domingo, frança, futebol, romário, sarkozy, ségolène

Ségolène x Romário numa tarde de domingo

FiosQuer dizer, então, que nosso decano ídolo Romário decretou estar próximo de encaçapar seu milésimo gol. E diz a imprensa: “O Brasil prepara a festa”. Parece irrelevante o fato de que o Baixinho fez dessa contagem um balaio de gatos onde enfia até os tentos marcados em peladas na praia. Pouco a pouco, nação brasileira, lá vai o Peixe. Rumo ao milésimo, cobrando seus pênaltis, algo que jamais falta ao seu Vasco. Mas está demorando. Suspense. Será que ele consegue? Quando sairá o gol mil que ele fabricou na sua cabeça? Quando Romário chegará a Volkswagen?

Tarde de domingo, lavo a louça com a televisão ligada. Tento tirar as manchas de arroz queimado do fundo da panela. Enquanto exerço minha pressão milimétrica, fico pensando que, se estivesse no Brasil, teria que acompanhar, pela telinha, alguma reportagem sorridente sobre a apreensão e a felicidade de Romário com a chegada de sua possível marca histórica, redondinha. Um número com que sonha desde que era bebê e chutava suas bolas no quintal, com o pai. Só alegria.

Mas acontece que não estou no Brasil. Enxugo as mãos com pressa, desleixado. Preciso aumentar o volume para escutar o que está sendo dito. É uma entrevista com Ségolène Royal, candidata do Partido Socialista às eleições presidenciais do próximo dia 22. Ela tem chamado atenção. É a primeira mulher com verdadeiras chances de ganhar a eleição na França; nas pesquisas, ocupa a segunda colocação (falando assim, parece Fórmula 1), logo atrás de Nicolas Sarkozy, que até há pouco era ministro do Interior. Um terceiro candidato, François Bayrou, da centro-direita (um tucano, digamos assim), morde os calcanhares de ambos, mas não deve chegar ao segundo turno.

Royal chama atenção, também, por ser talvez a única esperança de não ter na presidência um baixinho truculento, ambicioso e intransigente, que é como as pessoas vêem Sarkozy. O problema é que, ao contrário do que tentam mostrar, os franceses adoram gente truculenta e intransigente. Este povo encarna como ninguém o cinismo moral do século passado: discursam à esquerda, pensam e votam à direita. Sarkozy é o tal que chamou os jovens suburbanos de escória (racaille). Embora a palavra, tão forte, tenha levantado críticas pelo país, a verdade é que a maioria concorda. Em silêncio, naturalmente. E dão seu voto ao sujeito.

Parada dura para a representante da esquerda, se é que o PS francês pode ser chamado assim. Outro motivo pelo qual a candidata socialista chama a atenção são as gafes que solta, de vez em quando; mas se gafe fosse problema, nem Lula, nem Fernando Henrique teriam sido reeleitos. Bayrou tem roubado alguns votos por causa disso. Nada que chegue a assustar.

Mas volto à minha louça, mais urgente. Não havia escorredor para tanto prato. O jantar da noite anterior contara com convidados. Verdadeiros glutões. Da próxima vez, usaremos pratos de plástico. Mas a falta de espaço foi uma desculpa para deixar secando tudo aquilo e ir grudar a cara na televisão. Para quem está acostumado com a relação entre imprensa e política no Brasil, como eu, a maneira como os jornalistas entrevistavam a candidata era marcante.

Os políticos do século XXI estão se especializando em duas coisas: a “numeralha” e as generalidades. Neste pleito, Sarkozy representa a numeralha. Todo mundo sabe que a criminalidade e o desemprego estão cada vez mais fora de controle, mas ele sempre tem uma porcentagem para tirar da cartola, normalmente baseada em coisa alguma. Royal, mais humana, ocupa o nicho das generalidades. Um jornalista perguntou como ela pretendia fazer passar seus projetos ambiciosos. Ela respondeu que criaria um consenso, um lindo consenso, “com todos os franceses”.

A partir desse ponto, a coisa endureceu. O jornalista produziu uma das milhares de expressões faciais tipicamente francesas. Perguntou a ela se a idéia não lhe parecia fantasiosa. “Consenso com todos os franceses, como? Na porrada? Quem são todos os franceses?” E mais uma expressão facial, daquelas especializadas em ridicularizar um argumento. Na minha ingenuidade brasileira, considerei a atitude de um enorme mau-gosto, um desrespeito do entrevistador para com a entrevistada. Pensei que poderia ser um jornalista machista, ou direitista, ou ambos. Deplorável, em todo caso.

Mas Ségo (os franceses adoram diminuir os nomes. Sarkozy, por exemplo, é Sarko), contra minhas expectativas, não pareceu se abalar. Respondeu que ele tinha uma visão ultrapassada, ou melhor, antiquada da política. Era, de fato, um homem velho. Argumentou Ségo que as velhas divisões não existem mais, que o entrevistador deveria estudar e se informar melhor. Tudo isso, naturalmente, na maior elegância. Mas o rigor dos ataques e contra-ataques só fez aumentar. A cada generalidade que ela dizia, uma expressão facial do repórter. A cada réplica dele, uma cacetada dela. Foi assim, a tal entrevista. Eletrizante, muito melhor do que thriller de Hollywood. Lamentei não ter visto a de Sarkozy, na semana anterior.

Ao final do programa, de volta à louça, lembrei-me de Romário, das campanhas políticas brasileiras, de nossos jornais. No Brasil, constatei, um jornalista jamais coloca um candidato contra a parede. Pelo menos, não dessa maneira. Em 2002, em pleno Roda Vida, Lula declarou que FHC foi o pior presidente de nossa história. Uma história que já teve Médici, Jânio, Floriano Peixoto. Todos os jornalistas discordavam, mas deles emanou apenas um ar perplexo. Só uma, timidamente, perguntou: “Tem certeza, candidato?” Ao que Lula, simplesmente, com toda convicção do mundo, respondeu: “Tenho.” E ponto.

O jornalista, no Brasil, só quer terminar bem seu programa ou fechar bem sua edição, sem sobressaltos, em paz, com os anunciantes garantidos e o emprego, idem. Nossas empresas de comunicação, como bem sabemos, estão todas quebradas, dependendo da boa-vontade do governo. Quem terá coragem de espremer os representantes do poder? Até entendo. Mas não tenho mais vontade de assistir a debates presidenciais ou entrevistas com políticos brasileiros. Já sei que serão frios e insossos.

E o Romário, que tem a ver com isso? Nosso ídolo nacional, herói da Copa de 94, gênio da pequena área. E agora, faz papel de palhaço ao inventar esse tal milésimo gol. Provavelmente, até o Eurico Miranda reconhece ser uma tolice. Mas não há, nessa patotinha que é a imprensa esportiva brasileira, um mísero profissional que aponte o dedo para a megalomania. E quando sair o tal do gol? O Peixe vai dedicá-lo às criancinhas, como Pelé? Terá de ser de pênalti, contra um goleiro argentino (contra o Vasco, acho difícil, só se…), no Maracanã? Vão interromper o jogo?

É claro que a imprensa não quer estragar a festa. Por que fazer bom jornalismo, se estampar um pôster do baixinho no jornal de segunda-feira venderá mais? Assim tentam sobreviver nossos periódicos. Com essas faíscas de assunto, esses factóides impactantes. Só que Romário não faz o “milésimo” gol todo dia. O jornal de terça não terá a mesma graça que o de segunda. Sem nenhum gol simbólico a comemorar, restará aquele texto anódino que só serve para embrulhar peixe. Sem pressão da imprensa, cada um, e falo dos governantes, faz o que quiser. O país segue se esfacelando, a população vai perdendo o interesse pelos jornais ocos. E eu, em particular, terei de lavar a louça assistindo a desenhos animados.

Conclusão? Ainda bem que existe a internet.

Anúncios
Padrão

9 comentários sobre “Ségolène x Romário numa tarde de domingo

  1. adri disse:

    estou gostando muito do teu blog, pensas parecido comigo em vários assuntos. esse assunto da mídia, por exemplo, em como os jornalistas e a imprensa em geral estão tornando ocos os jornais e noticiários, algo que deveria ser tão instigante, sendo nossa vida, o cotidiano e tudo que o envolve a matéria prima principal destes. ontem mesmo estava folheando um jornal na faculdade, tomando um café e conversando com um amigo simultaneamente, e comentamos em como é triste e melancólico o fato de que o jornal do dia nada mais vale no dia seguinte. vira simplesmente papel pra embrulhar peixe ou mudas de grama. não é o material, a folha de papel em si que me fez pensar nisto, mas o fato que, se as notícias, reportagens, crônicas ou entrevistas ali impressas deixassem de alguma forma uma marca em nós, esse jornal não “morreria” no dia seguinte. li o post ali debaixo tbm, sobre os embriões. foi uma batalha, eu admito, mas li. muito interessante, é um assunto altamente controverso, do tipo que acabamos contradizendo a nós mesmos, sempre. quando eu descobrir minha opinião te conto, viu? bjn, e passe lah no blog sempre =)

    Curtir

  2. Paulo: Osrevni disse:

    Drica, é aquele negócio… Eles rezam à esquerda, mas na hora do vamos ver, votam à direita… Agora, se esse tal Bayrou chegar ao segundo turno, vejo grandes chances de neguinho se unir contra o Sarkozy e eleger o outro. Mas, sei lá, não conheço tão bem assim a política local!

    Curtir

  3. Alexandre Pinheiro disse:

    ola pauloestou te visitando aqui em retribuiçã à tua visitamuito bom o blogmuito bom o postnas ultimas eleições para presidente, houve ‘algum’ achacamento aos candidatos por parte do jornal da globo, nada porém que assustasse, ou que não soasse falsocom relação a imprensa esportiva frente o romário, o juca cansa de dizer que é triste ver o baixinho acabar assimmuito mais digno esta sendo o final da carreira do animal, esse sim preocupado em jogar bola, fazer oq gosta, e não somente em ganhar rios de dindin como o baixinhoaté os maus bofes ele domouentão é issoaparecerei aqui mais amiúde, esperoum grande abraço

    Curtir

  4. Alexandre Pinheiro disse:

    a proposito, esqueci de perguntar, pq “inverso”?tbm te adicionei no msn, quem sabe não me dá boas dicas de formatação para blogs, okestou numas deme aproveitar, se não se importarsabraço

    Curtir

  5. Geórgia disse:

    QUASE UM POST MAIOR DO QUE O SEUPaulo,Como jornalista, ergo-me em defesa da minha classe: não são os jornalistas que entraram em processo de control+alt+del. SÃO TODAS AS PESSOAS EM TODOS OS LUGARES. Você, provavelmente, também. Ao lavar sua panelinha queimada de arroz, lá pelas tantas, você pensou: Ah, chega! Isso não vai sair totalmente, além do mais é arroz que eu vou cozinhar aqui amanhã, além do mais sou eu que vou comer do arroz proveniente desta panela, além do mais quando me alimento num restaurante (sobretudo se for francês), o fundo da panela deve ser mil vezes pior. As pessoas estão sem esperança, indo para o trabalho e pensando no momento de voltar pra casa e abrir um pacotinho de amendoim. Se eu concordo? De certa forma, ao sair de casa para fazer meu trabalho voluntário, não, não concordo. Mas a sociedade anda tão tristonha, que não posso negar que muitas vezes me deixo abater. De forma geral, o amor esfriou. Os jornalistas fecham seus laptops tanto quanto os médicos passam pelos pacientes agonizantes e dão uma discreta olhadinha nos seus relógios (“Por onde andará o meu amendoim?”). A metáfora perfeita é o fundo da panela. Quando a sua imagem voltar a refletir por lá, os jornalistas voltarão a se importar.Um beijo,GeórgiaPS: Alguma chance de tomarmos um cafezinho em Paris na semana que vem? (Sou casada, fidelíssima, séria, mas gosto muito de um expresso com duas gotinhas de leite.)PS2: Jornalistas bem informados passam prematuramente por excelentes jornalistas. Nem sempre o serão. Eu defendo o seguinte: antes uma pergunta pesquisada, bem formulada, colocada de forma incisiva porém respeitosa (demonstrando que jornalista também precisa ter educação) e que aponta para um debate produtivo, a uma flecha genial que não é nada mais do que uma bela sacada. Acontece que o povo gosta dum sanguinho, né?

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s