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Quando fui pelos ares

Kaputt
Logo na primeira noite em que precisei trabalhar além do horário do metrô, sofri um acidente de bicicleta. Resulta que, quando tiver setenta anos, se contar aos meus netinhos que me machuquei de tão cansado que o trabalho me deixava, será uma mentira. Bastaram duas míseras noites entre garrafas e talheres para que eu me tornasse incapaz de conduzir um guidão.

Mentira de novo. Eu não estava incapaz de nada. Estava era pedalando rápido demais, desesperado para chegar em casa e encontrar a mulher, o uísque e um banho quente – não necessariamente nessa ordem; melhor é os três ao mesmo tempo. Será isso, então, a imprudência no trânsito? Sou culpado. Uma culpa mitigada, por favor; mas condenável, ainda assim.

Foi diante da porta de uma boate. Os seguranças me contaram que, na noite anterior, uma moça se acidentou no mesmo ponto. Culpa da rua, então. Muito gentis, os seguranças. Impediram-me de subir novamente na bicicleta, trêmulo, diria até desvairado. Ordenaram-me que respirasse; eu já ia mesmo esquecendo desse detalhe. Ignoraram minhas assertivas repetidas de que estava bem, não havia me machucado, e assim por diante. Deixaram de lado a bicicleta e me trouxeram água mineral. Só mesmo acidentado eu tomo água mineral! Se não me meti em outro sinistro logo na seqüência, acho que devo isso aos dois armários que me socorreram.

Culpa da rua, eles garantiram. Pode ser. Em um dado momento, quando eu seguia em linha rigidamente reta, a roda apontou para outra direção. Asfalto irregular, a julgar pelo depoimento dos seguranças. Ou terá sido meu braço que fraquejou? Não duvido. O que quer que seja, a ciclovia era estreita. Senti logo o perigo. Não conseguiria recuperar a direção do guidão, nem apoiar o pé na calçada. Os freios, como sempre, estavam bem aquém dos cem por cento. Só me restava esperar pelo choque. Dito e feito.

Não quis nem olhar se causei algum dano ao Peugeot velho em que bati, até então estacionado na santa paz de Deus. Se fosse obrigado a pagar pelo mínimo arranhão, minha permanência em território gaulês estaria comprometida em definitivo. O pessoal da boate (e lhes devo mais uma) fingiu que não viu. Quanto à bicicleta, o cesto sofreu uma cicatriz; o metal vergou. Fora isso, nada. Talvez as marchas tenham se tornado um pouco mais difíceis de trocar, mas pode ser coisa da minha cabeça.

Foi sorte. De verdade. São bicicletas públicas, que fazem parte de um novo programa da prefeitura para diminuir a circulação de carros em Paris. Uma assinatura anual, bicicletas à vontade. Ou quase. Estão em metade das esquinas da cidade. Por outro lado, estragar uma das benditas custa a bagatela de cento e cinqüenta euros. Quase nada para um Bill Gates, eu sei. Mas não é o meu caso.

Finalmente, o alívio maior. A despeito do espetáculo que ofereci a quem estava por perto, não sofri nada grave. “Escoriações leves”, não é esse o termo? Em suma, foram cortes na mão e dedos roxos. Tive a boa fortuna de aprender, na adolescência, a arte de cair com violência sem me machucar demais. Graças a esse aprendizado, que deveria fazer parte dos currículos escolares, consigo discernir bem o momento em que o acidente se torna inevitável. Até lá, luto para evitá-lo. A partir de então, abro mão da peleja. O esforço passa a ser para quebrar o mínimo possível de ossos.

A dor e o susto estragaram minha noite. Não conseguia dormir, com o polegar que latejava. Inchado, tinha a cor e o tamanho de uma ameixa pequena. Por outro lado, quanto mais o tempo passa, menor é o peso desse lado desagradável, e maior é o peso da lembrança histórica. Sim, sei que ainda chegará o dia em que, visitando Paris com meus filhos ou netos, hei de levá-los à Rue de Rivoli, no ponto em que o Louvre termina e começam as Tulherias.

Então, cheio de saudade, uma nostalgia que enterrará no esquecimento o cansaço destas madrugadas, apontarei o lugar exato em que fui pelos ares a bordo de uma bicicleta Vélib, voltando de uma noite de trabalho pesado. E meus olhos se encherão de lágrimas. Não porque se repetirá, nas entranhas do inconsciente, a dor da queda. Mas porque, pela minha cabeça já esbranquecida, passará um pensamento idiota como este: “Eu era feliz e não sabia” – ou algum outro, mais idiota ainda.

Tolice.

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4 comentários sobre “Quando fui pelos ares

  1. Lelec disse:

    Puxa…Désolé! Aposto que você filosofava no Vélib.Moral da história: só filosofe parado.Grande abraço, filósofo acidentado!LelecEm tempo: se precisar de uma avaliação médica, estou às ordens para ver seu polegar. E, caso necessário, lembro-lhe que eu sempre era elogiado por meus professores em cirurgias de amputação.

    Curtir

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