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Picasso e a barbárie

Guernica

Na última semana, quando passei parte considerável de uma manhã diante do imenso – e assustador – painel que Pablo Picasso pintou para carpir as vítimas do bombardeio de Guernica, em 1937, não sabia que esse evento tão covarde completaria seu septuagésimo aniversário poucos dias mais tarde. Pois foi anteontem, 26 de abril. A coincidência é tão evidente que não posso evitar de deixar um comentário, mesmo se o conceito de “gancho” me causa arrepios.
Não há muito o que acrescentar ao que foi dito do evento em si. Todos sabemos que a Luftwaffe de Hitler e os teco-tecos de Mussolini aproveitaram a ocasião para calibrar suas metralhadoras, bombas e canhões. Tampouco é segredo que tudo se fez com a anuência das potências democráticas ocidentais, capitaneadas pela incompetência do britânico Neville Chamberlain e o flerte descarado da república francesa com os totalitarismos. (Foi o primeiro país a reconhecer o regime de Francisco Franco. Logo que Madrid caiu, enviou-se à capital espanhola, a título de embaixador, o marechal Pétain: aquele mesmo, o de Vichy.)
O bombardeio de Guernica, um vilarejo de 5000 habitantes no país basco espanhol, é talvez a maior vergonha da cultura ocidental. Primeiro ataque massivo a uma população inteiramente civil, deu-se intencionalmente numa segunda-feira, dia de mercado. Imagine as ruas cheias de camponeses vindos das montanhas. Feirantes apregoando, crianças roubando frutas, mulheres de véus negros a pechinchar. Tudo em euskera, claro; tudo muito barulhento, alegre, festivo. De repente, o apocalipse que se abate, anunciado pelas sirenes dos Stuka. Fala-se em algo entre 200 e 2000 mortos, sacrificados num teste do poder de fogo fascista.
Resta, então, falar da obra-prima, de sua disposição no museu, da instituição em si. Esses três itens formam praticamente um único tema. O Centro de Arte Reina Sofía é um museu extraordinário. Menos badalado, é verdade, do que seu vizinho, o museu do Prado (que Picasso dirigia em 1937, por sinal). Mas até, se bobear, mais interessante. Acolhe obras principalmente do século XX, como Salvador Dalí, Joan Miró, o próprio Picasso, Juan Gris, Fernand Léger e assim por diante, bem organizadas no edifício de um antigo hospital do século XVIII. Recentemente, ganhou uma extensão assinada por Jean Nouvel que, ao contrário do que costuma acontecer, não descaracteriza, nem estorva o conjunto.
Dentro, Guernica tem posição privilegiada. O mural ocupa uma parede inteira, mas a ele são dedicadas três salas, que lançam luz sobre seu processo de criação e os diferentes esboços, projetos e percalços por que o artista passou antes de se decidir pela forma definitiva. Os textos-parede são claros, e todo o conjunto realça a grandiosidade de uma das maiores realizações artísticas da história. Para efeito de comparação, basta tomarmos o exemplos de outra obra-prima: a Gioconda de Leonardo, emparedada no Louvre, separada do público por uma placa de vidro tão grossa que distorce a imagem. A multidão, circulando no exíguo espaço deixado pelas cordas de isolamento, pouco ajuda, com suas metralhadoras fotográficas, nervosas como as da Wehrmacht. É impossível apreciar as qualidades que fizeram da Mona Lisa a pintura mais reproduzida e citada no mundo, principalmente se na mesma sala há tantas obras que tiram nosso fôlego.
Guernica está livre dessa maldição. Vemos, numa seqüência de fotografias tomadas pela companheira do artista na época, Dora Maar, as etapas da elaboração do trabalho. O touro, à esquerda, originalmente mostrado de perfil, terminou contorcendo-se, olhos esbugalhados. O cavalo, que tem a goela escancarada para o céu, inclinava antes o pescoço sobre um homem despedaçado. São incontáveis os estudos para a mãe que carrega entre os braços seu bebê morto. Em alguns, as lágrimas tombam. Em outros, apenas brilham. Ou esguicham. O mesmo vale para todas as personagens, cuidadosamente compostas em separado, antes de integrar a obra definitiva.
Tendemos a nutrir a fama de um Picasso já velho, parisiense, célebre, que podia se dar ao luxo de pagar suas compras com rabiscos feitos in loco, um gênio que criava maravilhas sem grandes planejamentos (c.f. O Mistério Picasso, de Henri Clouzot, 1956). Mas Guernica, sobretudo com o apoio da excelente disposição do Reina Sofía, nos revela o Picasso cuidadoso, apurado, perfeccionista, o único capaz de engendrar as revoluções estéticas que saíram (em parte) de sua sensibilidade.
A história do quadro é interessante por si só. Resulta de uma encomenda do desditoso governo republicano espanhol, para integrar o pavilhão do país na Exposição Universal de 1937, em Paris. Abatido pela guerra que rasgava seu país, o pintor esteve a ponto de declinar, quando chegaram as notícias do bombardeio. Daí por diante, ele se dedicou integralmente ao seu trabalho de protesto e denúncia, mas também esperança, representada na flor que teima em crescer, no centro da composição.
Desde que ficou pronto, Guernica rodou o mundo com sua mensagem contra a barbárie. Após o triunfo do fascismo na Espanha e o início da Segunda Guerra Mundial, com as atrocidades que todos conhecemos, esteve em Oslo, Copenhague, Estocolmo, Londres, Nova York, Los Angeles, Milão, São Paulo, Munique, Amsterdam, Bruxelas, Colônia, Hamburgo… Mais do que a mensagem de Picasso, talvez só tenha viajado o horror que ela procurou denunciar: a guerra. Coréia, Vietnã, vários países africanos, Cambodja, Iugoslávia, Oriente Médio…
A luta do enorme painel contra a barbárie humana terminou em 1981, com sua volta à Espanha. Isso só se deu após a morte do próprio Picasso, em 1973, e de Franco, em 1975. Picasso deixara expressamente a ordem de só permitir o retorno de Guernica, então instalado em Nova York, quando a democracia voltasse a viger em seu país. Nesse ponto, a arte saiu vitoriosa em sua luta contra a guerra. Enquanto esteve sob o jugo franquista, a Espanha foi um país isolado e rejeitado pela comunidade internacional. Hoje, é um dos mais pujantes, admirados e visitados. Guernica, o quadro, tem seu altar na capital do país. Fascismo e nazismo foram derrotados, ainda que com muito sacrifício. Mas a guerra, o horror, o desprezo pela vida humana, todos esses fantasmas continuam a pairar sobre nossas cabeças.
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4 comentários sobre “Picasso e a barbárie

  1. Osimar Medeiros disse:

    Como sempre, é a arte que resguarda um quê de inocência e rebeldia. Geralmente reconhecidas tardiamente.Abraços.

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