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O episódio do mamão de ouro

Laranjas

O cajá, que colhíamos no quintal de minha bisavó e ficava alguma horas espalhado sobre a mesa, para depois virar suco. As jaqueiras, que ladeavam algumas ruas no bairro de minha infância, cuja existência comecei a por em dúvida quando me dei conta do risco que representavam para carros, crianças e pedestres. A carambola, que eu fazia de nave espacial antes de engolir quase de uma vez. O umbu, que vinha do sertão baiano, ao qual jamais dei grande atenção. As jabuticabas, que colhíamos no pé, até voltar retorcidos de dor de barriga. As mangas, que comíamos sempre, e somente, com as mãos, de barriga para o ar.
São lembrança que se fazem acompanhar de sensações luminescentes. Saudade, carinho, uma certa leveza que associamos à infância – junto com as brincadeiras, as brigas, a inocência, a crueldade. Tantas frutas, nomes que cercaram minha realidade; caju, pitanga, graviola, acerola, caqui. Ao meu afilhado, em seu primeiro aniversário, dei de presente uma jabuticabeira, para que ele colha e coma à medida em que seus anos se empilharão. Ao meu pai, ofereci uma muda de carambola, uma de suas frutas preferidas, e minha também. Escolhi ambas cuidadosamente, ainda pequenas, para que o prazer de vê-las crescer se some ao de colher e provar dos frutos.
Poder esticar a mão e se apropriar de uma fruta para comer é um verdadeiro privilégio. Poder comprar mamões e laranjas por quilo ou dúzia também, ainda que menos pitoresco. Tomei consciência dessa enorme felicidade ao visitar uma amiga que já fincou raízes nesta célebre cidade, muito antes de me vir a idéia de passar cá uma temporada. Encontrei-a sentada na cozinha, pupilas brilhando, a venerar um mamão, desses que se compram em qualquer feira com um punhado de moedas. Era tocante a forma como seu olhar se deleitava com aquela fruta, antecipando-se à boca. Jamais, no campo da alimentação humana, um mamão foi tão admirado.
Perguntei-lhe se ela não tinha intenção de parti-lo. Ela se voltou para mim e manifestou uma sincera preocupação. “Será que está bom? E se estiver sem gosto?”
É verdade; às vezes os mamões vêm sem gosto, ou nós os abrimos cedo demais, ou tarde demais. Mas aquele não parecia verde. Pelo que sei dos mamões, estava no ponto. Repliquei que a única maneira de saber se o gosto era bom seria abrindo-o. Em suma, era necessário provar.
“Tenho medo de descobrir que está sem gosto”, ela repetiu. Seu comportamento começou a aguçar minha curiosidade. Se o mamão estivesse sem gosto, ou com gosto ruim, ou o que fosse, ora, paciência. Haverá outros mamões no mundo, queira Deus! Se algum dia se acabarem os mamões, espero já ter, eu mesmo, me acabado muito antes! E aquele mamão específico não era feito de ouro.
Foi então que ela, finalmente, me explicou o que tornava tão especial aquele exemplar, acima de todos os demais. Se não era de ouro, era quase: custara €4,00. Algo como R$ 12,00, talvez um pouco menos. Um único, bendito, mamão. Ela riu de meu espanto. Seu marido, um gaulês autêntico, mais ainda. E arrematou. “As frutas exóticas, aqui, são caras. Quem me dera viver num desses países onde, de tão comuns, as pessoas nem se preocupam em colhê-las!”
De repente, descubro que são exóticas todas aquelas frutas, aquelas memórias de infância, aquelas delícias de comer após o almoço. Por extensão, só posso concluir que sou eu mesmo um exótico. Para piorar, ele tem razão; as amoras mais altas do pé, eu não me dava ao trabalho de colher. Se soubesse o preço que elas teriam do outro lado do Atlântico, talvez abrisse um negócio. Falta de informação é um problema, mas o exotismo tem lá suas vantagens: as frutas.
Aberto, afinal, o mamão não estava sem gosto, mas tampouco valia o que custara. Enquanto o apreciávamos, com o cuidado que os alimentos de ouro merecem, retomamos o assunto das práticas alimentares. O exotismo voltou à pauta, enquanto o descendente de Gargântua elencava os pratos para lá de curiosos que provara em uma recente viagem ao Brasil. Feijão preto, couve, aipim – acho que ele se referia a uma feijoada -, acarajé. O churrasco em esquema de rodízio, como de praxe, foi o que mais lhe chamou a atenção. Que fartura! Esses países são, realmente, impressionantes.
Num determinado momento, fui exortado a contar de minhas novas experiências culinárias, eu que tenho o privilégio de poder provar in loco da estupenda, inimitável culinária francesa. (Não foi à toa que usei esses adjetivos hiperbólicos. É uma simples tentativa de reproduzir o que me era esperado responder sobre a cozinha local. Uma qualificação ligeiramente menos entusiástica arruinaria o fim-de-semana do casal. E esfriaria irreversivelmente nossas relações.)
Comecei a buscar na memória algumas coisas que provei nesses meus meses de França. Lembrei-me do escargot, que custa uma fortuna e não passa de um caramujo com azeite (mas é uma delícia, não posso negar). Lembrei-me também das trufas, mais caras ainda. São fungos do tamanho de uma batata, que nascem debaixo da terra, não se sabe como, nem quando, e só são encontrados por porcos farejadores. As rãs, que são caçadas com a ajuda de uma lanterna que as paralisa, e cuja pele sai inteira, de uma vez só, quando puxada corretamente. Os cavalos, que até hoje não sei se são potros ou velhos, imprestáveis para os passeios das condessas. (Sim, aqui se comem cavalos, qual é o problema? No Brasil, comem-se abacates!)
A grande arte culinária da França consiste em tornar extraordinariamente elegantes as iguarias mais inusitadas, vez ou outra repelentes. Nada mais venerável do que o famoso foie gras, ou seja, o fígado estourado de gansos ou patos alimentados à força. Falando em patos, se tem uma coisa que não quero saber como é feita, chama-se andouillette; disso, tenho trauma. Só sei que, depois de prová-la, repensei meu asco de orelha de porco ou língua de boi.
Não sou um grande entendido em gastronomia, mas o episódio do mamão de ouro chamou minha atenção para o conceito de exotismo. Os brasileiros recebemos as novidades e as diferenças culturais com mais facilidade, sem dúvida. Talvez seja nossa natureza antropofágica, ou reflexo das imigrações e de das nossas próprias diferenças internas, ou ainda uma faceta do nosso complexo de vira-lata. Mas isso não significa que o conceito nos seja inteiramente estranho. Particularidades de povos asiáticos e africanos nos soam tão exóticas quanto as nossas soam aos europeus.
Eu, por exemplo, acho escandaloso que os indonésios fritem insetos e os mastiguem como amendoim. Ou os coreanos, que refogam cães, os mesmos poodles que as madames levam para tomar banho no pet-shop. No Nepal, o nosso bom e velho miojo (na verdade, lámen) é comido cru, no cinema, como se fosse pipoca. Por mais universalista que eu tente ser, não consigo considerar nada disso normal. Que o francês tache de exóticas nossas frutas, tudo bem. Mas responda com honestidade: o que parece mais insólito, comer jabuticabas e pitangas ou fungos e caramujos?
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6 comentários sobre “O episódio do mamão de ouro

  1. Anonymous disse:

    A culináia brasileira é riquíssima e maravilhosa, não vejo nada de exótica nela… Seu texto é muito bom, como sempre, e dessa vez teve o poder de dar fome…Suplementos Culinários: dêem a esse Paulo Osrevni um emprego urgente, s’il vous plaît!!!!!

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  2. Blog do Beagle disse:

    Paulo, nem imagino como vc tenha me achado na blogosfera. Gostei de sua visita e estou retribuindo, com meu beagle nos meus calcanhares, é claro. Adorei esse texto e lhe digo que costumo passar a unha na casca do mamão para sentir o aroma e então saber se está bopm para ser degustado. Tente e ensine para sua amiga. Posso voltar? Seu espaço é delicioso. Bjkª. Elza

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  3. Gabriela Simionato Klein disse:

    Mandei por e-mail, mas como voltou:Nossa, teu blog tá uma delícia. Gosto muito quando vc dá um tom irônico ao texto, quando fala de lembranças para comentar experiências atuais, quando transforma fatos do dia em análises mais profundas da própria humanidade. Muito bom! E boa temporada em Paris

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