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Saciedade, aleluia!

Boteco+frances+brasserie

A alegria à mesa já foi tema deste blog, eu sei, e faz pouco tempo. Parece que estou um pouco suscetível ao assunto. Será que tenho comido tão mal, a ponto de ser tirado de órbita por qualquer refeição mais refinada? Não é impossível. Sei que estou cercado pelos ares de uma das mais célebres artes culinárias do planeta. Mas só tenho acesso a ela por cardápios de restaurantes em que não ouso entrar, a não ser para anotar pedidos. Sobre a alimentação realmente existente, só sei do famigerado kebab, uma espécie de churrasquinho grego que não causa convulsões imediatas, e os crepes, doces e salgados, que se fazem acompanhar por cidra, queira o cliente ou não.

Não é que eu jamais tenha sido convidado para jantares em casas francesas. Fui, sim. E não poucas vezes. Mas, segredo: apesar de todo o refinamento dos pratos, sempre muito cuidadosos, dos sabores desenvolvidos no laboratório dos séculos e palácios, do acompanhamento de vinhos com gosto de frutas e camélias, é desanimador. Verdade seja dita, o francês come feito um passarinho. O preço da carne deixaria poucas dúvidas quanto ao motivo, não fosse o fato de que o miserê à mesa é social e economicamente generalizado.

Um amigo ficou hospedado com um sujeito que não pode reclamar da vida. Mora no Marais, bairro para quem não pode reclamar da vida, e é sócio de uma empresa cujo faturamento tem vários zeros, coisa que não permite reclamar da vida. Outro atributo seu é o domínio de todas as receitas do país (admito o exagero, isso é impossível).

De partida, meu amigo estava encantado. Queria fazer inveja em todos nós, dizendo que comeria como um local. Não demorou para o coitado perceber que isso não se parece em nada com o que nos servem nos restaurantes franceses do Brasil. Após algumas semanas, contou que, depois do jantar, o anfitrião adormecido, ele atacava a geladeira em desespero.

Mas, como se sabe, toda regra tem exceções. Fomos convidados para visitar o apartamento novo de um casal amigo, no subúrbio. Comprada na planta, a nova moradia vinha sendo esperada há três anos e finalmente ficou pronta. Eles estavam eufóricos, repetindo a propaganda da cidade, eleita recentemente uma das mais floridas da Europa. Chamaram-nos para o almoço, buscariam-nos na estação de trem, tudo para nos agradar e compartilhar de sua alegria.

Forçamo-nos a acordar a um horário aceitável. Colocamos em uma sacola o vinho de Montepulciano que vínhamos guardando para uma ocasião especial. Passamos na floricultura e compramos rosas cor-de-laranja. Tomamos o trem.

Já ia me esquecendo de um detalhe importantíssimo, então abro um parêntese. O verão, esperado desde finais de junho, finalmente resolveu dar o ar da graça. Não faz nem uma semana. As temperaturas que, durante quase todo o mês de julho, mantinham-se estáveis em nível de cachecol, finalmente romperam a barreira dos trinta graus. Risco para os idosos, claro. Mas benção para o casal tropical que pôde, finalmente, relembrar a sensação deliciosa de usar camisetas.

Fecho o parêntese. O apartamento de nossos amigos não se parece em nada com o que conhecemos de Paris. Não foi construído no século XIX, não tem madeira grossa no chão, nem cadeira de quadro do Van Gogh. Poderia ser um apartamento brasileiro, não fosse a tranqüilidade do entorno, área pública belíssima. E os novos proprietários estavam exultantes. Só falavam em mostrar os parques, os bosques, a floresta em que colhem morangos silvestres.

Tão exultantes estavam que, no almoço, entupiram nossos organismos, tão sofridos, de comida. E da melhor qualidade, talvez melhor do que a dos cardápios que me causam suspiros. Gaspaccio, carne de caça cozinhada lentamente no vinho tinto, uma salada com vegetais que eu nem conhecia. Já estava a ponto de concluir que a única saída seria uma sesta, quando me exortaram a acompanhá-los em um passeio pelos parques da cidade. Pois vamos, como não?

Debaixo dos carvalhos e cerejeiras, novo convite: por que não ficar para o jantar? “Que pensam de passar uma soirée em nossa companhia?” (A fala afetada é de praxe.) Qualquer recusa seria uma ofensa. E quem recusaria? Tome queijos, tabule, molho chien, pão nan, espetos de peixes e frutos do mar, mais salada de vegetais desconhecidos, agora com ovas de salmão. Tudo degustado em algum lugar entre a varanda florida e as nuvens que, a rigor, não havia.

O resultado disso é que, na volta, deitei-me e não conseguia mais levantar. Qualquer movimento do abdome justificava uivos meus que deixariam com pena os vizinhos, se, a esta altura, não estivessem todos na praia. Meu estômago planando em céu de brigadeiro, e meu fígado na estiva, quase convocando uma greve contra o súbito afluxo de nutrientes. Eu suava. Talvez tenha delirado. Mas também acho que dizer isso seria exagerar minha condição. Se delirei, não foi pela digestão difícil. Mais provavelmente, foi a compreensão de que já obtive minha boa refeição da estação, e a próxima só virá, se vier, no outono.

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8 comentários sobre “Saciedade, aleluia!

  1. tina oiticica harris disse:

    Já tive dor de estômago de tanto comer. Foi um almoço de caruru, tucupi, tacacá e mais um prato brasuca. Me entupi e de noite nem pude sair, dor que nem você.Você tá sabendo do movimento “Cansei.com.br”? Gostei do teu post sobre o Bergman também.Beijinhos, Paulo, lê o meu A sonata ao luar, vai. Priz.

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  2. Ricardo Rayol disse:

    Sei não, a culinária francesa se desenvolveu a partir dos períodos em que esteve sob dominação de outros países. Ppor isso acho uma forma refinada de comer lixo ehehehehe

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  3. Daniel Lopes disse:

    a culinária francesa é cheeeia de frescurinha, hem? da frança, eu fico com a literatura ;-)impagável, em seu post, é essa imagem, hehe.abs.

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  4. Menina_marota disse:

    Oh meu caro, tem que vir a Portugal provar comida Portuguesa! Esta sim! O nosso cozido à Portuguesa…A nossa feijoada transmontanaas nossas tripas à moda do Porto…O nosso bacalhau à Brás…O nosso leitão da Bairrada…a nossa vitela de Arouca…o nosso bacalhau com migas…o nosso bacalhau à Zé do Pipo…e mais… e mais… só você mesmo descobrindo!E os vinhos?Do Douro, do Alentejo, do Ribatejo, da Estremadura… o vinho verde de Ponte de Lima…e mais… e mais…Só mesmo provando!Beijos ;)))))

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  5. Lord Broken Pottery disse:

    Ontem passei mais ou menos por isso. Costumo, muitas vezes, exagerar nos domingos. Depois é a mesma luta, o mesmo sacrifício que você teve que enfrentar. Estou aqui prometendo que só voltarei a comer assim… Acho que não voltarei.Abração

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  6. Lelec disse:

    É… Belo retrato dessa nossa vida parisiense, cheia de kebabs.Eu também só como bem quando convidado para ir a uma maison de alguém. O pior é que até nisso não tenho tido sorte. Há um mês, fui à casa do meu professor cheio de expectativas e chegando lá… Só uns canapés e uns macarrons… Preciso arranjar novos amigos parisienses! Abraço e saudações rubro-negras, seu tricolor atópico! He, he…

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