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Seção pipoca no escuro: Espelhos do que não somos

Bet+henf+cm

Um festival de documentários. Todos brasileiros, mas o cinema, a sala de projeção, é em solo estrangeiro. A platéia dividida entre os locais e os nossos, esses últimos ávidos para ver o que se anda fazendo na terra. É a oportunidade perfeita para se deixar abalar.
Eu tinha ouvido muito pouco sobre “Três irmãos de sangue”. A história dos irmãos Souza não dá abertura a nenhuma resistência. A trajetória épica e, ao final, trágica desses três homens brilhantes, sorridentes e de sangue frágil, quebra nossas barreiras emocionais. Todas elas. Henfil, cartunista. Betinho, sociólogo. Chico Mário, músico. Mineiros, geniais, hemofílicos. Vítimas, todos eles, da Aids. Quando as luzes se acenderam, espocavam na sala os soluços e fungadas. Rostos inchados e vermelhos tentavam disfarçar a fraqueza. Entre eles, o meu.
Os brasileiros são, talvez, maioria na platéia. Do lado de fora, no bar, esperando pela sessão, o riso solto, os tapinhas nas costas, tudo nos denuncia. É gente que está fora do país, alguns há décadas, outros há meses. Nenhum conseguiu, se é que tentou, vestir a máscara do novo país. Todos têm prazer em morar numa cidade como Paris, mas sofrem, talvez gratuitamente, talvez até inexplicavelmente, de uma saudade enorme das nossas coisinhas, das nossas pequenas delícias. Essas coisas que só a gente sabe.
Cada um tem uma relação toda particular com seu país. Os mais antigos, em geral, se gabam de pertencer a um outro tempo, ao “país do futuro”, quando essas palavras exprimiam uma esperança e uma previsão, não uma ironia desiludida. Do fundo desse orgulho, vê-se aflorar a perplexidade diante de tudo que deu errado. Balançam a cabeça, perguntam “como é que pode”, mostram-se estupefatos com o que têm lido nos jornais. Tentam manter longe da consciência a histeria coletiva do brasileiro, célebre, capaz de repetidamente abortar nossos lampejos de desenvolvimento. Envergonham-se, preferem não se envolver. E já ouço gente dizendo: como nós…
Muitas dessas pessoas deixaram o país “num rabo de foguete”, debaixo dos cascudos da Ditadura, como Betinho, “o irmão do Henfil”. Mas, ao contrário do nosso ativista-maior, não voltaram. Outros saíram mais tarde, por falta de estrutura profissional. Um, físico nuclear nascido em João Pessoa, vive no exterior porque sabe que, se ficasse, teria que se contentar em dar aulas em cursinho. Há também os que queriam apenas subir na vida. Conseguiram, ou não, mas continuam aqui. Finalmente, tem aqueles que não agüentaram nossa loucura, a tensão constante, o quotidiano sitiado, alimentado por nossas pequenas desonestidades levianas.
Esses estão fora há menos tempo. Sua reação a filmes como “Três irmãos de sangue” e “Vinícius” é inteiramente diversa. Os antigos sentem saudade. Os novos, raiva, inveja e uma certa incredulidade. Quando vêem o Rio de Janeiro glamouroso e reluzente, Cidade Maravilhosa de Vinícius de Moraes, têm dificuldade em associá-lo ao “purgatório da beleza e do caos”. Ao mesmo tempo, não compreendem como se pôde passar de um estado a outro tão rapidamente, nem por que seus pais e avós viveram no país da esperança e do futuro, mas deixaram como herança um espelho estilhaçado de seu mundo.
É angústia, o que lhes dá.
Da mesma maneira, acompanhando na tela a luta sublime de Betinho, Henfil e Chico Mário, não faz sentido como, restabelecida uma certa democracia, só floresçam no Brasil os aproveitadores, os pusilânimes, os espertos. Perdemos a esperança no país? Sim, admitimos sem rodeios. Nas ruas, nas conversas, nos bares, todos repetimos o desencanto com a sociedade, a política, o futuro. Cada um tenta salvar o que lhe resta, como sob uma enxurrada que ameaça carregar nossos móveis. A imprensa se contenta em acompanhar à distância o desmoronamento paulatino da nossa estrutura nacional. E relatar com frieza. Um pouco de exaltação só aparece em alguns comentaristas políticos, mas é artificial, inócuo e, a bem dizer, ridículo. São tão aproveitadores quanto aqueles que denunciam. Filmes como “Três irmãos de sangue” escancaram diante de nosso rosto como nos entregamos ao vire-se-quem-puder. Fica claro como desistimos de ser um país.
É por isso que nenhum brasileiro da platéia foi capaz de resistir à fita. A estranha verdade é que nós amamos nosso país. Mesmo que escarremos em sua imagem. Nós o amamos, ainda que tenhamos desistido inteiramente dele. Nós o amamos, e reconhecemos que a culpa de seu desmoronamento é nossa, demasiado nossa. No fundo, sabemos que não adianta sermos depositários de uma das culturas mais adoráveis e fascinantes da Terra, se a cada dia contribuímos para sufocá-la. Todo brasileiro é apaixonado pelo Brasil, ainda que seja necessário atravessar oceanos para chegar a essa descoberta. Cada brasileiro, nessa situação, é seu próprio Cabral.
Os rostos inchados e afogueados, que citei no início do texto, escondiam-se atrás das poltronas não apenas porque envergonhados de se terem entregue às lágrimas. Foi também de se perceberem pequenos, diante daqueles homens frágeis, doentes e inabaláveis. Entre nós, após o jantar, gostamos de baixar os olhos e sentenciar: “não tem mais o que fazer”. Não tem? Não sei. Mas houve quem fizesse. Cada tira que Henfil publicava poderia se tornar uma sentença de morte. Preso, a primeira sessão de tortura daria cabo de sua vida. E ele desenhava. Chico Mário compunha músicas de denúncia que nem mesmo se preocupavam, como as de Chico Buarque, em fazer uso de metáforas. E Betinho, já macerado pela doença, cruzava o país todo em sua luta contra a fome.
Pouco adiantou!, dirá alguém saudável, de sangue forte; nossa tragédia não se deixou afetar por nenhuma dessas atitudes; eles morreram sem ver os resultados de sua luta; Nada mudou!, não há o que fazer!, não há o que fazer!, não há o que fazer.
Não há? Não sei. Betinho, Henfil e Chico Mário, três batalhadores doentes que jamais deixaram de fazer, desnudam nossa imobilidade. Em sua grandeza e em suas doenças, são espelhos do que não somos.
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10 comentários sobre “Seção pipoca no escuro: Espelhos do que não somos

  1. Tristão disse:

    Vim agradecer a visita e o bom comentário, ajustado à sua intenção bem-humorada (mas olhe, olhe lá o que pode estar por trás desse humor…). Muito obrigado e apareça sempre.

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  2. adri disse:

    chorei, admito, lendo este post. é tão triste ver que perdemos a esperança nesse nosso país do futuro… um futuro que esqueceu de chegar pra nós……

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  3. tina oiticica harris disse:

    Aê, gnte fina, pode tirar o nós aê, por gentileza. Minha curta estadia na República de Ipanema revelou o seguinte:•A classe mérdia insatisfeita é a que ganha bem mas quer mais. Mais computadores, mais iPods, mais, mais , mais.•Meus amigos pobretões, circunstâncias da vida, estão contentes.•As “pessoas” trabalham mais. Os pobres comem mais.•Existe uma campaha clara das seis famílias donas da imprensa/mídia, parecida com a política que elegeu o Sarko, aí.•Ainda há idealistas. Eles não estão em alta. Estão por aí, no Brasil de sempre.

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  4. Paulo: Osrevni disse:

    Salve Tina, andaste sumida, hein!1 – A República de Ipanema foi revogada… hoje, fale em República do Itaim.2 – Sim, vivemos na era dos aparelhinhos… isso não tem nada a ver com nossos problemas específicos.3 – Você vê como é o brasileiro… se contenta com o caos.4 – As pessoas trabalham mais, mas ganham menos. Fora os desempregados, claro, que são muitos, muitíssimos.5 – Sim, existe. Antes, era a favor da ditadura… esse pessoal não muda.6 – Os idealistas sempre existirão. Mas sabe como são as coisas no Brasil de hoje… eles estão por aí, tomando sua cervejinha no Alzirão, reclamando do Lula e do FHC ao mesmo tempo… Depois eles vão pra casa, curtir a ressaca.

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  5. Fátima disse:

    Oi, Paulo:Vim agradecer sua visita e seu comentário. E fiquei por aqui, um tempão,lendo , mas olhando. E gostei muito de tudo que li.Foi interessante descobrir o olhar de um brasileiro sobre os filmes,aí fora,ler as suas comparações entre as línguas( linda!) e até me deliciar com as fotos da furreca.Vou linkar seu blog, ok?E passar seu link prá Alline, dona daquela história.Ah, e se tiver alguma história de professor ou aluno, me envie, porque adorei seu estilo.Abs

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  6. Diogo Lyra disse:

    Salve Paulo, grande resenha essa sua. Contudo, nadando um pouquinho contra a maré dos comentários, eu diria que são justamente grandes homens como estes que, de uma forma bem sutil, renovam a mensagem de esperança e, dessa maneira, a mantém viva. Claro, há uma massa ardente por aparelhinhos, etiquetinhas, penteadinhos e o diabro-a-quatro, mas existem sinais contrários a essa desgraceira, bem fortes por sinal. Sei lá, muitas vezes acho que tudo está uma grande merda, mas como disse Oswald de Andrade no seu Manifesto Antropófago, “A alergia é a prova dos nove”!!!Abraços!

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  7. Ivo Korytowski disse:

    Desesperançosa é a esquerda cujas utopias desmoronaram… As pessoas comuns tomam suas cervejas e batem seus papos e vão ao Maraca e vêem suas novelas e a gente vai levando.

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