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Arrancando os cabelos

Arrancar+cabelosAinda não será neste texto que começarei meu relato e minhas considerações sobre a Itália, terra bela e esculhambada como o Brasil, hostil e presunçosa como a França. Acontece que já estou de volta ao cubículo que chamo de lar desde a noite de quinta-feira, apenas para descobrir que não havia internet. O aparelho, que dizem chamar-se “roteador”, pifou. Segundo os técnicos, foi por causa dos temporais. Mentira: a chave geral do apartamento esteve desligada durante a semana inteira.

Ainda assim, espero há quase uma semana pela suprema alegria de me comunicar com o mundo, avisar à família que não estou morto, retomar os contatos que se perderam em junho, entupir os blogs de textos novos. Prometeram para hoje, terça-feira, a substituição do tal “roteador”. Confirmada a visita, tenho que admitir, não vou poder reclamar. Gostaria muito, é claro; pensei em frases excelentes para ironizar a fornecedora do serviço. Mas a verdade é que, em qualquer lugar do mundo, ou pelo menos do mundo latino, pedir um conserto ou exigir um serviço é uma via crúcis. Se algo assim me acontecesse no Brasil, ou pior, na Itália, eu teria de abrir mão de semanas inteiras da minha vida.

Mas a França é diferente. Em que pese uma certa incompetência inerente à alma burocrática deste povo que me cerca, é sempre possível fazer as coisas funcionarem. Qualquer coisa. Basta, para isso, descobrir o método. Ah, eis uma palavra pela qual eles são fascinados. Método! Mas, atenção: não se trata, neste caso, dos métodos ditos “formais”. Como se dirigir a um funcionário, como escrever um artigo, como preencher um requerimento, é bem verdade que tudo isso está intricadamente codificado na França. Mas a paixão pelo método invadiu algumas outras áreas. Que digo? O método, na França, está impregnado em todas as áreas. Basta citar.

Já que é assim, para superar uma etapa burocrática ou constranger uma empresa a consertar um serviço porco que tenham feito, basta conhecer o método. Todas as portas se abrirão. E, já adianto, o método é o seguinte: arrancar os cabelos. Funciona mais ou menos da seguinte maneira:

Primeiro, telefone para a empresa e, com toda a calma do mundo, exponha seu problema. Eles prometerão resolver o problema, invariavelmente, na mais segura das vozes, ainda no mesmo dia. Agradeça. Desligue. Agüente algumas horas, telefone novamente, explique docemente que tudo segue no mesmo pé. Mais uma vez, eles darão garantias de que tudo estará solucionado dentro de algumas horas. Agradeça mais uma vez, repouse o fone no gancho.

Saia de casa, dê uma volta. Se estiver chovendo, e provavelmente estará, tome o caminho de algum museu, vá ao cinema, ao teatro, a um bom restaurante. Aja como se tudo estivesse bem. Finja que não está sendo infernizado por uma grande companhia, dessas listadas em Bolsa, com dezenas de milhares de empregados, para a qual você não passa de uma entrada no banco de dados.

Findo seu passeio, seu ameno passeio, volte para casa. Tome um gole de qualquer coisa, ajeite um pouco a sala, disque novamente. Quando atenderem, aplique a fórmula. Arranque os cabelos. Mostre desespero, forneça um espetáculo emocionante. Cursos de teatro ajudam nessas horas, mas não são necessários. O importante é passar a impressão de ter chegado ao limite. E seu problema será resolvido com presteza exemplar. Eis o método.

Você pode estar a ponto de perguntar: por que, então, não queimar etapas e ir direto ao desespero? Arrancando os cabelos desde a primeira ligação, a solução não se atingiria de imediato? Engano seu, amigo. As empresas registram cada ligação dos clientes. Alguém que se descabele logo ao primeiro contratempo será logo classificado como “desequilibrado”. Em bom português, alguém digno de ser torturado em público, para distração do enfastiado mundo empresarial. Além disso, ao não seguir o método religiosamente, você abre mão de seu maior trunfo. A vitória escapa de suas mãos, ela que esteve tão próxima.

Desenvolvo minha teoria metodológica enquanto espero a vinda dos técnicos. Em outras palavras, nada garante que as novas clareiras que abri no escalpo tenham, efetivamente, servido para alguma coisa. O método está sendo posto à prova no momento mesmo em que o cursor vai caminhando em resposta a minha digitação. Vence em pouco menos de uma hora o prazo que a empresa deu a si mesma. Se este texto não for datado de terça-feira, dia três de julho de 2007, serei forçado a arrancar também o fígado para ter minha internet.

PS: Ufa, meu fígado está a salvo. A internet está funcionando.

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3 comentários sobre “Arrancando os cabelos

  1. Nell disse:

    Tenho que admitir! Esse blog é ótimo. Há algum tempo atrás, cheguei aqui através do google a procura de referências para um trabalho da faculdade. Acabei me interessando pelo conteúdo e hoje os recebo pelo e-mail. Uma palavra: Interessantíssimo. E meu irmão até quis saber do que eu estava dando risada… Parabéns pelo log! Beijos!

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  2. Gi disse:

    Parfait! Mas como você escreve bem! Adorei teu texto. Tua primeira frase ilustra exatamente o que pensei quando cheguei na Itália: achei os italianos grossos numa terra linda e meio desorganizada. Mas foi muito pouco tempo também pra que eu pudesse analisar profundamente.. 😉 Enfim, senti a mesma coisa que você quando estava morando aí (não valendo os 3 meses que fiquei em 2006), e logo no início, descobri um “método” e realmente, “En France la méthode est partout à la fois”, mas não acho os franceses práticos como os americanos ou os canadenses; acho-os cartesianos. Não dá pra gritar e se descabelar nessa situação demonstrada por você, mas se ´nós sabemos que nunca mais vamos cruzar com a pessoa ou se é uma situação de vida ou morte, dá pra quebrar o pau, porque os franceses são assim: eles levantam a voz, mas se você arma o chicote, eles voltam a ficar tininim. Nossa, esse comportamento tem raízes lá trás, né?! Tive reações intuitivas, mas depois fui ver que baseada nos dados históricos é isso mesmo; grande descoberta minha. ;-)) Mas serviu!

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