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Cada língua em seu lugar

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Duas semanas de férias são a desculpa perfeita para acumular um passivo de trabalho. Entre artigos e comentários de texto, a dívida já está em 19 folhas cheias de letras. Ainda resta implorar por duas entrevistas e, para amarrar o pacote, atualizar este blog que já vai completando 11 meses (e preparar algumas novidades para o aniversário). Duas semanas? Desconte-se aí uma viagem para Madri. Ninguém é de ferro, muito menos eu. Tanto não sou metálico que mal consigo manter a cabeça inclinada sobre o teclado, enquanto lá fora as tulipas se dão a fotografar e o dia se recusa a escurecer. Parece que não terei grandes resultados ao final da “folga”. Para trabalhar, sobram apenas as madrugadas, em que preferiria me enfurnar nas tavernas ou, na falta de dinheiro, debaixo de lençóis.
Se não estou entre os bêbados, nem entre sonhos, estou entre Platão e o blog. Não é difícil concluir qual lado dessa equação fica para trás. Tenho desculpas, claro. A cabeça se embaralha, exausta, dolorida, ao cabo de umas tantas horas redigindo em francês e inglês. Ao falar com amigos, ao escrever em meu querido português, canso de soltar galicismos imperdoáveis. Não é raro que, procurando nos arquivos a melhor palavra para uma frase, brotem apenas expressões estrangeiras. Uma confissão: às vezes, tenho ganas de dar com a cabeça na parede.
Por um lado, temo um pouco acabar como o homem sem idioma. Um receio infundado, espero. Por outro, tenho feito descobertas, e graças a elas tudo isso vale a pena. Como por magia, as línguas, cada uma à sua maneira, começam a ganhar um significado próprio na minha cabeça. É como se existissem para preencher funções diferentes e se usarem em situações específicas. Tenho até a impressão de que não é coisa da minha cabeça. Que é universal e, de fato e de direito, as línguas se adequam a campos que lhes são próprios, frutos de culturas diferentes e histórias particulares.
Confuso? Explico, começando pelo francês. Essa língua tão peculiar é de longe a mais adequada para documentos oficiais. Ora, sendo a língua de Descartes, não tem como não ser cartesiana. Para produzir textos claros, ocupa laudas e laudas, com seus truques e fórmulas estabelecidos, presentes até nas conversas sobre o tempo. Dois franceses ao telefone conhecem bem as frases feitas que usarão entre si. Um rapaz que corteje uma moça deve saber quais palavras encaixar em que momento, para não passar por bárbaro. Até as gírias parecem seguir um padrão estabelecido pelos sábios barbudos do Renascimento. Bom, para preencher um formulário, é o ideal.
Esses tais sábios planejaram seu idioma em nome da retórica e do som. É aristocrático, algo esnobe, e cai facilmente no pedantismo. Como se sabe, em geral omitem-se as consoantes em finais de palavras. Em geral, eu disse. Há sempre exceções, e muitas. É fascinante; mas, para compreender ou expressar-se no idioma de Voltaire, um estudo profundo é condição exigida. Na poesia, nada mais francês do que os alexandrinos de Racine ou, vá lá, os decassílabos de Victor Hugo e Baudelaire. Na prosa, as detalhadas descrições de Balzac e Proust são o ápice da beleza francófona. Sei que, falando assim, sujeito-me à lapidação pelos entendidos, mas não posso deixar de sentir que as simplificações formais do modernismo, os versos brancos e livres, o tom coloquial, a liberdade, o estilo direto, deixaram esse rígido idioma em situação desconfortável.
Já o inglês, idioma da rainha e de Bill Gates, tem sido chamado de “novo latim”. Em que pese minha opinião de que o antigo era mais belo e nobre, não se pode negar que o apelido é exato. O mais surpreendente é que a língua se presta perfeitamente a esse papel. Dizem que o inglês é metade alemão e metade francês. Mas, além dessas duas línguas, compõem o anglo-DNA uma boa meia-dúzia de outras, do dinamarquês ao hebraico (c.f. BERLITZ, Charles. As línguas do mundo). Com tantas influências, engendrou-se uma enorme facilidade para receber vocábulos estrangeiros e transformá-los em seus. (Nada mais eficiente como instrumento de dominação.)
É uma língua de monossílabos. Rápida, simples, quase infantil. Perfeita para chistes e gírias. Não por acaso, os primeiros não podem faltar no melhor da literatura clássica, de Shakespeare a Bernard Shaw; e as gírias percorrem o principal das obras modernas. Empresas de informática, a começar pelo Google, têm adotado a política de se comunicar com os clientes por meio de uma fala “jovem”, ou seja, cheia de gírias (deles, claro). E funciona muito bem em inglês. Em português, soa artificial (c.f. Bluebus). Em francês, é simplesmente ridículo. Aqui, a prática está sendo abandonada. É a única língua em que o rock n’ roll dá certo, na minha opinião.
Quanto a mim, escrevo em inglês quando sou obrigado a tal. Fora isso, às vezes me flagro com uma vontade enorme de usar o novo latim. Isso acontece quando o assunto são coisas sem importância, como a sujeira das ruas, ou comentários superficiais que se pretendem bem-humorados. Nada muito diferente, afinal de contas, do uso que fazem os próprios nativos.
Sou suspeito para falar do português. Minha relação com a última flor do Lácio é de natureza inteiramente diversa. Nasci e cresci mergulhado nela, ao ponto de desenvolver uma afeição indelével. Como falar friamente de um idioma que me atrai igualmente quando rasteiro ou pomposo, coloquial ou trabalhado? Admito que é impossível. Mas uma coisa é verdade: diante de pessoas que conversam em português, quer dizer, nosso português do Brasil, o estrangeiro tem enorme prazer em apenas escutar. Nossa fala é fluida, doce, melodiosa. É agradável.
O português é a língua perfeita para transmitir as impressões e sensações de um mundo que está dado e nos cerca, queiramos ou não. É a língua da conversa solta, da prosa que parece verso e do verso que parece prosa. Os franceses gostam de se considerar o povo da conversa vazia, o bavardage, mas eles se expressam por convenções e fórmulas que só fazem enrijecer o discurso. Nós nos expressamos em ondas e marolas. Já os documentos oficiais, talhados para o francês, soam tolos e pretensiosos em nosso idioma, e a fala marcial do inglês nos empobrece.
Machado de Assis não caiu do céu, nem Vinícius, nem Drummond. Já vejo muita gente torcendo o nariz, dizendo que isso é bobagem. Pois seja. É assim, fim de papo. Afirmo que nosso português é feito para que o ouvinte se perca no som e frua da melodia, mesmo sem prestar atenção no que está sendo dito. Quem discorda, que vá escutar as versões de Garota de Ipanema no original e em inglês, depois volte para responder em qual das duas a Helô Pinheiro parece mais bela e fresca.
Este não é um post científico. É a expressão da minha descoberta das línguas. Descoberta? Se eu já as conhecia todas? Conhecia, num certo sentido. Mas em outros, continuo sem conhecer. Ainda há o que descobrir, sempre haverá. Não me acusem de chauvinista pelo elogio ao português. Talvez seja saudade da pátria, não sei. Aprendi a valorizar cada uma delas em seu campo, não vou cair no papo de Heidegger, para quem só é possível filosofar em grego e alemão (embora, de certa forma…). Mas eu, pelo menos, só posso ser feliz em português.
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14 comentários sobre “Cada língua em seu lugar

  1. Fernando Macedo disse:

    Fala garoto! Como estão as coisas por aí? Ainda de férias em Madrid ou já voltou para Paris? Estou plenamente de acordo a sua percepção dessas 3 línguas (ou 4 se incluirmos o alemão), só faltou fazer referência ao belíssimo espanhol que depois do inglês, é falado pra caramba por muita, muita gente.Abração pra você e beijos pra Nicoli.Fernando Macedo…de volta ao Rio e recém adaptado ao trabalho. Ah, não esqueci do DVD, ok!

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  2. adri disse:

    eh, como estudante de letras também já parei pra pensar várias vezes nisso, nas diferenças entre as línguas, e em como, em alguma determinada situação, uma parece bem mais propícia do que outra. falo inglês, alemão e adoro o português. é um idioma cheio de controvérsias, tem um FRESCOR indefinível, algo que te faz simplesmente deixar levar pelo diálogo; ao mesmo tempo que tem tantas pretensões de parecer científico e tão absurdamente correto. o jeito é aproveitar o que cada uma tem de bom, não racionalizar tanto, apenas sentir o gosto e se deixar embalar pela melodia de cada idioma… =)ps: mas o francês chega a ser uma covardia de TÃO lindo, neh?

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  3. Madalena Barranco disse:

    Olá Paulo, nossa, adorei conhecer seu blog! Quando minha mãe aportou ao Brasil vinda da Espanha, a primeira coisa que lhe chamou a atenção foi a “dulzura del portugués” – isso sem falar na maravilhosa possibilidade de existir uma palavrinha para a expressão de cada pensamento. Beijos. Ah, e muito obrigada pela sua gentil visita ao meu blog Morango – as criaturas fantásticas que o habitam mandam-lhe lembranças!

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  4. Mythus disse:

    Muito bom o post. Imagino como deve ter sido confuso na Torre de Babel. Qualquer dia aprenderei o alemão pra poder filosofar um pouco.Mas mesmo no mesma lígua as diferenças são enormes. Já viu um jamaicano, um americano e um inglês conversando? Parece 3 idiomas diferentes.Por falar em línguas, passou hoje na TV Cultura um programa sobre a indemendência de Moçambique e, muito apropriadamente, havia legendas em português para tudo o que falavam, sejam os de Portugual e os de Moçambique, que contavam a repetição da história que houve por aqui.E num país continental como o nosso? Onde insetos, alimentos, gírias não conseguem ir de uma ponta à outra? Já perdi as contas das vezes que eu falava algo pra namorada e ela não entendia. Ela de Joinville e eu de João Pessoa.Yes, nós temos dialetos 😉

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  5. Dani disse:

    Adorei o post!!! São as pequenas coisas que percebemos (e nos fazem perceber) depois de falar uma ou mais línguas… O nosso português é realmente belíssimo e tão admirado! Me dá uma alegria enorme enxergar isso nas pessoas, um orgulho que não tem nada com o patriotismo, bundas e caipirinhas… Mas com a poética, com o discurso, com a sintaxe e a semântica, com o nosso jeito de expressar as coisas…

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  6. Simone Iwasso disse:

    é a língua materna que molda nosso primeiro recorte do mundo, e a base para qualquer outro que a gente consiga fazer. seja feliz em português! um beijo

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  7. Mythus disse:

    Paulo, que achou da audiência de ontem? Se ainda não viu, vá no site do stf em “últimas notícias” e tem mais ou menos o relato do que ocorreu.Apenas a antropóloga levantou a questão de que “quando começa a vida” leva a regreção ad infinitum sobre a origem da vida e orienta mais o debate uma decisão que gera mais conseqüências reprodução/aborto do que para o estudo das tais celulas.Achei curioso uma das defensoras da ADI dizer que o feto se comunica com a mãe pouco depois da fecundação através de neurotransmissores.Também ficou informado que a partir do 14º, que é quando ocorre a nidação, também marca o início da formação do tubo neural. Pra mim esse é o momento que a coisa passa a ser pessoa. Não sabia que era tão cedo.

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  8. Kandy disse:

    Olá, vim retribuir a sua gentil visita no Idéias e o que eu encontro? Um blog gostoso de ler, com um português IMPECÁVEL! Isso é deveras impressionante hoje em dia, há de concordar comigo… Sabe, eu queria acordar de manhã já sabendo duas coisas, como que por milagre: tocar violino e falar francês. Primeiro, porque acho que essas coisas combinam; depois, porque adoro o som dos dois. Como professora de inglês, entretanto, eu tenho de reconhecer que a implicidade do idioma inglês é mesmo arrasadora e facilita a comunicação. Mas o vocabulário é raso, às vezes me dá desespero. O português, não. Esse eu amo de paixão!Vou voltar aqui sempre, posso? 😉

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