arte, cinema, crônica, história, obituário

Silêncio e silêncio

Não lembro mais quem disse que desejava morrer no mesmo dia de alguém mais famoso, para que a mídia não desse atenção. Mas compreendo. Deve ser terrível não ter paz nem na hora de expirar. Seja quem for que o disse, não foi Antonioni. Mas, se ele concordava com a fórmula, não poderia ter escolhido momento melhor para morrer do que logo após a partida de Bergman.

Deixei-me torturar nesses dias com o dilema: escrever ou não sobre Michelangelo Antonioni? Dois obituários em seqüência? Dois cineastas? Elogios ad nauseam? Haverão de pensar que este blog tem uma fixação fúnebre. Além disso, por mais amor que eu tenha à obra do mestre italiano, foi para o sueco que ergui altares. Já estava quase decidido a voltar a meus relatos de viagem, mas não conseguia ignorar a injustiça com o autor de um dos mais fantásticos planos-seqüência da história.

Salvou-me uma lembrança: Ingmar e Michelangelo tinham um ponto em comum. Nada melhor para justificar um texto do que o ponto em comum. Parece soar como uma influência mística, um toque de coincidência divina, todas essas bobagens. E sempre funciona. Basta encontrar algo, forçado que seja, de comum a duas pessoas distantes, e o texto se escreve quase sozinho.

O que une os dois cineastas, pelo menos por ora, é o fato de terem escrito e dirigido, cada um, a sua “trilogia do silêncio”. Foram quase simultâneas e, para piorar, nenhuma das duas é, de fato, uma trilogia. Mas é assim como ficaram conhecidas as seqüências de três filmes de Bergman: “Através do espelho”, “Luz de Inverno” e “O Silêncio” (1961-1963), e três de Antonioni: “A aventura”, “A Noite” e “O Eclipse” (1960-1962). Admito que, normalmente, não se usa “do silêncio” para a trilogia de Antonioni, mas basta passar os olhos sobre os últimos minutos de “O Eclipse” (Alain Delon e Monica Vitti) para sobrepor a alcunha aos filmes.

Ingrid Thulin, deitada em sua cama de hotel na cidade desconhecida de “O Silêncio”, sacode-se em tosse, manchando de vermelho seu lenço. À cabeceira, a bela Gunnar Lindblom enfeita-se diante do espelho e encara o reflexo da irmã mais velha com olhar pastoso e indiferente. Elas não trocam palavra. Só o que se ouve é a agonia da moribunda. Enquanto o filho de Lindblom passeia pelo hotel vazio, pesa sobre a Terra o silêncio dos céus. Mas o inferno, vê Bergman, não se cala jamais.

Uma banda toca animadamente durante a festa na casa de um italiano rico e modernoso em “A Noite”. Marcello Mastroianni se deixou fascinar pelo mistério de Monica Vitti, atriz preferida de Antonioni. Sua esposa, interpretada por Jeanne Moreau, percebe, ofende-se com razão, foge. Mastroianni, sempre seguido pela câmera paciente de Antonioni, a perseguirá através da casa pelos próximos muitos minutos, atormentado pela lembrança da tentação e pela música alegre. Não consegue lhe dizer o que sente, porque não compreende o que sente. Ela, tampouco. Quando se reconciliam, fazem-no em silêncio. Suas emoções não lhes dizem nada.

Esses seis filmes pesam em nosso peito. Também nós sofremos a negligência do transcendente e a crueldade do imanente. Não são feitos para que saiamos aliviados da sessão. Talvez menos isolados. No silêncio dos demais espectadores, podemos reconhecer, se quisermos, a mesma tragédia humana em que tentamos construir nossas vidas. Essa é uma das magias da câmera: ela é capaz de nos coagir a olhar em torno, seguir seu exemplo, estabelecer contatos ao menos visuais com nossos pares, já que as palavras, tão mais claras, não somos capazes de emitir.

Por que não se continuam fazendo filmes assim? Não há interesse do público? Por que haveria menos, agora, do que há quarenta anos? Por acaso Deus rompeu seu silêncio ou somos perfeitamente capazes de dialogar com nosso inconsciente? Não e não. O homem contemporâneo é tão atormentado quanto os personagens de Bergman e Antonioni. A Roma esvaziada com que o italiano exclama o amor que não teve coragem de se concretizar, em “O Eclipse”, poderia ser traduzida para qualquer cidade de hoje. Talvez com a diferença de que perdemos até mesmo a ousadia de chorar nossos fracassos.

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5 comentários sobre “Silêncio e silêncio

  1. Lord Broken Pottery disse:

    Retribuo a visita. Dei uma olhada por aqui. Textos bem escritos, fortes, voltarei mais vezes. Farei um link lá no Lord pra me facilitar o trabalho.Grande abraço

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  2. marilia disse:

    Amigo, excelente ensaio sobre a obra dos dois grandes mestres italianos. gostei do blog, e estou retribuindo a visita e dizendo que fiquei contente em te conhecer.quanto ao post acima, do almo�o/jantar…rsss sorte sua… que venham outros t�o bons!um abra�o e seja bem vindo sempre na minha casa!

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  3. Filmes como eles faziam não pode porque a época é outra mas tem bons filmes franceses e italianos nas locadoras.Eu fui a filmes destes dois quando havia cinema de verdade mas nunca gostei.

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