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Estrasburgo, cidade de união e guerra

P%C3%A1ssaro+e+torre

Quem parte de trem da Gare de l’Est, em Paris, vê aos poucos os antigos prédios à la Haussmann ficando para trás, substituídos pelos campos de Champanhe e as vilas das Ardenas. Ali, a França é mais França; é celeiro de pães, vinhos e queijos típicos. Essas paisagens não demoram mais de um par de horas para mudar inteiramente. Os telhados das casas se tornam mais pontiagudos, a arquitetura das igrejas escurece, as vilas se adensam. Os nomes das estações em que o trem pára quase nada têm de franceses.
Estamos na Lorena, ou Löthringen, como se chamava a região quando fazia parte do Sacro Império Romano-Germânico, que, segundo Voltaire, não era sacro, nem romano, nem império. Só germânico. Mas as mudanças ainda não acabaram: o trem sobe pelas escarpas dos Vosges, cujos pinheiros mais altos estão cobertos por uma fina camada de neve. Na descida, chega-se à Alsácia, uma 2+torres+e+lumin%C3%A1riadas regiões mais extraordinárias deste extraordinário continente, que esteve no centro da terrível história de conflitos que marcou os últimos 400 anos de sua história.
Em 1648, o cardeal Mazarin regia a França em nome do pequeno Luís XIV. Ao que parece, os clérigos franceses (esse, particularmente, era italiano) são ótimos em política externa, melhores do que os reis e presidentes. Assim, por ocasião da Paz de Westfália, que pôs fim à Guerra dos 30 anos, o esperto cardeal aproveitou para passar a mão numa pequena área fronteiriça com o que era na época o tal império germânico, conhecida hoje como Alsácia (Alsace em francês, Elsass em alemão e no dialeto local). Desde então, a pequena e bela região em torno de Estrasburgo (Strassburg em alemão, Strossburi no original, Strasbourg em francês) foi república independente, foi Alemanha e foi França, que é seu estatuto desde o final da Segunda Guerra Mundial. (A cidade, em si, só foi incorporada à França duas décadas depois do tratado.)
Cidade nenhuma poderia ser melhor escolhida para sediar o Conselho da Europa e o Parlamento Europeu. Após mais de três séculos pendendo entre alemães e franceses, Estrasburgo, a cidade-encruzilhada, segundo a etimologia alemã do nome, não perdeu suas características mais marcantes, que revelam o passado turbulento. Um ar medieval, a arquitetura germânica em estilo enxaimel, o dialeto, herdado da antiga tribo allamani e ameaçado de extinção.
Nada de baguetes, nem cafés de esquina, nem bulevares. Ao contrário do resto do país, lá é possível sair de um restaurante plenamente satisfeito, após devorar um chucrute com salsichas e cerveja. Estrasburgo, a menos de vinte quilômetros do Reno e da fronteira alemã, guarda todos os traços de sua confusa história. O centro antigo consiste numa ilha delimitada pelos canais do rio Ill, afluente do Reno. Em suas ruas estreitas, livreiros francófonos, monumentos germânicos e uma divisão quase perfeita entre igrejas católicas e protestantes. EsAntigo+e+modernotrasburgo, como todo o continente, também sofreu com guerras religiosas nos séculos XVI e XVII, mas foi uma das primeiras cidades a encontrar a solução na convivência pacífica e tolerante; na entrada da região central, a igreja Saint-Pierre-le-Vieux, de arquitetura românica, se divide em um templo católico e outro protestante, lado a lado.
Para o turismo histórico, é quase a cidade perfeita. Sua catedral é uma das mais belas do período gótico, embora a construção tenha começado no século XI e a conclusão (só uma torre foi erguida, das duas planejadas) seja obra do século XIX. Sua coloração rosada é típica do gótico tardio alemão, bem como a torre alongada e as efígies de antigos imperadores. No interior, um célebre relógio astronômico que atrai turistas aos milhares, com autômatos que representam as idades do homem, figuras que simbolizam os signos do Zodíaco e um porte imponente.
Ao redor, o centro antigo, que dispensa apresentações: é a primeira região urbana a ser inteiramente considerada patrimônio da humanidade pela Unesco, e com razão. Trata-se de uma ilha que concentra edificações belíssimas, desde casas medievais até palácios neoclássicos. O sofrimento histórico resultou em um patrimônio invejável: Estrasburgo viveu o Renascimento alemão e o barroco francês. A notar, especificamente, a Maison Kammerzell e a Ancienne Douane.
Atravessando as pontes do centro antigo, pode-se visitar a Petite France, assim chamada porque era o baCatedral+1irro da prostituição e, portanto, da sífilis. Ora, como todos sabiam naquela época, prostituição e sífilis eram coisa de franceses. Interessante é o fato de que, depois de tomar posse da região, os súditos de Luiz XIV não tenham se preocupado em alterar o nome do bairro. 
Mais adiante, vêem-se as quatro torres de pedra que guarneciam a entrada da cidade na Idade Média, entre as chamadas Pontes Cobertas, mas descobertas pelo tempo. É possível contemplá-las da barrage Vauban, uma ex-represa que abriga dezenas de esculturas das igrejas destruídas pelas guerras. Amontoadas, as belas figuras de pedra imploram por uma restauração.
Não vou falar dos museus, teatros, óperas, do Parlamento Europeu. Acabaria produzindo um livro. Prefiro voltar à história; viajando para o lugar, é fácil observar os pontos turísticos. Mais difícil é descobrir o peso que eles carregam. Essa cidade, fundada pelos romanos para manter longe os bárbaros, sediou também a aurora da Idade Média. O Juramento de Estrasburgo, que dividiu entre os três herdeiros o império franco de Carlos Magno, é o berço comum da França, da Alemanha e de seus respectivos idiomas. O documento, em latim e nos dois então dialetos regionais do império, é considerado o primeiro texto escrito em ambas as línguas. Como se vê, esses países que tanto brigariam são, de um ponto de vista genético, um só.
Mas a Alsácia é uma prova de que a união de sangue não basta para garantir a paz. Tomada pelos franceses no século XVII, voltaria ao meio germânico após a guerra Franco-prussiana de 1871, que marcou o surgimento da Alemanha como nação unificada. Nada teria acontecido, não fosse a irresponsabilidade de Napoleão III, “O Pequeno”, segundo Zola, que não aceitCisnes+2ou os termos de rendição originalmente impostos por Bismarck, exigindo um pequeno naco do território colonial do vizinho derrotado. Após o cerco de Paris, episódio traumático para os gauleses (ainda hoje conhecido como La Défaite), a derrota era ainda mais inevitável e o butim, muito maior: o Kaiser não aceitaria menos do que toda a Alsácia e toda a Lorena.

Assim ficaram até a 1a Guerra Mundial. A derrota alemã devolveu à França ambos os territórios, num episódio celebrado por um famoso discurso de Georges Clemenceau, primeiro-ministro à época. Foi uma atitude irresponsável, porque esqueceram de pedir a opinião dos habitantes das duas regiões, que jamais haviam manifestado, em suas eleições locais, qualquer vontade de retornar ao seu antigo país. Somado a outras cláusulas injustas do tratado de Versalhes, que encerrou a guerra, o episódio contribuiu para precipitar o segundo conflito, duas décadas depois, em que a Europa e o mundo inteiro estiveram à beira do colapso, e a Alsácia esteve novamente em mãos alemãs.

Todo o sangue derramado pela sua posse atesta a riqueza da região. Acredita-se que Gutenberg possa ter desenvolvido a prensa em seus arrabaldes. A Marselhesa, hino francês, foi composta dentro de um dos prédios da cidade antiga. Mozart tocou no órgão de uma das igrejas. Hoje, a Alsácia é uma das regiões mais industrializadas da França, talvez pela proximidade com o mercado alemão. A cegonha, símbolo daquela terra produtora de um vinho muito apreciado, pode ser vista nos desenhos do artista local mais famoso, chamado Hansi. O desenhista, apesar do nome claramente germânico, era um francófilo renhido, que representava sempre sua cidade coberta de bandeiras em azul-branco-vermelho.

Torre+medieval+1

Foi inaugurada no ano passado uma linha de TGV naquela direção, provavelmente a última das áreas mais importantes da França a ser contemplada. Quem tiver interesse em conhecer a Alsácia e o Sudoeste da Alemanha na primavera, que é provavelmente a melhor época, pode aproveitar a nova e veloz oportunidade. É a melhor época para ir: o povo de lá tem um gosto especial pelas flores, que transbordam de todas as sacadas a partir de abril.
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9 comentários sobre “Estrasburgo, cidade de união e guerra

  1. tina oiticica harris disse:

    Aprendi um monte de factóides qu desconhecia. E sempre me referi à região como Alsace-Lorraine. Não sei por quê.

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  2. Anonymous disse:

    Bom, você tá bem Napoleão da literatura, hein? Escreve sobre tudo e maravilhosamente? Suplemnetos de Viagem do Brasil, fiquem atentos!!!!

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  3. Anonymous disse:

    🙂 Lindas, as fotos. Amei Estrasburgo, cidade linda. Voltarei pra ler tudo com mais calma depois. Baixei aqui sem querer… Já indo dormir. k

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  4. Alex disse:

    Muito legal. Parabéns. Além da aula sobre a história da região ajuda a esclarecer um pouco mais as pessoas que desejam viajar e conhecer a cidade.

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  5. maria do carmo aires disse:

    olá
    sou professora e gostaria de levar os meus alunos a estrasburgo, no entanto estou um pouco perdida para organizar a viagem
    será que me podiam ajudar

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  6. TYTA disse:

    ESTOU APAIXONADA POIS É A CIDADE DO MEU AVÔ NUNCA VISITEI POIS MORRO NO BRASIL MAS UM DIA SONHO EM VISITAR .
    UM ABRAÇO. TYTA.

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