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A face oculta da primavera

Foto: Eu.
Torre+frio+sepia(Primeiro relatório: por enquanto, tudo bem. Ainda não sumi deste espaço, nem quebrei nenhum membro. Não fui à bancarrota, pelo menos em definitivo, nem fui deportado. Logo, a maldição do gato preto não teve efeito sobre mim. Até agora, claro. Menos mal. Eu, um; forças ocultas, zero.)

Muito pelo contrário. Parece que meu problema é com o perfeitamente visível. O céu, quero dizer. Tenho uma preferência bastante acentuada por vê-lo azul. Redundante? Sem dúvida, mas é a pura verdade. E às vezes a verdade é, mesmo, um pouco óbvia. Sou movido a tempo bom, ou melhor, a calor. Na verdade, sou um exemplo de pessoa ecológica: meu combustível é o sol.

Nas últimas semanas, comportei-me como aqueles suecos e americanos que desembarcam pela primeira vez em Copacabana e descobrem a luz, o mar, a areia fina e os biquínis cavados. Como eles, fiquei louco. Saía, estonteado, pelas ruas, apontando minha câmera (aquela, a furreca) em todas as direções, alegre, sentindo o cheiro das flores e espirrando com o pólen. A diferença para os gringos de Copa é que eles usam camisetas floridas e apanham insolação, algo que certamente não me acontecerá, pelo menos até julho. No mais, estive no mesmo espírito pueril. “Vivam as mulatas”, dizem eles. “Viva a primavera”, digo eu.

Mas este não será um post alegre, lamento constatar. A primavera, a verdadeira, por quem tanto eu esperava e que ousei anunciar antecipadamente, finalmente chegou. Com ela, veio a neve. Neve? Não aqui, claro. Em Paris, não tem dessas coisas. Mas em todo o entorno, sim. Muita. A França primaveril está em alerta de nevascas e avalanches. Caminhões tombam nas estradas. Desabrigados encontram a morte. O tempo ameno, anunciam os ventos, terminou de vez. Hoje é o primeiro dia do horário de verão, mas só percebi a mudança porque cheguei atrasado a um ensaio.

Pegos de surpresa (pelo frio, não pelo horário), os cidadãos desta capital se puseram a cair doentes a um só tempo, como numa versão reduzida da gripe espanhola. Meu Deus, como estou sendo dramático! Mas isso é inevitável sob o jugo do General Inverno, esse grande discípulo de Sun Tzu que tem no currículo vitórias esmagadoras sobre Napoleão e Hitler. Fui vencido, deixei-me cair na armadilha. O inimigo se escondeu da minha vista. Crédulo, deixei de lado os casacos e cachecóis. Pois logo que me viu desguarnecido, saltou sobre mim o ardiloso guerreiro, e me derrubou.

Estou aniquilado, mas tenho o consolo de não ser o único. O efeito do clima sobre as pessoas é digno de um estudo antropológico. Já naturalmente truculentos, os vizinhos aqui da cidade estão arrumando briga até com hidrante. Recomendo não perguntar nada na rua, mesmo a alguém usando um colete com a inscrição “Informações”. A resposta será invariavelmente um grunhido, com o sentido de “Que é? Não vê que o tempo está feio?”. Os cariocas gostam de dizer que sua cidade é triste quando o tempo está ruim, porque as belezas se escondem. Para entender a melancolia desta semana em Paris, multiplique o baixo-astral carioca por mil.

O clima é de depressão generalizada. Os piqueniques sobre a grama, típicos desta época, foram substituídos por longos finais de semana debaixo da colcha. As bicicletas desapareceram. Mesmo os adolescentes que, duas semanas atrás, gritavam diante de minha janela e não me permitiam dormir, onde estão? Puf, sumiram. Por falar em janelas, as flores que comprei para enfeitá-las não resistiram à queda da temperatura. Estão esquálidas. Melhor elas do que eu, mas não sei se agüento mais uma semana de estalactites nas pálpebras.

Meu moleskine, que carrego sempre no bolso interno do casaco, há tempos não vê o dia. Eu poderia dizer que também ele quer se proteger dos ventos árticos. Mas seria uma metáfora idiota. A verdade é que tenho sempre as mãos nos bolsos, para reforçar as luvas acolchoadas. Não as tiro de lá por nada. Bom, se o segredo da existência se revelar de repente…

Mas isso não vai acontecer. Certamente não debaixo do frio, que paralisa toda minha vida. Congela-a, em suma. Meus planos de conhecer as florestas próximas foram adiados. Meus estudos seguem em ritmo lento. A louça se acumula. O blog silencia. Estou convencido de que não conseguirei boas notas, o trabalho não virá, o dinheiro acabará. Quando o tempo está ruim, tudo aponta para baixo. Por exemplo, não duvido nada de que a eletricidade, e com ela a internet, seja cortada antes que eu termine este texto.

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18 comentários sobre “A face oculta da primavera

  1. Cristiana Soares disse:

    Paulo, vc é um fofo.Sobre os óculos, vejo que os preços são igualmente altos, aqui e aí. E quanto maior o grau, mais caro fica. Ainda mais quando escolhemos lentes especiais que disfarçam a grossura dos fundos de garrafa.No meu caso, é um investimento que vale a pena. Paguei em cinco vezes sem juros.Seu blog é muita bacana. Entre outros, gostei do texto do francês reclamão-de-barriga-cheia.Assim que entrar nos bastidores do meu blog, vou linká-lo.

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  2. Andrea disse:

    Paulo, achei muito bonito o seu blog os textos…as imagens…a homenagem aos seus amigos.Aqui estamos vivendo um dia típico de primavera, eu aprendi a valorizar a Primavera depois de um longo inverno.Quanto ao resto, fique tranquilo pois há tempo de plantar, de colher e a vida se transforma diante dos nossos olhos como um milagre, quando na verdade é apenas o ciclo da vida.Parabéns pelo blog !

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  3. Raísa disse:

    Você conseguiu terminar o texto!!veja só, o tempo não está tão ruim assim, enfim, vc se encontra em Paris!!no mais, se acredita mesmo nessas coisas desejo boas energias então…aqui no cerrado (goiás) faz tanto calor, que às vezes impede até de pensar…exagerei né?de qualquer forma, melhor o frio…ele congela!um abraço e sucesso pra vc!

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  4. Fran disse:

    delícia de texto, delícia de idéias, delícia de blog, paulo!bom, eu acho que tempo feio em qq país da europa é um caos. a europa é linda no verão e na primeira. quer dizer, nas autênticas primaveras. no inverno, a vida torna-se mais dura mesmo, até em paris!antes de se suicidar, vc tem uma saída: pode arranjar uma parisiense bemmmmmmm interessante pra colocar dentro do seu studio! tenho certeza que sua primavera se tornará inesquecível. huahuahua.PS: linda a foto!!!

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  5. Anonymous disse:

    Epa!A patroa BRASILEIRA já mora no studio… Também está morrendo de frio e aquece o blogueiro há quese três anos… Mas o frio que ameaçou ir embora e voltou com tudo é desanimador e paralisante. Esperamos que a Primavera deixe de ser rebelde, chegue em breve, e faça o favor de obedecer o calendário!

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  6. Celinho disse:

    O tempo esta louco em todos os lugares e garanto que o Verao vai valer a pena (sera?rs). Mas em Paris neva sim, nao sempre pq ela derrete sempra mais rapido no meio do calor do cimento de Paris, mas cai sim e fica lindo!E depois de morar em Sao Paulo, Porto e Paris, a gente aprende a ver beleza mesmo num dia de chuva.. Alias, as flores ja começam a aparecer(as que resistem ao frio tardio..rs)Abraço!

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  7. Celinho disse:

    Ah, so uma observaçao para o post do mamao de ouro: experimentem ir ao Tang, no 13eme. La tem frutas baratas e exoticas para o padrao parisiense e alem disso da para descobrir zilhoes de coisas novas para comer que nem fazemos ideia do que sao! 😉 Recomendo!

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  8. Angela Carolina disse:

    Veja o lado bom, vc está em Paris! Tente tirar proveito de td o que puder, não sei se é pq vivo na filial do inferno onde o dia mais frio faz 35 graus, eu amo o inverno, então pagaria pra passar uns tempos num lugar como este aí! Experiência de vida é td! Beijos e seja feliz!

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  9. Gabriela Simionato Klein disse:

    Paulo,Sinto por vc. Meu estado geral descamba no inverno. Aqui, vivo já dois dias de intenso calor. Chicago ontem (domingo), estava apinhado de gente nas ruas. Aliás, lá vou eu para o meu sol (estes dias não duram muito aqui em março).Beijos solares e bom período de introspeçãoGabi

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  10. Bosco Sobreira disse:

    Meu caro Paulo,Li com raro prazer essa crônica saborosa. Saborosíssima, em termos literários. O …cheguei atrasado a um ensaio me aguçou a curiosidade: o que faz você aí?Muito obrigado, mais uma vez, pela generosidade dos comentários. Gostaria de sua permissão para abrir um caminho para seu blog lá no meu. Seria uma forma de presentear os amigos e amigas que me visitam.Forte abraço.

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  11. Dora disse:

    Paulo. Mas, que frio exagerado! Estive em Paris, em abril( há 10anos). Senti um frio danado, porque não levei roupa apropriada e achei caríssima a vida aí (grande descoberta! rs), então não comprei agasalho…rs Mas, a não ser pelos ambientes muito abertos, o resto deu prá “curtir”, com casacos leves…Nós, de países tropicais, somos avessos a essas temperaturas, não? Há casos de quem sofra de “depressão”, num clima frio, de céu cinzento.Amei seu texto e seu bom humor, mesmo diante do “contexto” pouco favorável!Bonne chance…daqui prá frente!AbraçosDora

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  12. Hygor disse:

    Muito bom seu texto, lamentável esse clima em Paris, mas também temos o que reclamar no Brasil. Muito quente aqui, principalmente em Natal. Abraço

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  13. Fugu disse:

    Como boa carioca, despenco na mais grave depressão diante uma sucessão de dias nublados … no Rio. Mas adoro a Paris esfriada e cinzenta. Lisboa também. Se a temperatura não estiver abaixo de zero, calço um par de botas, visto meu mantô deselegante e passo o dia andando pelas ruas, entrando em cada café, tomando um conhaque e indo em frente. Adoro isso! Mas, por aí, sou sempre turista e turista se diverte com tudo .. rsrsbeijo você.

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  14. Ciça disse:

    Mas amigo, a neve já se foi e a primavera está quase de volta. Por quanto tempo não se sabe, então vamos aproveitar enquanto podemos….

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