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A Furreca ainda me fará rico!

Torre+de+pisa

Dá um certo remorso, o apelido maldoso com que me refiro à máquina fotográfica que ganhei de brinde do banco quando, implorando de joelhos, consegui convencê-los a abrir uma conta para mim e outra para minha namorada. Não fosse por esse pequeno aparelho digital, de resolução ínfima e uma enorme dificuldade para reconhecer a presença de luz no ambiente, certamente meus registros da vida na França e das viagens por aí estariam reduzidos a poucas dúzias de imagens. De qualidade muito superior, tudo bem. Mas poucas, e nada espontâneas.
A câmera boa, do tempo em que a fotografia envolvia um elemento estranho chamado “filme”, está relegada ao armário desde então. Às vezes, quando percebo que ela se sente desvalorizada, perco horas em consolações, garantindo que, mesmo se só uso a outra, é dela que gosto mais. E que, se ela está no armário e a Furreca no bolso, é uma pura questão de dinheiro. Nada além disso.
Está cada vez mais difícil convencê-la. Mas a verdade é que, hoje, dou-lhe mais valor do que quando era a única. Que poder nos dá o simples fato de fotometrar! A escolha da distância focal, o tempo de exposição, os objetos que estourarão na claridade ou desaparecerão nas trevas… Um dia, isso foi corriqueiro. Hoje, dá saudade. Eu, que tanto reclamava de não ter um ou outro filtro para manipular as imagens! Se soubesse…
Quase esqueci que não estou escrevendo por nostalgia, mas para fazer um desagravo à minha querida Furreca, companheira de tantas horas. Uma de suas características mais marcantes é a formação que teve antes de parar em minhas mãos. Não li seu currículo, mas sei que andou estudando em alguma escola de arte moderna. É voluntariosa como o diabo. Não se conforma, por nada neste mundo, a ser um apêndice de meu desejo de fotografar. Ao contrário da velha Canon, que cumpre com perfeição burocrática seu dever mecânico, a Furreca é, ela mesma, a artista. E não tem conversa. Eu que me contente com minha função de apertador de botão e trocador de pilhas.
Assim sendo, essa pequena seguidora de Picasso e Kandinski, admiradora de El Greco e Delacroix, não tem vergonha alguma de copiar, nas imagens que produz, o estilo dos grandes mestres da história, com acentuada preferência pelo Expressionismo e o Surrealismo. Poucas são as fotos em que, contente com o que está vendo, ela não se resolve a dar um toque pessoal, distorcer o mundo, meter curvas onde curvas não há, borrar cores, esticar figuras, inventar fundos dourados como os de Klimt. Já eu, por falta de opção, apenas aceito. E espero que, pelo menos, saia bonitinho. Eventualmente, pelo menos, minha submissão é recompensada. A investigação estética da Furreca às vezes resulta em descobertas fantásticas, já que ela é capaz de notar coisas que escapam à percepção comum. Isso ainda vai me deixar rico. Um exemplo? Dou logo um bombástico.

Zoing

Recentemente, estive em várias cidades da Itália, como você saberia se fosse um leitor assíduo deste blog. Uma das obviedades a que me permiti foi uma visita a Pisa, debaixo de um calor digno do Crato. Apenas a título de registro, enquadrei a famosa torre inclinada e tirei a foto. Mas a Furreca, ora, até parece que se contenta com um mero registro de viagem. Ela precisa entender a fundo o que vai registrar em sua memória digital. Resultado? Uma descoberta histórica, capaz de revolucionar a arquitetura universal, a compreensão da arte e o turismo na Itália. Atenção: a Torre de Pisa não é apenas inclinada. Não. Também é torta. Está aí a imagem, que não me deixa mentir.

Torre+com+lsd

Obrigado, Furreca. Vou vender para o mundo inteiro o segredo desvendado de uma das construções mais fotografadas que há. Darei palestras, entrevistas, escreverei um livro, farei um filme. Ficarei rico! Só eu sei! Só eu, eu!, consegui fotografar a verdade sobre Pisa! É quase como tirar um instantâneo de discos voadores invadindo o planeta. Furreca, minha querida: se algum dia eu ficar rico, será graças a você.
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6 comentários sobre “A Furreca ainda me fará rico!

  1. Daniel disse:

    estou escrevendo apenas para ver se é verdade o que disse, se comentar estando sóbrio ajuda.e não é que aujada?! ahahahaops, “ajuda”.

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  2. Cris Teles disse:

    Oi!!A Furreca é mesmo um espetáculo, assim como seu blog..rsE se ficar rico e famoso mesmo, não se esqueça dos amigos, ok? :))Beijão!!

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  3. Elza disse:

    Olá!!Estou passando por aqui para dar meus parabéns pela sua indicação, ao prêmio blog 5 estrelas!Seu blog é muito original, parabéns 2x!rsrs…=]

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  4. Pingback: Para falar das flores | Para ler sem olhar

  5. Pingback: Adeus, Furreca! Adeus, moleskine! | Para ler sem olhar

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