Uncategorized

Entre Roma e o céu

Ceu+e+coliseuJunho vai chegando ao fim, e quase esqueci que posto em blogs. Melhor dizendo, quase esqueci até que existo. Este 2007 tem sido o ano mais curto de minha vida. Ainda ontem, era janeiro. Agora, já passou a noite de São João. Nestas terras setentrionais, o calor está no ápice e os dias começam, lentamente, a encurtar. A primavera passou, mal a vi. Onde estive todo esse tempo?

Ainda assim, curiosamente, no meio desse ano enlouquecido, houve junho. Ainda não terminou, mas foi um dos meses mais carregados que já vivi. Respirei apenas no intervalo entre exames e viagens. Quando terminei a última prova, cheguei a provar uma breve sensação de vazio. Mas ela nem pôde se estabelecer. Graças a uma promoção fantástica da superintendência francesa de trens, mal depus a caneta, alcei a mochila, agarrei a patroa pela mão e partimos para o sul.

Não estou reclamando. Aliás, bem ao contrário. A verdade é que a passagem do tempo me angustia. Nesta nossa vida, que é o que de mais exótico há no mundo, temos sempre muito a realizar: cumprir, criar, descobrir. Nessa constante tragédia em potencial, cada grão que vence o gargalo da ampulheta simboliza a limitação de nossa carne. Mas nosso espírito, em sua paixão pelo infinito e pelo absoluto, recusa-se a admitir a impotência. Quanto maior a paixão que temos pela vida, mais exigente, angustiante e terrível ela pode se revelar.

É por isso que um mês como este junho, em que cada dia tem a carga de acontecimentos que melhor caberia a uma semana, merece ser festejado. Recebo-o como uma bênção, incrustado em um ano desabalado como o atual. Uma bênção com gran finale: escrevo tendo como testemunha a lua crescente dos arrabaldes de Roma. Trata-se do mesmo disco prateado que testemunhou a violação de Lucrécia e o suicídio de Sêneca. Bem se vê como, monótona em sua órbita, essa lua serve de testemunha para qualquer acontecimento, do grotesco ao grandioso, do histórico ao medíocre.

Páginas muito mais graves já se escreveram entre o satélite e este pedaço de chão. Está certo. Mas quem o pisa agora são meus pés. Este instante, em junho de 2007, é vulgar em comparação aos demais que o nome de Roma evoca nas imaginações sensíveis, mas saiba a lua que, para mim, é um triunfo magnífico. Pela primeira vez em muitos dias, tenho acesso a um computador com internet e blog. Finalmente, tenho tempo e disposição física para escrever e postar um texto, mesmo que só para ressuscitar meus pobres sites.

Os blogs, abandonados, vinham pedindo atualização. E tenho muito a atualizar. Em pouco mais de uma semana, estive envolvido pelas atmosferas de Turim, Gênova, La Spezia, Monterosso e as demais Cinque Terre, Pisa, Florença, Chiusi, Chianciano Terme, Pienza, Montepulciano, Siena, San Gimignano. Respirei todos esses ares, provei suas culinárias, admirei os traçados de suas ruas. E enfim, Roma. A cidade eterna, para a qual todos os caminhos trazem. Desde sempre, sonhei com esse nome. Eis-me. Sapatos rasgados, fronte crespada, bolsos vazios. Mas, repito: eis-me.

Volto a Paris no meio da semana. A partir de lá, pretendo relatar em ambos os blogs, com abordagens diferentes (como combinado), minhas impressões e os pensamentos que este fascinante, caótico e belíssimo país me causou. Enquanto isso, se meu Viaggio in Italia não saiu do forno, recomendo um produto de qualidade muito superior: o de Roberto Rossellini.

Ciao, amici!

Anúncios
Padrão

6 comentários sobre “Entre Roma e o céu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s