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O princípio Asterix

Setas+a+dar+com+o+pau

Em nove de dez oportunidades, a ciranda da burocracia leva a melhor sobre mim. Cada vez que me vejo regurgitando fotocópias de meus documentos, cada vez que me obrigam a repetir números de 43 dígitos ou me reconduzem ao guichê tal, tenho ganas de atear fogo ao Louvre. Por isso, na mais que excepcional décima ocasião, ou seja, aquela em que consigo vencer o inimigo invisível, é minha obrigação erguer o punho, bater no peito, me vangloriar até ficar rouco e, de quebra, pagar uma rodada para todos os circunstantes.
Pois foi o que aconteceu na manhã desta segunda-feira, debaixo de uma chuva ardilosa, na sede da lustrosa e capenga Sorbonne. Não me contenho, tenho de dizer: vinguei-me! Fiz meu gol de honra! A temível, a imbatível Administration Française já cansou de me assoberbar com seus dossiês e procedimentos; mas hoje, enfim!, enganei-a e, uma vez na vida, pisei no peito do império do papel.
Como consegui? Talvez não devesse contar, mas seria de uma crueldade terrível para com aqueles que quiserem, no futuro, aventurar-se pela mesma floresta escura. Minha arma secreta e infalível é o dito “princípio Asterix”. Pois foi o intrépido herói gaulês de Uderzo e Goscinny que desenvolveu a técnica que me levou à vitória. Só isso já deveria lhe valer o título de general, nessa guerra chamada vida civil gálica. Vamos à narrativa.
Devo lembrar que, no hemisfério Norte, a temporada de estudos e esportes começa em setembro/outubro e termina em junho. Pois, sendo julho, já era hora de inscrever-se no ano seguinte. Mas como isso é feito? O procedimento não está descrito em lugar algum. Telefonei para a secretaria e fui atendido por uma senhora de delicadeza tipicamente francesa, ou seja, nenhuma. “Procure na internet!”, ela vociferou. “Você procurou na internet?”
Na internet, hélas! Lá vou eu, enfiar o nariz na página da universidade. Indecifrável, como sói na França. E o que me espera? A página não pode ser encontrada. Está fora do ar. Um, dois, três dias. Mais um telefonema para a secretaria: “Na internet!” “Está fora do ar.” Um silêncio, e depois: “É verdade. Que pena. Aguarde o retorno. A inscrição é pela internet.”
Pois sim. Avancemos no tempo: certo dia, a página renasceu, como uma Fênix online. Finalmente, posso me inscrever. Após quinze minutos de números e dados, a tela informa: “Sua inscrição está registrada e à espera do pagamento.” Pagamento? Quanto? Onde pago? Ninguém sabe, ninguém viu. Solução? Mais um telefonema. “Procure na internet!” Já esperava ouvir algo assim. “Mande voltar as telas. O valor está informado.” Volto as telas. Nada está informado, senão que minha inscrição está registrada. À espera do pagamento.
Uma mudança de estratégia se faz urgente. Decido tomar a ofensiva. Armo-me de toda a papelada que Deus me deu e avanço pelo metrô até a suntuosa sede, com seus painéis de Henri Martin. Bato à porta da secretaria. Entro. Sou recebido por uma jovem sorridente. Faço minhas perguntas. A resposta é ainda mais aterradora do que as etapas precedentes. Diz ela que devo enfiar a papelada em um envelope e depositá-lo numa urna, diante da porta. E o pagamento? O cheque também vai dentro do envelope. A carteira chegará pelo correio.
Berro para mim mesmo: Jamais! Tenho a convicção de que esse sistema é feito para falhar. Com alma de brasileiro, já fico perguntando: não me darão nem um recibo? Faço questão do recibo. Se não tem recibo, é porque nada aconteceu. E mais: cheque?!
Procedo a um recuo estratégico. Mais um telefonema. Desta vez, nada de internet. “Mande o cheque pelo correio.” E a carteira? “Você vem buscar aqui.” Uma luz vermelha se acende. Mas e a papelada? Como fica a papelada?
É hora de mais uma ofensiva. Com todas as armas. E é hora de pôr em ação o “princípio Asterix”. Desço novamente à universidade. Sorrateiro, passo por todos os guichês como se não fosse comigo. Sinto-me um Agente 86 de tênis furado. Atravesso a última porta e invado a tesouraria. Os rapazes conversam sobre Playstation e Nintendo. Alvos fáceis.
Anuncio meu propósito. Pagar a inscrição. Entrego a carteira do ano anterior. Pedem a papelada. Entrego-a. Mas não são esses, os papéis que querem. Tudo bem. Está nos planos. “Isso era na etapa anterior”, adverte o rapaz. “Fui mandado direto para cá”, respondo. Ele quase entra em parafuso. Lança um olhar furtivo para os demais, que tampouco encontram explicação. Estou quieto, sentado na cadeira que ele me indicou, com o ar mais inocente do mundo. Pobre estrangeiro! Não entende nossa língua direito, não conhece os meandros de nossos corredores. Ajudemo-lo!
O rapaz se levanta e me diz de esperar. Com prazer, meu caro. Com prazer.
Dito e feito! Poucos minutos mais tarde, ei-lo que volta. Sem a papelada. Vitória! Ele se senta, digita umas poucas tolices, pede meu cartão e faz a cobrança. Não dá mais um quarto de hora, tenho em mãos minha carteira, meu comprovante (sem recibo, como eu disse, nada aconteceu), meu documento de Seguridade Social. Finalmente, meu Deus! Finalmente, fui mais esperto do que eles!
Abandono o edifício aos saltos, dançando e, literalmente, cantando na chuva, que só fez apertar enquanto eu dava meus dribles nos burocratas universitários. Cruzo com Gene Kelly na rua e ele acha que sou algum doido. Mas superei a primeira etapa, nessa maratona administrativa que serão os próximos três meses. Falta apenas mais uma meia-dúzia. Não faz mal. Estou preparado, armado até os dentes. Quanto ao brilhante Asterix, sou todo agradecimentos. Pois foi assistindo ao vídeo abaixo que aprendi a demolir a “maison qui rend fou“.
No original:
Em inglês, com legenda:
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6 comentários sobre “O princípio Asterix

  1. G disse:

    Olá!É assim mesmo!Temos que ser nós a tomar conta da situação!Gostei muito do seu blog (até já o adicionei ao meu BlogRoll!).Obrigado pela visita lá no meu. Volte sempre!Abraço!

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  2. MCA disse:

    Nunca pensei, mas é muito pior que em Portugal! Claro, burocracia vem do francês bureaucracie. Por alguma razão há-de ser…

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