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Seção Dedo de Prosa: O gesso

Grade+montmartre

Desço uma das escadarias que me afastam dos fundilhos de Montmartre. Salto alguns degraus, ladeira abaixo, interessado pelas folhas escuras da hera que se vai encalacrando pelas antigas amuradas. Toda a algazarra do turismo ficou do lado oposto, disputando espaço com os ambulantes, os traficantes e os malandros de olhos afiados.
Cá nesta direção, vige o silêncio. Um respeito, tacitamente observado pelos moradores e passantes, à nostalgia que o nome do bairro faz revolver no pântano de cada alma. Não serei eu a ofender a memória dos lampadários e dos cafés, nem tenho pretensões de aceder aos mistérios de cada janela. Contento-me em imaginar, em projetar outros tempos.
Materializo, atravessando aquelas portas e derrubando aquelas cadeiras, uma multidão de imagens fantásticas, pessoas que conheço de ouvir falar, de ler as aventuras que viveram. Os boêmios, artistas, revolucionários, cujos porres, dramas, depressões, desgraças, foram muito mais agudas do que tudo que jamais viverei; mas cujos sonhos, obras e legados estarão eternamente além do meu alcance. Mais altos, talvez, do que a minha própria capacidade de admirá-los – e invejá-los.
Conjecturo: não teria sido uma tolice fabricada pela minha fantasia que conduziu meu passeio para estas bandas? Uma idéia de misticismo ingênuo, segundo a qual a simples presença pelos lados deste morro seria suficiente para me dar a absorver algo dessa grandeza? Nada! Muitos outros sonhadores irrelevantes, outros do meu feitio, certamente já atravessaram essas ruas com o mesmo misticismo no espírito, para depois retornarem a seus apartamentos e famílias, e finalmente desaparecerem pelas frestas da existência.
Desfalecendo rumo ao azul, estéreis da substância sagrada que emana do morro de Montmartre, os subúrbios disformes expiram sua fumaça. Toda essa malha rugosa faz parte da zona silenciosa, da qual tenta-se não falar nos cafés e bulevares freqüentados por estrangeiros. A não ser quando explodem as crises, os ataques, os carros queimados. Então, usa-se o número. É o Nove-Três, diz-se, e pouco mais. Um departamento habitado por gente de outras terras, mas não turistas; gente estranha, imigrantes oriundos das ex-colônias. Pronúncia diferente, gírias, crimes. Vai ver, é essa desencantada proximidade que afasta os turistas, apaixonados que são pelas belezas anunciadas nos monumentos, edifícios embalsamados, cujas paredes há tempos nada mais dizem senão o fato de serem o que são.
Mantenho os dedos próximos do corrimão, sem tocá-lo. Meus olhos tentam encaixar em seus limites todos os ângulos da enorme perspectiva. É curioso como a degradação social salvou esse pequeno canto, cheio de ladeiras, da degradação urbana que conquistou o resto da cidade, encarnada nas máquinas fotográficas e camisas floridas. Pôde-se manter, assim, uma certa brasa daquela velha Montmartre de absinto e pousadas baratas, poetas declamando nos bares, músicos quebrando seus instrumentos em brigas nas calçadas pelo amor de uma insensível prostituta.
Mas esses, ironicamente, foram tempos em que a vista dessas ladeiras dava para um vasto campo de trigais e bosques, dominados pelas torres da catedral de Saint Denis. Houve janelas, algumas dessas que hoje me espiam, de onde, há coisa de um século, gênios lançavam seus escrutínios para pôr em ordem, nas retinas, cores que dariam em tintas, que se absorveriam nas telas para, finalmente, calarem os olhos dos mais sensíveis.
Admito que meu passeio é vão. Esse tempo não voltará, definitivamente, jamais. Ao pé de mais um lance de escada, uma dessas bifurcações que caracterizam o bairro. Dois estreitos caminhos de paralelepípedo, ambos respeitando a tradição do muro de pedra coberto de hera. Farei o que me decidi a fazer desde o princípio desta caminhada, isto é, tomar o caminho indicado pelo acaso. Antes, porém, que meu guia se manifeste, algo me atrai a atenção. Um movimento ao final de um dos caminhos possíveis. O farfalhar de algum arbusto, alguém escondido, um animal em fuga, sabe Deus o quê.
Vou atrás. Nem aperto o passo, nem reduzo a marcha. Como se fosse meu caminho natural, e bem poderia sê-lo, eu o sigo. Quando passo, o movimento já cessou. Atiçado por uma curiosidade que não me é natural, volto sobre meus passos, decidido a investigar. Meto as mãos entre os galhos. A planta, como uma mulher inexperiente, põe-se a tremer, até que me atropela um corpo atarracado e mal-cheiroso. No susto, recuo dois passos e me vejo diante de um homem barbudo, baixo, boina xadrez e jaqueta de couro. Ele me pergunta, em tom cautelosamente agressivo, usando de um francês algo grosseiro: “T’es flic ou quoi?”
Mãos espalmadas, asseguro-lhe de que não sou polícia. Sou só um flâneur idiota e curioso um pouco além da conta. Ele mete entre os lábios um charuto amassado que vinha fumando. Posso notar que há gesso debaixo de suas unhas, e manchas brancas pelos dedos. Peço desculpas por importuná-lo, ele resmunga um “Je m’en moque” e se enfia novamente pelo meio da folhagem.
Impulsionado pela impressão que aquele homem me causou, sigo atrás, sem pedir licença. Mas ele em momento algum faz menção de me expulsar. Que charmosa descoberta, essa. O gesso se cola ao muro, aderindo e amontoando-se segundo as ordens desse homem, que trabalha freneticamente, em nada preocupado com minha presença. É um escultor. Enquanto ele mistura a água ao pó e atira a massa úmida sobre a pedra, fico a acompanhar seu trabalho, tentando deduzir que forma o artista pretende criar naquela superfície imprópria e isolada. Não consigo. Ele, absorto, nada diz.
Lembro-me de que há uma outra escultura na parede, em Montmartre. Homenagem a algum escritor, poeta, cineasta, já não sei. Com um pouco mais de atenção, posso perceber que há algo de humano nessa escultura, também. O tamanho, algumas curvas, uma certa tensão. Algo naquele gesso, ainda mole, respira. Ofegante.
Enfim, o artista permite-se uma pausa. Encara-me sem mais o menor traço de agressividade. Ao contrário, sorri. Parece cansado. Pergunto-lhe o que é. “Um homem”, responde. Mostra-me os detalhes, apontando com um indicador gordo e torto. De costas, encurvado, o personagem enfia-se parede adentro. Sem demonstração de dor. Parece uma alusão à outra escultura, oficial, comandada pela prefeitura, que representa o homenageado saindo de um muro. Esta, oculta pela vegetação, criada por um artista sem nome, em lugar proibido. É como o perfeito oposto. Levanto a idéia da comparação, ele dá de ombros. Acaricia algumas das folhas que crescem pelo muro. “Espere só para ver a surpresa que terão no inverno”, diz.
“Por que o homem se enfia no muro?”, quero saber. Ele me pergunta se nunca tive vontade de entrar de cabeça numa parede. Se jamais me ocorreu que o ambiente em volta de mim pode ser hostil, pesado, insuportavelmente obscuro. Não respondo, mas internamente confesso que não.
Algumas pessoas, ele explica, têm uma alma muito vasta. Bela, mas além do que permite o mundo. Ou então, uma alma leve demais para a vida. Essas pessoas, diz o homem, erguendo e apertando os punhos, o mundo as abafa, as estrangula, ou gruda em suas veias como uma colônia de sanguessugas. Essas pessoas sabem que são combatidas pelo mundo, embora ele não forneça sinais exteriores da batalha que conduz. Elas querem combatê-o de volta, mas o mundo é o mundo. Não pode ser vencido. O homem se exalta, gesticula, faz caretas. Diz que o mundo, “hélas!”, queima debaixo dos pés, congela em

torno dos braços, aborta cada golpe e aplaude cada grito em meio a gargalhadas. Como se nossa vida, exclamou, nada mais fosse do que um espetáculo cômico!

Ele está exaltado. Salivando pelo canto da boca. Não entendo o que quer dizer, e mesmo as palavras, atiradas umas por sobre as outras, já não são mais compreensíveis. O escultor se dobra sobre o próprio eixo, alterado. Chego a crer que terá um enfarte, mas seu entusiasmo me fascina. Mantenho-me rígido, acompanhando seu discurso. A escultura incompleta vai secando, no ritmo do ligeiro calor que já começa a fazer. A luz, atravessando a folhagem, pontilha de brilho as costas encurvadas. Ainda restam duas horas de sol para o homem trabalhar, mas ele está absorto na descrição dolorosa de seu personagem.
De fato, a pouco e pouco começam a revelar-se na superfície do gesso as características que o homem me descreve. A infelicidade se faz presente nas dobras agudas do paletó. O peso do mundo produz uma concavidade no dorso. As veias do pescoço são expressivamente saltadas. O rosto já se misturou à pedra, já se espalha pelo limo. Mesmo destino das mãos e da perna direita. De súbito, porém, torna-se evidente o alívio da figura de gesso. Por mais doloroso que possa ser, é com alegria que ele se funde ao sólido e se esconde na parede. Não há um elemento que indique hesitação. Apenas um grande movimento de salto, abandono rumo à aniquilação.
Volto-me para o escultor. Ele está calmo, encara-me com olhos mareados. Pela primeira vez, posso observar que tem olheiras escuras. Não dizemos nada mais. Eu reflito, ele ofega. Após alguns minutos, ele desvia sua atenção para a obra interrompida. Contempla-a. Sigo seu exemplo. Bate o vento fresco, põe em movimento as manchas de luz. Por um segundo, penso que foi o próprio gesso que se moveu, seguindo sua marcha para a escuridão da pedra.
Mas quem se move é o artista. Com uma bufada, lança-se contra a própria obra. Enfia os dez dedos nos ombros de sua criação. Mole, o gesso cede. O criador puxa com violência, rosnando como um cão ferido. Em poucos segundos, é lançado ao chão pela própria força, levando entre os braços o torso da obra. Ao cair, um estrondo, ele machuca as costas. Geme. Não posso ajudá-lo, tenho os movimentos congelados e os olhos ainda fixos na parede, no ponto em que se fixava aquele pedaço de corpo. Da figura humana, restam apenas os braços, uma perna e uma mancha onde se ligava todo o resto. A topografia do muro me lembra um mapa de deserto.
Finalmente, o homem se vê livre do peso da obra. Atira-a para o lado, com esforço. Sua roupa está esbranquiçada. Ajudo-o a colocar-se sobre as pernas. Estou cheio de tristeza pela arte que se desperdiçou, mas ele tem o rosto iluminado. Solta mesmo uma curta risada, enquanto tenta captar no meu semblante os sinais de decepção. O homem de gesso, esquartejado, continua largado sobre a relva. O artista e eu encaramos, alternadamente, o torso esfacelado e as marcas na parede com que ele tentara se fusionar.
Espero do artista uma explicação. Lançando-me apenas olhares esparsos, ele tira do bolso aquele mesmo charuto, acende-o com um isqueiro metálico e recosta o ombro contra o muro. Sigo mudo, imóvel. Ele me provoca. Só tem um movimento mais acentuado quando conclui que terminou o charuto. Atira-o ao chão, amassa-o com o pé. Só então se volta para mim, o peito aberto em desafio, na ponta dos pés para reduzir a diferença de altura.
“Eh ben, voilà!”, ataca, no tom mais incisivo que jamais ouvi em toda a vida. “O mundo venceu, como sempre.”
E, sem mais, dá-me as costas e parte para a cidade. Abre o caminho entre as folhas usando a sola do sapato, na mesma postura da estátua que quis se fundir na pedra. Em poucos segundos, desaparece da minha vista. Deixa-me ainda imóvel, incapaz de compreender o que se passou diante de meus olhos.
Penso em levar comigo as sobras da escultura. Mas sou tomado por um desgosto nebuloso, em forma de melancolia. Para o artista que desistiu de sua obra, o desespero se manifesta numa vontade irresistível de entrar pelas paredes. Decepcionei-o por jamais ter sofrido desse impulso. Mas o que eu não lhe disse é que o desespero também existe em mim. Se ele não se manifesta de maneira tão arrebatadora, caro escultor, será talvez porque eu não possua uma alma vasta e leve como a sua.
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4 comentários sobre “Seção Dedo de Prosa: O gesso

  1. Diego disse:

    Paulo, obrigado pelo comentário. É muita ousadia tua escrever posts tão grandes.Confesso que não leio um blogueiro que escreve bons contos há muito tempo. Continuarei lendo teu blog.Essa questão do artista é próxima do post do Perambulagens que vc comentou.Uma dúvida sórdida: nesse espaço vc pensa Walter Benjamin?[]s

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