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Um desafio ao mau humor

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Este texto será um exercício puxado para meu espírito ranzinza e reclamão; até hoje, não faltou espaço para ele neste blog, mas eis um beco sem saída. Talvez seja o momento de dar a vitória à alegria. Mas veremos. Aceito o desafio. Tudo isso porque, contra todas as minhas próprias expectativas, caiu do céu um emprego fácil de considerar invejável, pelo menos para um estudante estrangeiro. Será este blogueiro capaz de encontrar um lado negativo?

Aos fatos, então. Há uns dias, Nicole almoçou com alguns amigos brasileiros. Voltou contando que esbarrara, por acaso, com um pernambucano que, vivendo neste hexágono há alguns anos, vive de receber o público da Torre Eiffel. Com um detalhe: trabalha pouco e ganha muito. Isto é, recebe mais do que um garçom, desses que voltam moídos para casa, de madrugada, com uma baguete meio endurecida debaixo do braço à guisa de recompensa. (Vai por mim, sei do que estou falando.)

Esse sujeito, que tão rápido quanto apareceu, sumiu, deu o caminho das pedras para obter um posto no mais famoso totem turístico do mundo. E não são tantas assim, as pedras. Algumas rubricas a preencher pela internet, um telefonema, nada mais. Se estão contratando? Sempre estão, ele garantiu. E era verdade.

Se passaram dez minutos de quando enviei os dados, até receber a ligação do diretor de Recursos Humanos, foi muito. Marcou-se a entrevista para a manhã seguinte. O início dos trabalhos, para sexta-feira. Mal precisei exibir minha capacidade de dizer “good morning, ladies and gentlemen“. E antes que eu pudesse pronunciar um “merci beaucoup, monsieur“, estava contratado.

As notícias alvissareiras ainda não acabaram. Já mencionei o horário? Entro às onze, saio às duas. Repito. São apenas três horas por dia, seis dias por semana. E vou receber o mesmo que no famigerado restaurante. O contrato é válido por duas semanas, está certo, mas pode ser renovado indefinidamente. Parece bom, não?

Mas ainda há um ponto a mencionar. Faz um ano que, perambulando por essas calçadas infestadas de turistas, tenho vontade de subir na Torre Eiffel. Mas sou demovido pelas filas intermináveis e pelo preço salgado, além dos sonhos de um mísero estudante, sustentado por um punhado de reais. As filas são menores apenas quando o tempo está péssimo, o que nem é tão raro, mas reduz o interesse em tomar os elevadores para ver paredão branco. A partir de agora, subirei e descerei quantas vezes quiser. Sem pagar. Aliás, muito pelo contrário. Devo contar como receita, além do pagamento, o dinheiro que deixarei de gastar com o ingresso.

Eis os pontos positivos. Agora, como anunciei no primeiro parágrafo, devo passar à negatividade, ao mau humor, à rabugice. A missão parece impossível, mas vencerei. Ponha-se na seguinte situação, um exemplo fácil para os cariocas. Você consegue um emprego no alto do Corcovado, aos pés do Redentor. Seis dias por semana, lá vai você, subindo para seu posto, de onde vê toda a cidade, e a cidade pode vê-lo de volta. Sensacional, certo? Imagine, agora, que o trabalho se torna insuportável. O chefe é uma cobra, os colegas são desagradáveis, o vento fustiga, o frio estilhaça, o sol queima, a chuva amolece. Traumatizado, desesperado para largar o emprego, você pede demissão e desce correndo, aos berros, pelas Paineiras, até o conforto do lar. E dorme, aliviado.

No dia seguinte, mais tranqüilo, resolve aproveitar o clima agradável. Abre a janela. Qual é a primeira coisa que vê? Voltemos a mim. De todos os bairros de Paris, avista-se a Torre Eiffel. Onde os prédios a escondem, há holofotes que giram, a noite inteira, e lançam jatos de luz pelos céus da cidade. De hora em hora, ela pisca como uma fantasia de carnaval. É impossível atravessar o Sena ou subir em Montmartre sem que o grande falo de metal atinja, pelo menos, o canto do olho.

A Torre Eiffel domina toda a paisagem. Se a experiência de trabalhar lá for negativa, terrível, insuportável, como poderei continuar a viver em Paris? Será impossível, terei de buscar outra cidade, outro país, outro continente. A solução de Édipo, ou seja, furar os olhos, parece pouco razoável. Mas sabe-se lá o que um acesso de loucura pode causar, não?

Pode ser ínfima a probabilidade de resultar assim tão terrível meu período orientando turistas. Reconheço. Mas não posso perder minha fama de casmurro. Foi a única maneira que encontrei para vencer o desafio do baixo-astral. Pelo menos neste assunto. Mas garanto que o próximo post voltará à carga habitual de mau humor.

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18 comentários sobre “Um desafio ao mau humor

  1. Silvia disse:

    Não vejo nada de negativo, não, sorry!! E, sim, a experiência ficará gravada para sempre, quer vc esteja perto ou longe dela.

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  2. Lord Broken Pottery disse:

    Aguardaremos o mau humor. Você já reparou como o mau humor é mais inteligente que o bom humor? Daria um post. Abração

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  3. fran disse:

    que tal jogar o chefe para baixo? rs. no filme Le Divorce, a americana joga uma kelly bag de 5 mil dólares torre eiffel abaixo. talvez seja a hora do funcionário de saco cheio do chefe cobra fazer o mesmo. com o chefe, of course. riso. brincadeirinha!

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  4. Ivo Korytowski disse:

    Uma dica: até o primeiro “pavimento” da torre dá pra subir de graça por uma escada. A vista lá de cima é linda. Melhor do que nada!

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  5. marilia disse:

    ok, paulo..fiz um comentário quinta ou quarta, não me recordo e não estou vendo ele…será que se perdeu??? ma, tudo bem, não sou bem humorada e vou procura-lo sempressa… rsss bjos!

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  6. CARACA!!!!Já arrumei ingresso ‘di gratis..” a minha linda filha desembarca ai em Paris, dia 01 de outubro…
    vou mandar ela te procurar, pedir pra entrar sem pagar, furar fila, e te atazanar, até seu mal humor explodir…rssssssss
    adorei..
    Cara, eu amo essa cidade, minha história de vida tem anos passados ai, enfim, nada me agrada mais que ver o grande falo de qualquer canto dos meus zoinhos…
    bisous…
    c’est fini…

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  7. Ok, meu amigo.
    Tenho planos de ainda conhecer a cidade luz e certamente vou procurá-lo quando aí estiver.
    Então, procuro seu chefe para tecer alguns elogios, e contribuo para que o seu contrato seja renovado indefinidamente.
    E quando o mau humor insistir em invadir, visite o meu “By Osc@r Luiz”, que geralmente os “mau humores” não resistem a ele. Quando o humor já for bom, visite o meu “Flainando na Web”, que de alguma maneira deve lhe alimentar a alma. Pelo menos essa é a proposta dos dois blogs.
    Grande abraço, meu amigo e sucesso no seu novo trabalho!
    Antes que eu me esqueça, seu template fica disforme quando navegado pelo Firefox. Me foi preciso entrar pelo Internet Explorer para lê-lo. Talvez convenha informar isso aos seus leitores pois hoje em dia, muita gente como eu usa o Firefox.
    Um abraço e uma boa semana!

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  8. Nossa, que baita/triste coincidência… eu ando meio por fora dos modismos etc e tal, mas hoje mesmo ouvi falar em moleskine pela primeira vez. E acontece uma tragédia dessas com o seu moleskine… Meus sentimentos… se eu perdesse coisas assim, eu ficaria totalmente deprimida, e não quase, assim como vc. Que coisa….

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  9. Dear, li seu ensaio e, sabe, comecei a sorrir. Já imaginou se o seu larápio ler o moleskine? Vai que ele é brasileiro! Vai que tem algum na família! Você pode estar mudando uma vida, criando um filósofo, um grande fotógrafo, até.
    A vida é feita de esperança, Diego. Vai que daqui a uns 20 anos ele traz seu moleskine e sua furreca, reconhecendo-te através da reportagem do seu prêmio Nobel, agradecido e aos prantos por poder te reencontrar? Dá pelo menos um momento Silvio de Abreu, vai?

    (sinto muito)

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  10. Realmente o valor de algumas coisas não pode ser medido. Se roubarem o meu bloco de notas (sem nome, por hora), também caio em depressão. Apesar da tristeza compartilhada, parabéns pelo espaço, que é uma delícia de apreciar.

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  11. Sou solidário com você. Furtaram-me dois livros e um par de óculos juntamente com uma bolsa num átrio de hotel. Fui ao banheiro quando voltei, não encontrei nada mais.
    Sei quão triste você ficou. Um grande abraço.PS. Sinto pela furreca também.

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  12. isso aconteceu em paris? todo mês ouço uma história de roubo na cidade luz. a que me deixou mais boquiaberta envolveu um hotel de alto luxo. a mulher foi tomar café da manhã. qd retornou com seu prato do buffet a bolsa enorme tinha sumido. ulalá. algo em comum entre SP e Paris. os gatunos estão à solta….

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  13. Olá Diego, quanto tempo!! Sei que é difícil não ficar triste por causa do roubo… Mas, nada acontece por acaso (desculpe o lugar comum) e quem sabe isso não é um estímulo para não se apegar a determinadas coisas e buscar novos horizontes? Boa sorte. Um grande abraço. P.S.: inaugurei uma coluna na “Comunidade Maytê – por um mundo novo” com o tema “Fantasia e seus mistérios” – a favor da magia pessoal e da literatura fantástica – link http://www.comunidademayte.com/P…=1507& idCanal=3

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