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Quando apagamos os amigos

Montparnasse

Um dia, seremos nós. Fomos hoje à estação de Montparnasse, ao sul da cidade, para nos despedir de André. Ele tomou o trem para Portugal, de onde partirá seu vôo rumo ao Brasil. Ajudamo-lo a transportar as três malas pesadíssimas, carregadas de presentes e memórias do tempo em que esteve em Paris. Quando se fechou a porta do TGV, entendemos que era mais um nome a apagar da agenda, e menos um amigo para viver o dia-a-dia.

Não é o primeiro, claro. Já nos despedimos de Ricardo, que foi aprender, na Índia, técnicas de medicina oriental. Rafael e Sílvia retornaram a São Paulo, após vários meses saltitando de cidade em cidade da Europa. Caso parecido com o de Gabriel, o “Foca”, que já estava para partir quando cheguei. Rita talvez nunca volte, Paula foi mergulhar em Honduras, Nuno foi cantar em Portugal, Janaína foi fazer suas peças à beira da Lagoa, Malú está na Argentina com seus ancestrais. Pessoas que víamos quase todo dia. Com quem tínhamos projetos conjuntos e uma realidade compartilhada, cujos números de telefone estavam gravados em nosso celular, cujos endereços conhecíamos de cor. Agora, esses números e nomes de rua nada dizem, e deverão ser apagados sumariamente, sob pena de uma nostalgia tão dolorosa quanto infrutífera.

Apagadas da agenda, é claro. Da memória, jamais.

Seria possível contar histórias de todas essas pessoas, mas o caso de André é mais gritante. Nos seis meses em que esteve na Europa, foi um dos amigos que chamamos de “filho”. A outra é Marina, a pianista virtuose que seu primo, camarada nosso, nos encarregou de apoiar, e que também vai nos abandonar durante dois meses, enquanto visita a família verdadeira, em Brasília. André nunca foi, é claro, nosso filho, mas dormiu várias vezes em casa, e sua vinda à França não se realizou sem uma forte influência nossa. Originalmente, ele estava na Europa a trabalho; mais precisamente, em Portugal. Deslocou-se até Paris porque o incentivamos a buscar nesta cidade, em que já morou e pela qual se apaixonou, a realização de seu sonho de uma boa formação em direção teatral.

É quase certo, agora, que ele retorne no próximo ano, devidamente matriculado. Por enquanto, vale que ele esteve aqui para praticar seu francês e juntar algum dinheiro, de que precisará para reconstruir a vida no Brasil e, mais tarde, estabelecer-se novamente nesta capital tão pitoresca. Não foi uma tarefa simples. Para conseguir o dinheiro, ele foi obrigado a passar o diabo. Trabalhou sob as ordens de um brasileiro de personalidade corrosiva e sádica, que, para sua mera diversão, encarregou-se de fazer um inferno da vida do subordinado.

Por pouco nosso amigo não abandonou tudo. Esteve à beira do esgotamento emocional, e nós acompanhávamos seu sofrimento tomados pela angústia, mas impotentes para arrancá-lo de sua situação terrível. Quem o fez, finalmente, foi o tempo. Terminado o prazo de seu visto, chegou o momento de tomar o caminho de casa. Nos últimos dias, o rosto do rapaz era a própria expressão do alívio. Ele aproveitou a liberdade e o dinheiro conquistado arduamente para passear pela cidade e visitar o que ela tem de melhor em termos de museus e casas de chocolate.

Sua história foi heróica. Deu-lhe a oportunidade de se revelar valoroso. Entreanto, ele não se orgulha das humilhações por que passou, afirma. Mas, com a distância que minha perspectiva me permite, creio que deveria orgulhar-se, pelo menos, da postura que sustentou.

A partida de André é mais uma volta que se fecha no ciclo da vida expatriada. Sua companhia é uma que não teremos mais, para os pique-niques à beira do Sena ou as tardes de domingo jogadas fora no parque Monceau. É estranha, a relação de amizade que se cria entre as pessoas temporariamente fora do país. Forte e estranha. Estamos todos desenraizados, passamos todos por dificuldades práticas comuns que, em geral, desconhecíamos no Brasil. Mas fugaz, incerta, porque vivemos deslocados de nossa verdadeira vida. A qualquer momento, um laço inestimável pode ser cortado. E muitos o são. Constantemente.

Tem também aqueles amigos que jamais o seriam em circunstâncias normais. Gente que se freqüenta quase diariamente só porque faz parte de uma mesma, como se diz, colônia. Desses, prefiro não mencionar nomes, mas já sei antecipadamente que vou manter distância quando estivermos novamente na mesma cidade, mas essa cidade estiver implantada sobre o solo da América do Sul. E certamente vou me perguntar: como foi possível que usei a sagrada expressão “meu amigo” para me dirigir a alguém que, com toda sinceridade, na verdade detesto?

Prefiro falar dos amigos para valer, sobretudo quando partem e merecem alguma homenagem. André é o mais recente. Ainda não digerimos o fato de que não vamos mais convidá-lo para nada. Um dia, já imagino, alguém nos levará ao aeroporto, como nós levamos André à estação de trens. Haverá uma despedida emocionada, depois esse alguém apagará da memória do telefone nossos números parisienses, começados em 01, 06, 08. Para o aeroporto, não será nada além da rotina.

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10 comentários sobre “Quando apagamos os amigos

  1. MCA disse:

    Acho que os brasileiros em Portugal essa sensação de desenraizamento não existe. Não sei, sou portuguesa, mas é o que sinto.Obrigada pela visita à BdJ.

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  2. Anonymous disse:

    C’est la vie! Nos encontraremos todos ainda em terras brazucas! Ou em algum retrospectivas 200X! Achei interessante saber de noticias das pessoas (algumas das quais nao conheço senao por nome)de forma quase rimada letra de musica: “Rita talvez nunca volte, Paula foi mergulhar em Honduras, Nuno foi cantar em Portugal, Janaína foi fazer suas peças à beira da Lagoa, Malú está na Argentina com seus ancestrais” Isso da caldo hein, pegue ja seu cavaquinho!!!! Quando voltar quero-a ja encaminhada, Domingo…:) Aniram

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  3. Flávia Brito disse:

    Esse texto faz muito sentido também para mim que, apesar de jamais ter morado fora do Brasil, passei grande parte da vida de cidade em cidade, ganhando novos amigos e separando-me deles – o que não significa que em algum momento os tenha deixado para trás. Bons amigos seguem conosco onde quer que estejamos – assim como também seguimos com eles.Obrigada pela visita, e parabéns pelo bom gosto com que conduz seu blog. Direcionei um link para vc, e virei visitá-lo sempre.Beijos

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  4. eugenia disse:

    Gostei de seus comentários acerca da viagem na Itália. Brinco dizendo que a cidade mais linda do mundo é Paris, mas que o país é a Itália. Sou francófila “da capo al fine”, mas adoro Stendhal, quem muito ajudou em meu entendimento da italianidade.Merci beaucoup par votre visite. On se écrit. A bientôt,Eugenia.

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  5. Anonymous disse:

    Eu tô muito emocionada, por fazer parte, obrigada pela homenagem.O ciclo não vai terminar nunca. Os telefones são apagados, mas as amizades podem ficar pra sempre.Podem botar na agenda meu tel do Rio :)Bj grande pros dois.Janaina.

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  6. São essas estórias que levamos conosco pra sempre, independente do tempo.
    Passei algo parecido quando vim morar em sampa, deixando em Manaus meus amigos.
    A roda da fortuna nunca pára, meu amigo.

    Abraço.

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  7. acho incrível como isso é comum: de repente, pelo simples fato de termos uma nacionalidade em comum, dois estranhos tornam-se amigos-quase-irmãos (coisa que nunca ocorreria no Brasil). Sofri desse mal várias vezes nos 12 meses que vivi fora. Numa hora reclamamos e dizemos que temos vergonha do Brasil, na outra, é o que mais nos identifica como pessoa. Vai entender…

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  8. As despedidas têm, para mim, um gosto amargo e um quê de doçura, por saber que, como o Mythus disse, muitas vezes descobrimos amigos-quse-irmãos em pessoas improváveis pelo simples fato de estarmos longe de casa.
    E é interessante ler o seu post e reconhecer a minha dor num texto escrito do outro lado do oceano.
    Aliás, que vontade de estar do seu lado do oceano. Um dia eu entendo porque o meu trem veio pra Washington, quando eu tinha pedido um bilhete para Paris…Capital errada, seu moço…
    Adorei suas fotos! Vou voltar!

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