “menos denso que o outro”(quero ter tempo para ler ambos com calma!)mas é muuuito interessante e envolvente!

    Voltarei mais vezes!

    Gros bisoux!

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  12. Mia Machado disse:

    Tudo o que você falou é a mais pura verdade…é muito difícil “se tornar adulto”, eu estou passando por essa fase de transição, e confesso que não está sendo tão interessante como sempre achei que fosse, sem contar que esse é o momento que temos que tomar decisões que serão definitivas em nossas vidas…é meio complicado tomar decisões sérias…ainda mais quando se tem 18 anos..rsrs!
    Forte abraço amigo….adorei seu texo!

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