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A massa das lágrimas

TomatesÉ meio-dia, temperatura amena, ameaça chover em Turim. Estamos cansados, de pé desde as sete. Uma manhã inteira circulando a passo lento pelo centro antigo, debaixo das intermináveis arcadas que abrigam as calçadas e as mesas dos bares. São célebres, as arcadas de Turim. Honram, com sua beleza, o espírito estético que rende aos italianos sua boa fama. Dizem que Stendhal as detestava, Nietzsche as amava. Sinceramente, estou mais inclinado para a opinião do filósofo.

Com um olho nas antigas fachadas e o outro no céu a se acinzentar, escuto o desafio que minha namorada lança à Itália: “Pago para ver. Nunca vi nada de mais em massa. É só macarrão. O que pode ter de especial em macarrão? Agora que estamos no país da massa, quero tirar a prova dos nove”. É uma alusão à conversa que tivemos na casa de um amigo, na noite anterior à nossa partida. Falando da Itália, a primeira coisa que lhe veio à memória foi uma pasta que provara em um conhecido restaurante de Roma. A mera reminiscência enchia seus olhos de lágrimas. Gaguejava, tentando descrever o sabor e a sensação. Mas era impossível, como ele repetia: “Não consigo descrever, não consigo descrever”. E arrematou: “Só sei que, quando comi, chorei.”

Vinda de alguém que não experimentou a fome, a idéia de chorar por um prato de comida me pareceu insólita. Hoje, posso ver que fui incrédulo como Tomé, ao que ele me respondeu lavando as mãos, como Pilatos. Minha namorada, mais que insólita, achou a idéia ridícula, farsesca, e a atribuiu a um espírito teatral um pouco exacerbado de nosso amigo. Ir às lágrimas por um macarrão, ora, vê se pode.

Mesmo assim, a confissão ficou impregnada em nossa fantasia. Por um lado, motivou o desafio à Itália. Por outro, fez-me pensar em alguns elementos da realidade gastronômica brasileira. O rodízio de carnes, particularmente: picanha na manteiga, maminha, cupim, alcatra. A fartura, o espetáculo de cores, o prato manchado de sangue, a algazarra. Essa saudade, sim, me enche de vontade de chorar.

Mas estamos em Turim, as churrascarias estão longe, a chuva vai tomando corpo e começa a se materializar. Sentindo os primeiros pingos, um grupo de adolescentes lança gritos estridentes em italiano e atravessa a rua saltitando. É inútil recorrer ao guarda-chuva para passear pela cidade. A água, grossa, vem acompanhada de vento forte. A única solução é se enfiar no primeiro restaurante. E temos sorte: logo adiante há um café que propõe um menu completo, com vinho e tudo, por um preço espantosamente acessível.

Entramos, sentamos à mesa, escolhemos o que vamos comer dentre a meia-dúzia de combinações possíveis. Vem o vinho, que não é ruim. Em que pese ser um café de esquina do centro, o lugar é simpático e bem decorado. A expectativa é baixa como o preço. A viagem se anuncia agradável.

Chegam os pratos, fumegantes. A fome não é pouca. Eu pedira penne; ela, nhoque. Ambos acompanhados de aspargos com queijo. Sorrimos e nos desejamos bom apetite. Tomamos os garfos e provamos a comida num movimento simultâneo.

Quero reiterar que estávamos num café simples, no meio do Piemonte, longe dos restaurantes badalados de Milão e Roma. Estávamos em nosso primeiro dia de viagem, numa região que se parece pouquíssimo com as partes mais conhecidas do país. Mas foi ali, naquele canto distante e industrial dessa península desvairada, que entendi como se pode ter vontade de chorar ao provar um prato. Foi naquele instante fortuito, uma meio-dia de chuva súbita, que a Itália venceu o desafio gastronômico imposto pela minha namorada – aliás, uma mulher exigente como poucas.

Não sei explicar o que havia naquele penne. Al dente, a massa estava no ponto mais perfeito possível do cozimento, e até então eu não me dera conta de como pode haver um ponto perfeito para o cozimento da massa. O molho não se parecia com nada que eu tivesse provado. Já sabia que os tomates italianos não têm igual, mas aquele pomodoro e basilico tinha algum ingrediente secreto. Estou certo disso. Quanto ao nhoque, sei apenas que não posso acreditar que a matéria-prima fossem meras batatas. E, não posso esquecê-los, é impossível qualificar os aspargos sem empregar o maior dos lugares-comuns: divinos.

Nesse dia, não cheguei a chorar. Isso só viria a acontecer quase uma semana mais tarde, mas em situação parecida: era um restaurante de beira de estrada, desses que qualquer via esburacada brasileira possui aos montes. Mas não com aquela comida. Fato é que entendi perfeitamente o olhar de meu amigo quando ousei duvidar de seu pranto gastronômico. Em Roma, acabei não indo ao restaurante que ele indicou, mas não foi necessário. Para além do que experimentei em Turim e no meio da estrada, haveria o risco de um enfarte.

Graças a um período em que exerci a feliz função de crítico gastronômico (o período, em si, foi curto e não tão feliz), tive a oportunidade de conhecer as iguarias de alguns dos melhores restaurantes paulistanos. Nunca me passou a idéia de chorar. O que ficará para sempre guardado na minha memória será um humilde café piemontês.

Quanto ao relato do almoço à beira da estrada, esse merece um texto só para si. Foi um dia em que achei que tinha morrido e fazia minha primeira refeição no paraíso.

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12 comentários sobre “A massa das lágrimas

  1. tina oiticica harris disse:

    Acho que posso compreender a emoção de encontrar o “prato perfeito” em uma humilde tratoria à beira da estrada.Nunca cheguei a chorar. Tive alguns momentos de pura alegria ao saborear algumas comidas.inhoque com carne assada é muito legal e difícil de encontrar aqui.Beijos,

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  2. Osimar Medeiros disse:

    Rapaz, nunca eu li um texto tão lírico e onírico sobre…um prato de comida.Meus lamentos geralmente vêm no pós-refeição: aquela dor de barriga absurda, oriunda de uma gula inexplicável. hehe.Abraços.

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  3. maristela bairros disse:

    Olá. Primeiro, quero agradecer sua visita e seu comentário “lá em casa”. E dizer que estou, sem a menor vergonha, viajando, feito erva-daninha, com você. A Itália ainda é um sonho de consumo assumido que não pode ser realidade. Ainda. A França é meu xodó e, apesar da frieza de seus habitantes(generalizo, lógico), será sempre minha referência emocional de viagem.Aguardo, ansiosa, o próximo post.maristela

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  4. Cássia disse:

    Olá. Vim agradecer pela visita ao meu blog. Quero te dar os parabéns pelo blog – fiz uma verdadeira viagem por aqui. Seu modo de descrever as coisas aguçam nossa imaginação.Sucesso. E aproveita a viagem.

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  5. Bruh disse:

    Volto para comentar decenteente a noite. Não estou em casa. Só vim responder ao teu comment lá no Subversiva. Eu também não conseguiria, jamais, condicionar meus horários baseada na tv. Por isso que eu baixo os episódios.

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  6. Gi disse:

    Gostei de sua visita lá no meu blog! Ah, você mora em Paris mas está de passagem em Turim? Já viu aquele filme “Dias de Nietzsche em Turim” do Julio Bressane? Essa sua salada é a cara da Europa, esses tomatinhos.. 😉

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  7. Gi disse:

    Eu amei a Itália. Passei 8 dias aí: 5 em Florença e em Pisa e dois em Veneza. Eu preciso voltar a esse país. Reclamo que só saí do país/Brasil aos 26 anos, mas acho que não sentiria o mesmo prazer antes. Deixa eu ler os seus posts! Blog muito bom é assim; a gente se esbalda. Bjs

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  8. bruno cunha disse:

    Como sempre, eis mais 1 post teu muito bem cozinhado e que me deu uma fome do caraças!Continua com a boa estadia em Itália e sempre com posts muito apetitosos.;)

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  9. MadStore disse:

    Será que essa saborosa overdose de energia calórica é o motivo dos italianos serem emotivos?sei não, acho que “olhar sem comer” seria motivo de choro.

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  10. Petê disse:

    Obrigado pela visita. Nunca fui pra Itália, mas tive a sorte de um italiano cozinhar um carbonara para mim e ficou uma delícia, de emocionar mesmo. Eles sabem dessa e de muitas outras artes, não é mesmo?

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