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O acordeon dos Cárpatos

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Pode ter sido culpa minha, distraído que sou. Mas ele não deve ser muito melhor do que eu. Artista, ora. Eu estava concentrado na revisão de algumas anotações em meu caderno; ele, em encaixar o fecho de seu acordeon. Eu me encaminhava para subir no vagão, e ele para descer, ambos de cabeça baixa e pensamento distante. O resultado não poderia ser outro. Um choque, fomos ambos ao chão, e antes que nos recompuséssemos, o condutor ordenou o fechamento das portas e partiu.

Estávamos ambos envergonhados, pedíamos desculpas um ao outro. Minha caneta foi parar nos trilhos, nem pensei em buscá-la. Na queda, o fecho mal encaixado do acordeon se abriu, produzindo o som característico de uma sanfona sem comando. E do bolso daquele homem de faces arredondadas e bigodes bastos caiu uma quantidade indigitada de moedas, que se espalharam pela plataforma escandalosamente.

Por sorte, havia pouca gente na estação. Em outras palavras, ninguém desesperado por um trocado caído dos céus. Coloquei-me de joelhos e ajudei o homem a recolher suas moedas. Ele me agradecia, mas sem cessar sua seqüência de pedidos de desculpa. Estava afogueado, rubro. Devia ter mais de sessenta anos e pouco hábito de dobrar o corpo. A quantidade de moedas chamou minha atenção. Certamente, o valor acumulado não era desprezível. Parecia, como se diz, que ele tinha assaltado a sacola de oferendas de uma igreja. Quando lhe estendi minha parte do bolo e ele o enfiou no bolso interno da jaqueta, o tilintar foi grave e sumário. Ele, ainda afogueado, agradeceu com uma espécie de reverência e pediu desculpas, mais uma vez, pelo incidente.

Para esperar pelo próximo trem, que só passaria dali a três minutos, ele se sentou no banco mais próximo. Era um desses músicos que ganham a vida tocando no metrô. Mas eu jamais pudera imaginar que os rendimentos fossem tão altos. Enquanto ele, cansado, ofegante, inclinava a cabeça sobre o peito, perguntei-lhe se as contribuições dos passageiros valiam a pena de subir e descer dos vagões a cada estação. Com uma humildade que me pareceu ligeiramente estudada, ele respondeu que, às vezes, valia mais; às vezes, menos.

“Hoje, parece que valeu mais”, observei. “É, está sendo um bom dia”. E sorriu. Era evidente seu esforço para ser modesto. “Gosta de música?” Respondi que sim, gosto muito, e ainda arrisco alguns chorinhos no violão. Confessei que tinha uma certa vontade de fazer como ele, circular pelo metrô tocando Pixinguinha e Paulinho da Viola para fazer um trocado. Contei-lhe que sou brasileiro, e ele sorriu. Gosta de futebol, conhece Ronaldo e algum outro jogador, desses que saem jovens do Brasil e ninguém conhece. Perguntei-lhe sobre sua origem – estava claro que não era francês. “Sou ruteno.” E apressou-se em explicar. “Dos Cárpatos. Conhece os Cárpatos?”

Só de nome. Uma dessas cadeias montanhosas do leste europeu, de que só ouvimos falar em livros antigos. Desenhando um mapa imaginário suspenso no ar, ele localizou as montanhas: “Polônia, Eslováquia, Ucrânia, Romênia… conhece esses países?” “Só de nome”, confessei, sorrindo levemente, encabulado.

Com um misto de orgulho e nostalgia, ele me contou que tocava a música de sua região, onde fora criado a subir e descer escarpas, fugindo das obrigações escolares para ir de aldeia em aldeia, onde visitava os músicos mais velhos. Com eles, aprendera melodias inventadas por povos já extintos, atropelados pelas invasões e conquistas que os séculos impuseram àquelas terras. “É um patrimônio valiosíssimo. O que guardo gravado nos dedos não tem preço”, sentenciou, solene, cravando os olhos nas palmas das mãos.

Havia alguma tristeza no fundo de sua voz. Quis lhe perguntar o que era, mas não foi necessário. “Meu povo”, explicou, “parece condenado à escravidão. Estivemos submetidos à Áustria, à Hungria, à Alemanha, à Polônia, à Rússia. Mesmo hoje, não somos independentes. Nossas terras estão divididas entre vários países. Somos considerados inferiores por todos. Escravos, indignos. É como se nem existíssemos.”

Aos poucos, começou a contar mais sobre sua vida. Fugira das montanhas de seu povo com mulher e três filhos, vinte anos atrás, quando um período particularmente frio causou uma série de nevascas que devastaram seu povoado. As autoridades soviéticas, então controladoras do território, viraram as costas para aquela gente desprezível. A chegada à França não foi mais fácil. Sem documentos, sem dinheiro, sem conhecer nenhuma língua que não fosse a própria. O contato com os irmãos, espalhados pela Europa, até pelo mundo, se perdera por inteiro. Os pais morreram pouco mais tarde, atingidos por outro ano de terríveis nevascas, e mais uma negligência talvez proposital do governo – dessa vez, de uma das novas repúblicas que se formaram com a queda da Cortina de Ferro.

“Hoje, meus filhos são grandes”, contou, tentando sorrir. “Estudaram na universidade. Trabalham. Falam francês e inglês, mas mal conhecem minha língua. A única ligação que me restou com meu povo são essas músicas que toco no metrô. Quando venho, toda manhã, tocar para os passageiros, é claro que faço isso pelo dinheiro. Mas não é só isso. Entende? Estou espalhando um pouco do meu sangue pelo mundo.”

Voltou a fazer silêncio. O placar começou a piscar, avisando que o próximo trem chegaria em mais alguns segundos. Embarcaríamos juntos, eu teria a oportunidade de escutar as melodias de seus ancestrais. Enquanto isso, apenas o encarava, observando os cabelos grisalhos, a pele grossa e enrugada, mas saudável, os sapatos negros que pediam por um engraxate. O acordeon parecia tão velho quanto o homem. Pus-me a especular se não teria vindo com ele quando emigrou. Meus pensamentos foram interrompidos.

“Você perguntou se minha música rende bem no metrô. Escute, essas melodias não são apenas antigas. Acredite em mim, elas são mágicas.” Dizendo isso, pôs-se de pé e me encarou. Sério, mas sereno e amistoso. Com um gesto brusco da cabeça, indicou que o trem se aproximava. “Vamos embarcar.”

Segui-o até a beirada da plataforma. Pouco abaixo, adiante de nossos pés, minha caneta e algumas de suas moedas, brilhando como símbolos de nosso esbarrão. Ele vestia uma jaqueta verde, de inspiração militar, puída nos ombros. E, como não poucas pessoas em Paris, exalava um odor indisfarçável de falta de banho.

O trem chegou, alguns passageiros de olhar duro desceram, atravessaram nossa vista e partiram em passo apertado. Entramos quando já soava o sinal de fechamento das portas. O vagão não estava lotado, mas havia poucos assentos livres e algumas pessoas de pé. Com um gesto da mão, o músico pediu que me sentasse. Obedeci, sem tirar os olhos do acordeon. Calmamente, enquanto o trem se punha em marcha, ele o desatou, saudou o público e, dos dedos grossos, mas ágeis, emitiu as primeiras notas.

Não foram necessários mais do que quatro ou cinco compassos para que eu sentisse todo meu corpo começando a tremer. Como classificar aquelas cadências, a melodia, as modulações? Não sou capaz. Mais forte do que a algazarra da marcha no túnel, a celebração musical daquele instrumento, daquela pessoa, vibrava pelo ar pesado do vagão e não deixava incólume a alma encaixotada de nenhum passageiro. Todos se deixavam dominar, cândidos. Tinham os olhos vidrados no sacerdote dos Cárpatos.

Estranhamente, a música não parecia sair daqueles dedos. Era como se brotasse do chão, dos assentos, das alças em que os viajantes se seguravam. Em alguns olhos, já podia flagrar as lágrimas que brotavam. Não demoraria
a acontecer comigo, também; meu corpo amolecia, acompanhando os movimentos espectrais das notas. Não havia um instante sequer de repouso na intempérie dos acordes. Em poucos segundos, entre uma estação e outra, acompanhei o mundo que se desmanchava como um líquido e se reconstruía, inteiramente diferente, mais belo e místico, por um golpe de mágica.

Subitamente, fez silêncio. Tive a impressão de que tudo escurecera, mas era só o silêncio. Ninguém falava, ninguém esboçava um movimento. Estariam enfeitiçados? Mesmo o barulho do trem parecia menos violento, quase harmonioso. O músico caminhava lentamente pelo corredor, recolhendo as contribuições. Pela primeira vez em minha vida, vi que todos os passageiros davam algo, moedas de bom valor, até cédulas. O bolso da jaqueta engordaria ainda mais.

Ele se aproximou de mim, olhos apertados, sorriso largo. Piscou. Sem planejar, sem controle sobre meus próprios movimentos, levei a mão ao bolso. Já ia puxar a carteira, quando um gesto seu me interrompeu. Eu queria lhe dizer que jamais ouvira aquilo antes. Que gostaria de ouvir mais. Que aquela música mudara minha vida. Não saiu nada. Talvez ele tivesse monopolizado o direito ao som.

O trem parou, a porta se abriu. Eu ainda queria falar, mas não conseguia. Muitas pessoas entraram, poucas saíram. O músico ruteno, ainda sorrindo, fez novamente uma ligeira reverência em minha direção, a que respondi erguendo a mão espalmada, provavelmente boquiaberto. Com isso, ele virou as costas e partiu. Entraria no vagão seguinte, poucos metros adiante, para enfeitiçar outra platéia e engordar o bolso da jaqueta.

Logo que ele sumiu de minha vista, o aviso sonoro soou, a porta voltou a ser fechada, o trem partiu. Os passageiros retomaram suas conversas, seus olhares baixos, suas vidas. A algazarra ganhou de volta sua violência implacável assim que se dissipou a vibração da melodia eslava. Nesse instante, lembrei-me de que aquele atraso de três minutos era suficiente para me causar problemas com meu compromisso.

Comecei a formular explicações e desculpas, afastei da mente a melodia dos Cárpatos, aquela cadeia montanhosa do outro lado do continente, de que só se ouve falar nos livros antigos. A poucos metros de distância, no vagão seguinte, divisei com dificuldade o som de um acordeon que começava a soar. Não tive dúvidas. Eram as notas daquela música enfeitiçada, que já penetrava em outras almas. Fechei os olhos, fiz esforço para escutar, e não pensei em mais nada.

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13 comentários sobre “O acordeon dos Cárpatos

  1. Maria J. disse:

    Muito lindo como você escreve. Nunca tinha ouvido falar desse lugar… Procure esse homem, tire um dia para segui-lo por onde ele for no metrô, aprenda sobre a sua música, beba mais dessa fonte rica de mistério.

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  2. Mário Marinato disse:

    Clap, clap, clap, Paulo. Muito bom. Há tempos eu não lia uma crônica tão bonita, tão tocante. Vou guardar pra mim e ainda vou citar no meu site.Parabéns. Excelente.

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  3. teresamaremar disse:

    Vim espreitar este espaço, depois da imagem “de la pipe” [qui n’est pas une pipe :)] que vi junto ao comentário deixado em A Biblioteca de Jacinto.Magritte é uma paixão, se quiser espreitar, há Magritte no meu ArtesDuas.blogspot.comParabéns pelo texto deste post. Muito bonito mesmo!

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  4. Flávio disse:

    Venho pensando há algum tempo o que tem feito tão bem para esta criança recém-chegada aos números inteiros e que praticamente vi nascer: seriam os ares europeus, o uso sistemático da cadernetinha pelo autor ou algum outro motivo esdrúxulo? Mas não importa a razão, interessa apenas que os textos ficam cada vez mais deliciosos e imperdíveis, como este. Parabéns! Cuidado somente com as mordidas da criança, que agora já tem dentes!

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  5. Anonymous disse:

    Flávio, concordo plenamente contigo e tenho até algumas hipóteses para sua pergunta… O fato é que o bicho cresceu e tá tomando espaço. E que venha mais!!!!

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  6. Micas disse:

    Excelente crónica, quase me senti nesse trem ouvindo essa melodia magica dos Carpatos.Gostei imenso do que li aqui e vou voltar com toda a certeza.

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  7. Wagner disse:

    Bem sei o que você fala, sobre a “mágica” da música. Aconteceu comigo também, no mesmo metrô, na mesma Paris, mas em 1995. Foi um curto momento: quando entrei no vagão l’accordéoniste já tocava. Pouco depois partiu. Mas até hoje, após tanto tempo, ainda me lembro perfeitamente da melodia: ficou para sempre gravada em meu cérebro, e em meu coração. Teria sido o mesmo músico? Quem sabe?Abraço!

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  8. Não, não me lembro de ter lido outro post mais lindo e emocionante do que este aqui. O pai do meu marido veio da Romênia. Seu nome era Wilhelm (ele já morreu). Era um senhor muito fechado e sério e que me chamava de “senhora”, imagine só. Eu, que não passava de uma menina perto dele. Foi jóquei, sempre dava alguma “barbada” pra gente apostar, nas duas ou três vezes em que fui ao hipódromo com o meu marido. Mas dizem que os ciganos também vêm da Romênia e eu tenho medo das ciganas. Uma vez, uma delas conseguiu que eu desse minha única nota de 50 reais p/ ela, na praia, em Santos. Eu tenho certeza que eles hipnotizam a gente. E o pior: a gente gosta!

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