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O duro ofício de salvar angiospermas

Flores+saturadas
No meu último texto, aquele mal-humorado, mencionei umas certas flores que estavam à beira da morte. Enganadas pelas altas temperaturas do início do mês, ousaram nascer em março e quase pagaram com a vida quando viraram os ventos da Fortuna, isto é, do Atlântico.

Hoje, essas flores são o centro das minhas atenções. De maneira geral, não tenho mais do que reclamar. Foram-se embora, oxalá para sempre, o frio e o granizo. Atrelados a eles, as Eríneas da depressão e da agressividade. O céu de um azul monótono e ofuscante que inaugurou a segunda-feira devolveu o ar aos meus pulmões e as pessoas às ruas. Abro a janela diante de minha mesa e me ponho a trabalhar, estudar e escrever, enquanto acompanho o fluxo bucólico da vida alheia. Se fico cansado, enfio no bolso a já célebre câmera furreca e me despacho para a cidade. Registro pequenas cenas, as folhas nascendo nos galhos, os canteiros se enchendo de cor.

Há, porém, esse pequeno contraponto à minha alegria. As flores. Passaram, as coitadas, duas semanas trancafiadas no apartamento. Sufocante já para mim, imagine para elas. Cheguei ontem em casa, alegre com as paisagens exteriores. Ao dar com as flores, fui tomado de comiseração. Espero viver muitas décadas ainda, mas elas são filhas da primavera. Guardam-se em forma de esporos e sementes durante os meses de inverno, nutrindo apenas a esperança de um Abril que tarda a chegar. Que espécie de monstro serei eu, se as deixar perecer justamente no auge de sua glória potencial?

Confesso que nunca tive grande intimidade com vegetais domésticos. Primeiro, porque vivia em São Paulo. Mesmo assim, meu apartamento de infância vivia cheio de bromélias e azaléias, sob os cuidados apaixonados de minha mãe. Não posso dizer que herdei essa habilidade. Morando sozinho, a única planta que possuí foi uma miniatura de samambaia. Mas sua vida foi mais curta do que se poderia esperar, porque o único espaço disponível ao ar livre era uma mirrada varanda que dava para o Minhocão. Aquele mesmo, o terrível. Acreditem, todas as lendas sobre o monóxido de carbono são verdadeiras. Pelo menos para o organismo das plantas.

Já em Paris, fui diversas vezes intimado a comprar pequenos vasos de flores para enfeitar o lar. É evidente que, em dezembro, no escuro, no frio, a idéia serviu apenas para fornecer um quadro dramático da finitude da vida. E para jogar dinheiro fora, naturalmente. Decidimos, portanto, que só valeria a pena investir novamente quando chegasse a época de deixar os pequenos seres expostos à janela. Aliás, os canteiros floridos estão em quase todos os parapeitos da cidade; Em mais umas semanas, estarão lindos. Espero poder fotografá-los, para publicar neste humilde espaço (que às vezes é para olhar sem ler, também).

O engodo da primavera precoce nos levou ao erro, à desmesura trágica, de antecipar a compra das flores. Receberíamos em casa alguns amigos, era fundamental que o lar estivesse à altura. Fui à loja e escolhi dois pequenos vasos, um de hortênsias, o outro de maria-sem-vergonha. São essas que, nos últimos dias, estiveram cabisbaixas, moribundas, implorando meu auxílio.

Não me fiz de rogado. Penso nessas flores o dia todo. Coloquei-as do lado de fora e as reguei. Depois de algumas horas, vi que o sol já as abandonava; empurrei-as para o último canto iluminado. Arranquei as folhas secas. Lembrei-me do hábito que têm os bons jardineiros de conversar com suas plantas. Longe de ser uma mania, é uma prática que defendem com veemência, ensinam e exigem de seus seguidores. Resolvi colocá-la em prática. Digo às flores que estou torcendo por elas. Que confio em sua capacidade de recuperação. Se necessário, não hesitarei em me inspirar nos manuais de auto-ajuda: “Vocês conseguem! Vocês são vencedoras!”

Hortensias+para+fora
Minha mulher apoiou a iniciativa, mas manifestou uma preocupação tipicamente brasileira. Perguntou se não havia risco de roubarem nossas plantinhas. Haver, há. Mas quem vai querer se apropriar de flores à beira da morte? De qualquer forma, o momento é de desespero. Não há alternativa. Só o sol salvará, só o sol salvará. É necessário deixá-las expostas. A todo custo.

À noite, recolho-as, porque as madrugadas ainda são frias. E dou-lhes mais alguns goles de água, acompanhadas de palavras doces e confortadoras. De manhã, acordo ao primeiro raiar do sol, abro novamente as janelas, exponho minhas pacientes e, contente de ter cumprido um dever, volto à cama, para mais duas ou três horas de sono.

Se terei sucesso, não sei. Mas os prognósticos são bons. Por baixo das pétalas esmaecidas, posso observar que já brotam novos botões. Ainda tímidos, é verdade. Principalmente na maria-sem-vergonha. As hortênsias ainda inspiram cuidados. Mas meu esforço já teve alguma recompensa. As folhas, também constatei, estão mais verdes e erguidas. Esses indicadores me enchem de esperança. Será que também devo comprar terra?

Sei que ainda há muito trabalho pela frente. Angiospermas são um grupo de pacientes muito delicado. Qualquer erro pode ser fatal, é necessário agir com muita prudência. Água em excesso pode matar. Em falta, mais ainda. Sol forte queima. Olho nos termômetros, porque qualquer nova variação de temperatura selará a morte desses seres coloridos, a quem me afeiçoei sem querer. Seria um golpe muito duro.

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12 comentários sobre “O duro ofício de salvar angiospermas

  1. clarice disse:

    Paulo, estás procedendo com as flores como procedes com tua escrita… cheio de cuidados. Acredito que elas te recompensarão com lindas flores, no momento certo. Mas se isto não acontecer, ainda assim, deixarão o ensinamento que a vida é efêmera para tudo e todos. Me atrevo a aconselhar a troca por um vaso maior com terra bem nutrida. Se o fizeres tenha o cuidado de transferí-las junto com a terra onde estão sem ferir suas raízes. Abraços meus

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  2. Mr T. disse:

    Não conheço as idéias de Kuhn ainda, de qualquer forma não tenho muitas simpatias em relação ao Dawkins, apenas usei a idéia do meme para exemplificar. De qualquer modo, valeu pela dica, vou dar uma pesquisada sobre Kuhn.

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  3. Lunna disse:

    Visitas vespertinas para ler sobre tuas flores queridas… As flores lembram-me sempre da singularidade da primavera…E o outono suspira as sensações que sempre ficam quando a gente recorda a primavera… Há flores fora de época para tornar essa saudade mais latente…Abraços

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  4. Dani disse:

    O que acontece na Europa, que somos acometidos com essa súbita necessidade de fotos, bloquinhos Moleskine e plantas? Alguém pode me dizer?

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  5. Neanderthal disse:

    Oi, achei voc~e através do blog da B. A imagem da obra de Magrite no seu perfil chamou minha atenção. Curte Foucault?Ví também comentário do T sobre um tal Kuhn. Ele se referia a Thomas Khun???Já li esse “cara” na faculdade!Isso é coisa de filósofo!!!No mais, o bom da Europa é que as estações do ano são bem definidas. Aqui no Rj eu só conheço o verão e algumas oscilações esporádicas do tempo!Eu curto muito cuidar do meu jardim. Infelizmente, não tenho mais tido tempo de cuidar deles… Já se foi a época em que eu podia me dedicar asalvar as plantinhas!Um beijo e gostei daqui…

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  6. Lu disse:

    A delicadeza, Paulo, está nas mãos que cuidam… dessa forma, a vida há de vencer, se não nesta, em outras estações.Abraços.

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  7. Oº°'¨ Jefferson ¨'°ºO disse:

    Quem sabe o seu dedo verde (Tistou les pouces verts) ainda não esteja plenamente desenvolvido, hehe.Valeu pela visita.Só espero que o “Ex-São Paulo” não seja o time, kkkk.Abraços.

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  8. Ana Carolina disse:

    Conheci o seu blog ontem, começei a ler e estou gostando muito.Também adoro cuidar das minhas plantas e poder acompanhar os resultados, olha, é uma luta árdua, mas vale muito a pena. Depois de muito tempo descobri que, pelo menos as que tenho em casa, não podem ser regadas sempre, no máximo duas vezes por semana é o suficiente, como não sabia estava quase matando as pobres afogadas… Abraços e parabéns pelos seus posts.

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  9. Pingback: Para falar das flores | Para ler sem olhar

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