Uncategorized

“Você pula, eu pulo”

Janela
Está em todos os jornais. Poderia figurar na coluna de faits divers, mas aparece, não à toa, logo na primeira página. Por telefone, duas amigas combinam: “você pula, eu pulo” – e, sem delongas, atiram-se pela janela. Mas não morrem. Com ferimentos graves, segundo as notícias, são levadas ao hospital. Aconteceu em Ajaccio, na Córsega, uma ilha do Mediterrâneo.

As duas meninas que se defenestraram são colegas de escola e moram a poucas ruas de distância uma da outra. Tendo lido a notícia, não pude tirá-la da cabeça. Lembrei-me imediatamente de Nelson Rodrigues, com sua fixação pelos pactos de morte. Como um, de 1919, que cita repetidamente. Um rapaz e uma moça, proibidos de se casar, resolvem morrer nos braços um do outro, selando com goladas de veneno sua união condenada.

Nelson falava com um entusiasmo reverente desses extremos da paixão. Românticos, verdadeiros, heróicos e, portanto, trágicos. Não posso deixar de concluir, lendo a notícia, que as duas garotas corsas nada mais fizeram do que um pacto de morte. Em versão moderna, é bem verdade. Todos os detalhes dramáticos e românticos da versão rodriguiana estão inteiramente excluídos. Os jornais não informam nem ao menos se as meninas estavam apaixonadas, ou se formavam um casal – o que, para Nelson, seria um tempero formidável -, nem se esse presumido amor tinha sido bloqueado por pais rigorosos ou escorraçados por colegas de uma escola repressiva.

A bem da verdade, pouco importa. Pelo que está escrito, poderiam ser duas quase desconhecidas. “Você pula, eu pulo”, segundo o relato de vizinhas. Cada uma em sua casa, sem juras de amor, sem desespero, sem um traço de situação trágica ou terror diante do desconhecido. Combinada a ação, ambas cumpriram o determinado. Nenhuma delas mudou de idéia em cima da hora, desistiu, hesitou. Não queriam fazer drama, nem chamar atenção. É a morte desprovida de toda sacralidade, de todo mistério. É a morte sem significado ou valor.

Mas então a vida é igualmente casual? Viver, um acaso. Morrer, nada especial. As duas meninas combinaram seu salto como se fosse uma ida ao clube ou às compras. Escolher a forma de morrer foi como decidir o modelo de um novo vestido. O suicídio, executado com frieza e planejado com uma leviandade sem precedentes, não deve ter causado um frio nas duas espinhas maior do que o entusiasmo de adquirir um celular mais moderno e vistoso.

Mesmo assim, para todos os efeitos, elas estão com toda razão. A vida uma vez pautada na ausência radical de transcendência, uma vez transferidas a vontade e as pulsões unicamente para a satisfação de pequenos caprichos e desejos, por que dar à morte uma dimensão maior? Por que tomá-la por algo mais profundo ou solene do que a própria vida, se estão estreitamente ligadas? Nada nos impede de considerar a atitude das meninas, por insólita que seja, perfeitamente racional. O que é, afinal, o nosso medo da morte, uma vez que deixe de ser radicalmente diferente do medo de uma injeção ou de uma barata na cozinha?

A rigor, podem ser apenas instintos, ou pior, hormônios, que se materializam na figura de uma angústia que fazemos desaguar em religiões, metafísicas e, talvez principalmente, arte. Mas se concentramos toda nossa fé, nossa especulação e nossa estética em algo tão frígido como o acúmulo de aparelhos coloridos, que diferença faz morrer hoje ou daqui a décadas? Pensando bem, não faz diferença nenhuma.

Essas meninas encarnam um certo mundo, o nosso, em que se abdicou de toda formulação global, por que não dizer teleológica, para a vida; mas não é só isso. Abdicou-se, também, de todo ceticismo, que, embora negativo, pressupõe um interesse, um questionamento, uma tomada de posição perante a existência. Que significa a existência para as duas garotas? Nada, e se alguém lhes perguntasse, elas certamente dariam de ombros, que é justamente a reação de tanta gente.

Germain, meu amigo de que falei no último texto, vez por outra convoca uma teoria sua, normalmente entre risadas. Para ele, se o ser humano pudesse abertamente decidir pela própria morte a qualquer instante, o capitalismo acabaria imediatamente. O raciocínio é simples: o patrão explora o trabalhador porque esse último não tem opção, é obrigado a aceitar qualquer proposta, mesmo a mais indigna. Se ele pudesse preferir a morte e levá-la verdadeiramente a cabo, o patrão seria obrigado a agradá-lo e o sistema não resistiria.

Mas desta vez eu me permito discordar de meu amigo. O sistema de que ele fala é coisa do passado; fundamentava-se na produção, no enriquecimento, nas grandes descobertas e evoluções, nos monumentos fantásticos e verticais, cujo símbolo maior talvez seja a Torre Eiffel (assunto para uma postagem que já está no forno). Mas a morte já se tornou um bem comerciável, até ela. Tanto quanto uma saca de café, um barril de petróleo, o sexo seguro ou a água limpa. Só que, por enquanto, é muito mais barato. Uma ligação e o custo de oportunidade de caminhar até a janela.

Um excelente filão, com certeza. Já Nelson Rodrigues, com sua fixação pelos pactos de morte, não teria muito interesse em escrever a respeito.

Anúncios
Padrão

8 comentários sobre ““Você pula, eu pulo”

  1. O natural de Barrô disse:

    Concordo com a sua reflexão sobre a morte.Eu hoje,também, fui confrontado com o tema.O jornal, trazia a noticia de um rapaz, de 25 anos, que saltou de um viaduto, para ser atropelado por um carro.

    Curtir

  2. Mariana disse:

    Bela reflexão! Mas a dessacralização da morte já é mesmo um fato. Basta olhar as taxas de homicídio das cidades brasileiras e os casos de matança em escolas/universidades norte-americanas. Isso sem falar nas guerras intermináveis pelo Oriente Médio a fora…

    Curtir

  3. Anita disse:

    Diz que nao é triste, que ao invés de tentar meter essa molecada em algum projeto que tenha algum sentido, a educaçao regente nos países desenvolvidos permita que o tédio esteja tao presente? e dá-lhe playstation, masturbaçao mental em chats de Internet, reality shows que perpetuem um olhar pro umbigo tao míope que a alternativa é destruír o umbigo? O povo é gado, é inevitável? Beijos!!!

    Curtir

  4. Eu acho que é falta do que fazer.

    Bota essas meninas pra carpir na roça e vê se sobra tempo de ficar pulando de janelas baixas o suficientes para só se machucarem…

    Curtir

  5. Eu adoro Nelson Rodrigues. E adoro a vida real, que alimenta a literatura com fatos bizarros como essa notícia que gerou seu post. Mas, o que mais gostei, lingüisticamente falando, foi do “defenestrar”…rs

    O ser humano tem cada atitude doida, que nem analisando a gente entende…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s