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“Faire la cave”

Craca+e+limo+e+tal
As últimas semanas me valeram uma descoberta inusitada. Alguma vez, já lhe ocorreu imaginar o que faria se sofresse a mesma tortura de Winston Smith? A mim, tampouco. Antes que perguntem, Winston é o protagonista de 1984, de George Orwell, em que, grosso modo, a sociedade é dominada por um Estado totalitário, na acepção mais extrema da palavra, capaz de mudar o passado, o presente e o futuro, senhor do pensamento e dos instintos, pesadelo maior de Milton Friedman.

Pule este parágrafo se não tiver lido o livro; resumindo bem, o personagem se envolve com um grupo que oposição ao governo (subversivo, diriam as “pessoas de bem” do Brasil), mas é traído e vai parar na prisão secreta do Estado, onde é torturado até que consigam enquadrá-lo. O clímax, se podemos dizer assim, é o momento em que, conhecendo sua vida até os mínimos detalhes, ameaçam-no com o que ele mais teme: ratos. Quando os animaizinhos se aproximam de seu rosto, guinchando feito loucos, ele rompe sua última barreira de autonomia e exclama: “Não o façam comigo! Façam com Júlia!”. Júlia é sua companheira e parceira de resistência.

Situada a questão, ela se traduz na seguinte fórmula: “se um Estado como o de 1984 fosse me torturar como fez com Winston Smith, o que usaria?” Em primeiro lugar, nada de ratos. Como quase toda a população da Terra, excetuados, talvez Ozzy Osbourne e alguns de seus seguidores, não gosto deles, mas não a ponto de temê-los acima de tudo na vida. Foi só muito recentemente que descobri uma coisa que me deixaria no mesmo pânico de Winston Smith. Chama-se “faire la cave“.

Fazia anos que eu não pensava no livro de George Orwell, essa obra que tanto me impactou quando eu era adolescente. Até o dia em que, após fechar o restaurante em que trabalho, em meio ao silêncio da madrugada, já na penumbra, pessoas passando pela rua logo ao lado, afastei caixas e frascos para me dedicar, pela primeira vez, à tarefa horripilante de faire la cave.

Faire la cave.

Faire la cave, e tenho um calafrio a cada vez que repito essas palavras, consiste em buscar garrafas de vinho na adega. Mas essa adega (a tal cave) está situada no subsolo, e seu acesso é feito por um alçapão de madeira grossa já carcomida, localizado em um canto nebuloso, normalmente escondido debaixo de panos e peças tidas como de decoração. Esse alçapão, além de enorme e pesado, está longe de ser seguro. Quando me explicaram o funcionamento das coisas, alertaram-me para ter muito cuidado ao descer as escadas. Se, aberto, o alçapão decidir que não está bem preso, cai sobre a cabeça do infeliz que está embaixo, e já causou acidentes de lembrança traumática.

Voltemos à descrição. Abrir o alçapão revela um buraco negro, um quadrado no chão cujo fundo não se vê. Mesmo assim, convém pensar duas vezes antes de meter o dedo no interruptor. Como se sabe, higiene não é o forte dos franceses. O que eles chamam de limpeza é aquilo que um garçom cansado e morto de vontade de ir para casa faz, superficialmente, com uma vassoura e um esfregão. Quando uma cave foi lavada pela última vez, Nice ainda era uma cidade italiana. A luz fria revela toda a poeira do cubículo úmido e pegajoso, a que se desce por degraus tortos e lisos.

Mencionei as teias de aranha? Pois, na primeira vez em que precisei faire la cave, logo dei de cara com um desses aracnídeos, esticando suas longas patas na beira da entrada. Incomodada, ainda reclamou comigo, e me xingou, porque acendi a luz de repente. Não consegui pedir desculpas. Estava com a respiração presa.

Lá dentro, o ar é grosso. Irrespirável. Minhas narinas se fecharam no instante em que pus os pés no chão, entre os cacos de vidro e os restos de cartolina molhada. Algumas das garrafas são inalcançáveis, protegidas que estão por camadas de poeira e outros tipos de material sujo. De outros frascos, já não se pode ler o rótulo, carcomido que está pelo tempo e as traças. Um recipiente de suco, vazio, formou no exterior uma massa úmida, de tonalidade castanho-escura, que lembra uma colônia de corais. Pequenos movimentos têm lugar aqui e ali. É melhor tentar pensar em outra coisa.

Eu descia na cave com um casaco, mesmo se estivesse quente. Medida de precaução, por mais idiota que fosse. Agarrava as garrafas o mais rápido que podia, subia correndo. Antes de abrir o alçapão, tomava bastante fôlego. Cheguei a sonhar, mais de uma vez, que era obrigado a faire la cave, e acordava afogado em suor.

Faire la cave teve, na minha vida, pelo menos um efeito positivo. É o de me fazer lembrar de George Orwell, 1984 e Winston Smith. Agora sei que, se algum dia uma Gestapo ou um DOI-Codi da vida resolver arrancar alguma confissão de mim, não vai ser difícil. Basta acessar o blog, ler este texto e me obrigar a faire la cave. Num piscar de olhos, cá entre nós, acho que eu admitiria até o assassinato de John Kennedy.

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4 comentários sobre ““Faire la cave”

  1. marilia disse:

    Salue, petit garçon…pas de probleme avec la cave!!!Achei meu comentário do outro dia…estava no haloscan(?)…adorei o texto. mas tenho muito, muito nojo de ratos…mas acho que como vc, não me entregaria com ele…meu pânico são os cachorros e gatos…facin,facin, eu entrego minh’alma se colocar algum na minha frente!!!mas, acho que deve ser horripilante e nojento descer nessa cave do restaurante onde vc trabalha…falar nisso, me mande o endereço, assim a mali te procura em dois locais..ahahahahatorre e restaurante…!pronto, a menina já tem passeio e comidfa garantidas… bjos grandes.ps: achei o máximo a comparação,e adoro até hoje este livro1

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