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Ode a um copo

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A mesa de ferro, quadrada, enferrujada, bamba, tampo gravado com alguma marca de cerveja. A garrafa de 600 ml, sempre o mesmo modelo. A loura espumante, brilhosa, para a qual só há uma exigência: que esteja gelada. Amarrando o pacote, um detalhe, um pequeno objeto que poderia passar despercebido, mas não passa. Um elemento imprescindível, quase nunca mencionado, encontrável em qualquer bazar de esquina por um punhado de centavos.
Esse objeto, e quem é familiar ao ambiente que descrevi já o identificou com certeza, é talvez o que me dá mais saudades do Brasil. Confesso que tinha me esquecido de sua existência, mas vi-o em cena, mero figurante, em diversos longa-metragens, documentais ou de ficção, que acompanhei nas últimas semanas no Festival de Cinema Brasileiro de Paris (9a edição). Não pude resistir à nostalgia. Sou obrigado a admitir a falta que ele me faz, esse mais que singelo copo americano.
Nunca soube por que esse simples copinho, tão brasileiro, é chamado de americano. Talvez seja uma estratégia de marketing. Pois é, nome chique, vem dos States. Se for, funcionou. Boteco algum pode dispensar o copo dos ianques. Só os bares mais pretensiosos oferecem calderetas, tulipas e, supra-sumo da elegância germanófila, canecões. O pé-sujo, único estabelecimento em que se pode beber pelo simples prazer de engolir a divina geladinha, já está dominado.
Minha iniciação ao copo americano se deu pelo final da adolescência, quando conquistei, não sem alguns traumas familiares, o direito de ficar na rua madrugada adentro, entregue aos riscos da cidade, sem a supervisão castradora de algum parente. É bem verdade que os adultos que me acompanhavam até então não faziam grande questão de limar meus movimentos. Mas era incômodo de todo jeito, que se há de fazer? Poder tomar um coletivo e desembarcar no coração dos bairros boêmios dá ao garoto a sensação de que seus anos de submissão vão ficando para trás. Ilusão, concordo, mas o curto período antes dos tormentos da vida adulta são os melhores de qualquer existência.
Quando travei conhecimento com Vila Madalena e Consolação, Lapa e Humaitá, encantei-me mais pelas cadeiras na calçada do que pelas filas nas boates. Muito, muito mais. Chamar atenção pelos discursos anti-governistas (estou falando dos anos 90), logo percebi, trazia mais resultado do que usar camisas chamativas ou passar gel no cabelo. Principalmente, se faltava a música massacrante dos clubes noturnos, sempre aparecia alguém com uma caixa de fósforos e outros instrumentos musicais. Fingíamos saber cantar, entoávamos os sambas consagrados, até acreditar que éramos nascidos no Estácio ou em Oswaldo Cruz. Nós, que nunca fomos senão burgueses metidos a boêmios.
Para mim, era mais do que suficiente. Fiz grandes amizades, conheci moças adoráveis, gente que pensava como eu e vinha das mesmas origens. Confesso que tive, nessas madrugadas, minha única participação na roubalheira nacional. Bom, talvez não a única. Uma das poucas, melhor dizendo.
Afetado por efluências etílicas, deslizei para dentro do bolso alguns copos desse meu modelo preferido, inconsciente do ato pecaminoso que cometia. Não nos esqueçamos que a cerveja tem 4% de álcool, ora. Causei ao proprietário do boteco, até hoje minha única vítima, um prejuízo de, somando, pouco mais de um real. Peço desculpas com quase uma década de atraso, tomado de um remorso alegre e nostálgico. Quanto aos copos, estão até hoje na casa de minha mãe, para quem precisei inventar uma fábula absurda, quando ela perguntou de onde tinham saído aqueles copos com jeito de pobre. Um bar, prestes a fechar definitivamente as portas, distribuía seus copos entre a clientela. A mim teriam cabido os miseráveis copinhos.
Numa cena do documentário que comentei no último post, Aldir Blanc (esse aí será homenageado em breve neste blog) e João Bosco cantam “O Bêbado e a Equilibrista” em algum boteco tijucano. A platéia chorava, lembrando-se dos exilados. Mas desconfio que grande parte também foi atingida pela saudade dessa nossa maneira toda especial de passar uma tarde, de tomar uma cerveja, de papear com os amigos, fazer música, recordar as desgraças e esperanças que se cristalizaram no passado. O fermento espesso desta terra de vinhos não nos assenta bem no estômago. O sorriso contido, muito menos, e temos uma certa dificuldade em tirar prazer das conversas afogadas em convenções.
Agora, se me permitem uma verdadeira blasfêmia, vou compartilhar o veredicto a que cheguei. Com toda sinceridade, acredito que tudo na vida que os bares e cafés de Montmartre e do Quartier Latin gostariam de ser, mas não poderão jamais, é um pé-sujo como aqueles que eu adorava freqüentar.
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17 comentários sobre “Ode a um copo

  1. Madalena Barranco disse:

    Olá Diego, hehehe, quando pensei que o protagonista era a cerveja, veio um copo para tomar-lhe o lugar! Nossa, o “copo americano” é uma tradição brasileira e eu não o dispenso em casa. Beijos e muito obrigada pela sua visita ao meu blog Morango, mais precisamente às cenouras poéticas.

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  2. Carol Montone disse:

    Não conheço a França ainda….como boa sagitariana e contraditória gosto de tanto de copo americano quanto taça de cristal, depende do céu do dia…obrigada pela visita e se puder volte sempre…seu blog é show….beijoCarol Montone

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  3. Menina_marota disse:

    Excelente texto… recordando-me belas tarde, passadas com amigos numa esplanada à beira mar, em dia de calor intenso, bebendo uma cerveja gelada (eu gosto especialmente de cerveja preta…)Um abraço 😉

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  4. Silvia disse:

    A felicidade sempre está onde a pomos, mas nunca a pomos onde nós estamos. Dúzias de copos americanos temos por aqui, mas eu bem que preferia Paris…. pois é. Obrigada pela visita no Efeito Pimenta. Como foi q vc me achou??

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  5. tertu disse:

    cara,grato pela passagem no blog.pelo que entendi,vc está em paris?!conhece o “la vie est belle”?da teresa abreu?onde vc escreve além do blog?voltarei aqui com mais calma.paz e luz!tertu

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  6. Ben disse:

    Cara!Valeu o comentário no meu blog!Já te linkei viu?Concordo com vc:tb prefiro QUALQUER pé-sujo do BRASIL!!!E estou voltando para o RJ HOJE!Tô muito feliz cara!Volto aqui breve!AbraçãoBen

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  7. Juli Mariano disse:

    oi Diego, vi seu comentário no meu blog…poxa, saudades de ouvir Bossa Nova por aí? Tenho muitos planos de cantar minha bossa em Paris, quem sabe né? Beijo-brazuca!

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  8. Geórgia disse:

    Olá!Fui e voltei sem o seu autógrafo… Pode culpar a falta de cybercafés por aí. No último dia, achei um. Fechado. Como não tinha levado o número do seu telefone, fiquei na expectativa de entrar no blog e pedir um sinal de fumaça. De qualquer maneira, me exercitei procurando um blogueiro brasileiro na multidão. Com um francês macarrônico e poucas pistas sobre você, acabei não abordando ninguém. Pena.Abraço,GeórgiaA prropô: não fui eu que empurrei a Segolène.

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  9. menasunhine disse:

    Primeiro que tudo parabéns pelo teu blog, gostei de te ler, tens uma visão muito clara da realidade, belas fotos também.Mas, diz-me, gosta assim tanto de chocolates ?? que “enquanto isso vais comendo chocolates”Ironia??

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  10. Lys disse:

    Diego, belo texto – ainda que eu não compartilhe do seu amor pelo copo americano; ao contrário, lhe tenho um horror “frescuróide”.Fico pirada com textos bem escritos (entenda-se “com conteúdo e sem desrespeito à língua-mãe”). Voltarei.

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  11. Mário Camera disse:

    O copo americano faz, junto com a garrafa de 600ml e com a “camisinha”, a santíssima trindade dos botecos que se prezam. Aqui em casa eu tenho o bendito copo, mas me faltam a garrafa marrom e o isopor. E a França ainda se diz primeiro mundo!!

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  12. Luana Tenorio disse:

    Oi Bom dia!!!
    Nossa pelo amor de Deus eu preciso saber ao certo o pq o copo americano tem esse nome, se souberem de algo por favor me retornen.
    Ficarei muito grata.

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