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A mesma bagunça de outrora

Mesa+sepia

Nas últimas poucas semanas, aprendi mais sobre o mundo dos blogs do que em toda a minha vida, ou melhor, em todos os dez enormes meses em que existe o Para Ler Sem Olhar. Parte disso se deve à ajuda inestimável do igualmente inestimável Marcão. O resto, ao fato de que comecei a fuçar, depois de descobrir que a coisa é mais séria do que imaginava. Para falar a verdade, sempre soube que eu era um dinossauro no que tange à net. Em outras palavras, um dinossauro pura e simplesmente, porque a net, hoje, é a vida (falando nisso, esse tal de Second Life…).
Nos últimos tempos, tenho descoberto que não era apenas um dinossauro. Era um ingênuo cibernético. Uma criança. Quando soube que já há quem blogue (do verbo blogar!) por dinheiro, caí para trás. Não estou falando dos quarenta e tantos centavos que ganhei no Adsense desde dezembro. É gente que se sustenta com o que um dia foi apenas um diário aberto na internet. Há coisa de um mês, ousei associar o blog à idéia de liberdade. Nada! Essa barreira já foi rompida há muito. Blog, hoje, é coisa séria. Não raro, é negócio.
Até há pouco, costumava circular apenas em blogs de conhecidos, que publicavam seus pensamentos, arriscavam sua literatura, arranhavam uma poesia. Mais ou menos como eu. Para mim, “RSS” era o Rio Grande do Sul com erro de digitação, e “Feed” era música de Mary Poppins (o nome correto, na verdade, é “Feed the birds”). Mas aí vieram as dicas de Marcão, que bagunçaram meu coreto. Tive que repensar os conceitos e me retratar comigo mesmo por dar um diagnóstico tão precipitado, com parco conhecimento de causa.
Decidido a repensar a questão, lembrei-me de um livro excelente para quem se interessa por jornalismo, televisão, mídia, enfim, comunicação em geral. Chama-se “Uma história das mídias”, de Jean-Noël Jeanneney, que não sei se teve tradução no Brasil, mas em Portugal chama-se “Uma história da comunicação social”. Jeanneney foi presidente da Radio-France e diretor da Biblioteca Nacional francesa. É um dos principais nomes por trás da Europeana, iniciativa deste vetusto continente que se pretende uma contrapartida à biblioteca digital do Google. Ou seja, é alguém que sabe do que fala.
A certa altura de seu livro, Jeanneney descreve o estado geral da publicação de jornais na França revolucionária, em torno de 1791. As corporações, que limitavam o acesso de editores ao mercado, haviam sido abolidas. A velha prensa de Gutenberg se popularizara a tal ponto que imprimir um jornaleco de quatro folhas era possível para qualquer burguês de meia-pataca. Vendidos a preços irrisórios, houve um momento em que se imprimiam quase 200 títulos diferentes a cada dia. Todos os grandes nomes da Revolução tinham o seu jornal. Desmoulins, Marat, Sieyès, Robespierre, Danton… De fatos, grande parte deles eram considerados jornalistas, se é que o nome se aplica ao período.
A rigor, pode-se dizer que era uma bagunça. Cada um escrevia o que queria. Sobretudo, cada um lia o que queria. As polêmicas e os vitupérios não se limitavam às generalidades que vemos nos jornais de hoje. Usavam-se os nomes verdadeiros dos alvos, não havia preocupação alguma em verificar informações. Era, para resumir, uma bagunça, como eu disse.
Depois, naturalmente, vieram o Diretório e o corso terrível, Napoleone Buonaparte. Como em praticamente todos os domínios, restabeleceu-se a ordem na casa, graças a um punhado de leis e uma leva de punhaladas. A imprensa foi, pouco a pouco, tomando corpo. Ao longo dos dois séculos seguintes, surgiram os grandes jornais, as redes, os conglomerados. Em pouco tempo, o Quarto Poder era um elemento fundamental.
O que tem isso a ver com a atualidade dos blogs? Tudo, evidentemente. Quantos blogs existem no mundo? Já ouvi dizer que eram 30 milhões, depois 40. Não sei se os dados são confiáveis, mas não duvido. Basta clicar um pouco na internet para cair sobre uma infinidade. Há todo tipo de página, desde a adolescente que não sabe escolher a roupa da formatura, até jornalistas consagrados, de cabelos brancos, forçados a manter o bendito blog para que a empresa em que trabalha não fique para trás da onda tecnológica. Isso para não falar dos blogs de políticos e até ex-blogs…
Há algumas páginas com dezenas de milhares de leitores diários. Eu, quando chegar a cem num só dia, abrirei uma garrafa de espumante barato. Há blogueiros que formam opinião, outros que publicam seus livros aos poucos. Há, ainda, os difusores de teorias da conspiração e os fanzines. Há tudo. Como não poderia deixar de ser, quando se trata desse bicho chatinho que é o ser humano, há gente que tenta normatizar a vida alheia, dando lições do que deve e não deve ser o blog do próximo.
Mas, como eu disse da outra vez, os grupos se formam naturalmente, em torno de temas comuns, opiniões, amizades. As ligações por meio de links tendem a formar núcleos, não tão fechados quanto clubes sociais, claro, mas com uma certa estrutura. Portanto, algum processo de organização já está em marcha. Existem agregações de blogueiros que podem perfeitamente descambar em sindicatos, se deixar. Vão acabar querendo regulamentar a “profissão”, e uso aspas não para criticar quem faz do blog uma profissão, mas quem rejeita o lado lúdico e livre do fenômeno.
O fato é que, muito mais do que no caso dos jornais oitocentistas, todo mundo pode ter um blog. Verdadeiramente. É fácil, e qual é o custo de mantê-lo? A princípio, apenas um: o custo de oportunidade, ou seja, o que se deixa de ganhar por estar blogando e não fazendo outra coisa mais produtiva, como investir na bolsa ou lavar carros. Esse custo existe, é de fundamental importância, mas é, às vezes, tão baixo que ninguém se lembra dele, nem mesmo os economistas.
A não ser por uma canetada, não há jeito de colocar uma ordem definitiva, e provavelmente indesejável, na anarquia da blogosfera, pelo menos no curto prazo. Sempre haverá a possibilidade de um garoto, cheio de minhoca na cabeça, começar a postar no Blogger ou no WordPress. Sem uma atitude despótica e irresponsável de algum Napoleão da Praia Vermelha, a liberdade desse universo seguirá, firme e forte. Contra qualquer tendência de organização. Mas nunca é demais lembrar que o Brasil é, por excelência, o país da canetada. Atitudes despóticas e irresponsabilidade estão longe de nos serem estranhas.
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15 comentários sobre “A mesma bagunça de outrora

  1. eduardo disse:

    Texto interessante… estou longe de ganhar algo com os meus blogs. Acho muito legal saber que há pessoas gonhando e fazendo o que gosta.

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  2. Oº°'¨ Jefferson ¨'°ºO disse:

    Esse desejo primitivo que o homem tem de se socializar, de conhecer as opiniões de outros e tornar as suas conhecidas, é algo que evolui desde os primórdios.Das pinturas nas cavernas, nas pirâmides, em papiros, depois papel, e agora em bits, fazem parte desse mesmo desejo de interação. Afinal, os blogs não fariam tanto sucesso se fossem offline.

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  3. imperFeiçÕes meticulOsas disse:

    – se tiver a oportunidade não volte a São Paulo mesmo :)-e esse mundo enorme e infinito da internet esta te dando dinheiro??eu quero tb o/

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  4. Donizetti disse:

    Como sempre uma análise precisa… Gostei também do paralelo com a história da imprensa na França. O fato é que é absolutamente importante que estejamos espertos com as canetadas tão comuns neste país.

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  5. Rose disse:

    Muitas vezes acho que ninguém lê o que eu escrevo no meu blog. Mas, acredite Paulo, só o fato de estar escrevendo já me dá prazer. Acho que é isso no fundo o que importa mais.

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  6. Mr. Whyke disse:

    Valeu pela visita lá no blog, mas fiquei até perplexo, como que alguém que escreve tão bem e com idéias tão interessantes foi parar lá, pois mesmo que eu também fique perplexo de como alguém pode conseguir dinheiro expondo sua vida pessoal; no meu blog só existem futilidades hehe nada sério….

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  7. Fabrício Brandão disse:

    Texto lúcido, meu caro. E olha que tenho pensado muito sobre o assunto. Realmente, a blogosfera é a nova camada da terra. Eu, por exemplo, faço parte da vontade de “dar certo” dessa nova sociedade. Relevando certas dificuldades e bobagens mil encontradas pela caminho virtual, vou seguindo, acreditando num lugar útil da palavra, seja fora seja dentro da alma de alguém.Abraços de um colega de ofício!

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  8. Anonymous disse:

    Hum… aquele lá em cima deve ser o seu cantinho… E a caneca de café, espero?Pas mal, hein?Se depender de minhas leituras no seu blog, ficarás rico meu caro…Abraço!

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  9. Paulo Villela disse:

    A internet é muito dinâmica e está em constante mudanças.Os blogs se tornaram ferramentas importantes seja para trabalho, comunicação, divulgação, lazer e socialização.Segundo numeros do technorati, são mais de 55 milhões de blogs, este é um universo, a ‘blogosfera’.Mas como usá-lo, isso dependerá do objetivo de cada um.

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  10. Gabriela Simionato Klein disse:

    Cada vez que venho aqui gosto mais. Gosto da “conversa”, mesmo que entrecortada. Gosto do acesso ao mundo inverso. Gosto também de pensar sobre este mundo que me atrai tanto (o dos blogs) e o que eles representam. Adorei a analogia que vc fez com o passado. Agora preciso digerir! Obrigada.

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  11. Vi disse:

    Bem, se és um dinossauro dos blogs, apresento-me: Muito prazer: mitocondria.Valeu pelas reflexões. Voltarei mais vezes.Ah! E obrigada pela visita.Abraço.

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