fotografia, frança, furreca, roubo

Adeus, Furreca! Adeus, moleskine!

Adeus+furreca
Tenho a convicção de que o nosso é um tempo apaixonado pelos pequenos objetos, para não dizer pequenos aparelhos. Celular, palmtop, iPod, o escambau. Procuro me esquivar ao máximo das armadilhas do momento histórico, mas, que posso fazer?, acabo caindo do mesmo jeito. Ao ponto de sentir como um golpe irrecuperável a perda simultânea de dois pequenos objetos que me acompanhavam por todo lado.

Eis a história: acho que fui roubado. Ninguém veio apontar um revólver para o meu nariz, pelo menos. Mas isso me daria, no mínimo, a certeza de que algum gatuno me privou de coisas minhas. Da maneira como foi, só sei mesmo que, numa hora, estava lá. Na outra, não estava mais. Donde só três conclusões se apresentam: ou estou ficando louco, o que é até possível; ou algum Exu anda brincando com meus nervos, mas isso, meu materialismo retinto veta; só resta a teoria do roubo.

À reconstituição: cheguei ao restaurante e, como faria um funcionário público, pendurei o paletó atrás da porta. Passaram-se as horas, clientes e mais clientes; quando deu seu horário, o cozinheiro juntou as trouxas e partiu. Pegou seu casaco, deixou o meu sobre uma cadeira localizada a poucos passos da porta; em outras palavras, visível da rua. Despediu-se e foi para casa. Depois, foram-se os clientes. Pelos próximos três quartos de hora, era só eu na penumbra, tirando mesas e esfregando o chão. Tudo acabado e o baile encerrado, atordoado fiquei (TM Cartola): o paletó não estava em parte alguma.

A rigor, não perdi grande coisa. Carteira, celular, chaves e talão de cheques estavam nos bolsos da calça. O livro, sobre o balcão, ao lado do telefone. Só duas coisas eu havia deixado no paletó: meu moleskine e a máquina fotográfica que, de tanta afeição, apelidei de Furreca.

Esse é o golpe duro que tomei. Explico. Faz sentido dizer que minha vida se reparte em três: a primeira, pessoal, em que tenho meu apartamento e minha namorada, caminho sem destino, vou ao cinema, trabalho e assim por diante; a segunda, civil (chamemos assim), em que estudo, pesquiso e produzo os trabalhos que tenho que produzir; a terceira, anímica, na falta de palavra melhor, em que anoto idéias no moleskine e fotografo, ou melhor, fotografava, a vida e a cidade com a Furreca.

Conclusão: o tal larápio, seja quem for, com seu gesto tão simples de esticar o braço e sair correndo, apagou de uma tacada um terço de minha vida. O moleskine não tem valor econômico algum; mas continha uma parcela importante de minha energia criativa, minhas idéias, o esboço de um ensaio sobre o idealismo, poemas, observações sobre o quotidiano, telefones e e-mails de gente encontrada por aí. Até desenhos, um dos quais de minha namorada adormecida, feito em Madrid. (Era um mau desenho, mas e daí?)

Ou seja, o miserável arrancou uma parte do meu cérebro. Quando vou recuperar as impressões cuidadosamente anotadas sobre os barcos ancorados no Sena? Sobre os mendigos e seus cães bem alimentados? A adesão unânime das francesas à mesma peça, cinzenta e soltinha, da moda?

Quanto à Furreca, não tinha impressa uma parte da minha energia criativa porque já transbordava sua própria criatividade. Muito maior do que a minha, e já falei sobre isso diversas vezes. Esperava até que ela me fizesse rico, algum dia. E agora? Como ficarei sem ela?

Alguns me dizem, dando de ombros: compre outra máquina. Como se! Que outro aparelho distorcerá o mundo como a minha Furreca? Posso ter uma câmera maravilhosa, em que seja possível controlar a distância focal e a abertura da lente. Mas ela me obedecerá com a frieza dos eletrônicos. Nunca voltarei a apertar o botão de uma artista como a Furreca.

Se algum dia topar com o mão-leve, farei da sua cara um purê.

Desde esse episódio infeliz, tenho andado quase deprimido. Já iniciei um novo moleskine, claro. Mais um, suscetível de ser surrupiado. É o risco a correr, claro, para tomar notas in loco. Quanto à Furreca, estou preparando uma antologia de suas “furrequices” para publicar por aqui. E, antes que o digam, sei que deveria dar graças por não ter sido abordado por um desses assaltantes capazes de apagar uma vida inteira, não apenas um terço, por um punhado de merréis. Ora, dinheiro, eu não teria a menor dificuldade em entregar a um ladrão. Mas me levar a Furreca e o moleskine, isso é demais.

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10 comentários sobre “Adeus, Furreca! Adeus, moleskine!

  1. gasolina disse:

    Desculpa a ignorância…O que é uma Furreca?Uma máquina fotográfica?E donde vem esse nome?Estou intrigadissima!Abraço desde Terras Lusas.

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  2. marilia disse:

    ô dó, xente!!!odeio perder, ou ser roubada de algum objeto que amo. me sentiria assim, sem meu anel de flor. sério. rodo ele quando preciso pensar, e juro que finciona.cheguei aqui, pela tina. voltarei sózinha. abração.ps; tomara que encontre suas lembranças.

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  3. Bia disse:

    A vida pode ser muito divertida, mas ela �s vezes � insjusta, sim. Bem, espero que o seu moleskine v� parar em algum lugar onde suas id�ias, anota�es, fotografias e rabiscos se transformem ao menos em inspira�o para seguirem suas vidas. (a gente tem que ser meio Pollyana, nessas horas)

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  4. osrevni disse:

    Oi Bia, Tomara, então, que o ladrão seja brasileiro ou português… senão, nada feito. Fora a dificuldade em entender a minha letra. Nem eu mesmo consigo, às vezes…

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  5. * Tatá * - Taís Basso disse:

    Quanta injustica, ruim demais perder os pertences…eles sempre têm algum significado. Pequeno ou grande, mas possuem significações.Imagino a sua chateação com isso…no seu lugar, ficaria.Adorei o post e amei seu blog.Passarei sempre por aqui, viu?Beijos e sucesso.

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  6. Lia Drumond disse:

    Olá! Cheguei aqui via Tina. Adorei seu blog e já passei pela mesma coisa, no final de um ano perdi a agenda onde tinha anotado todas as peripécias dos meus 16 anos. Foi quando comecei a escrever em blogs. Mesmo com dados como endereço e telefone na agenda, nunca a devolveram. Muita sacanagem! Vou voltar e ler mais. Beijos

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  7. Thiago Lira disse:

    Tb tenho um moleskine, ora, quer dizer, esse não é o nome. Eu também gosto de flagar a vida na ponta do lapis!Adorei os textos.

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  8. Pingback: Para falar das flores | Para ler sem olhar

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