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O dia em que fui apresentado ao mundo

Semfoco
No dia em que fui apresentado ao mundo, eu voltava para casa cansado e distraído, pensando com afinco na morte da bezerra. Acho que calculava alguma tolice: o espaço entre o trem e a parede ou o horário do pôr-do-sol, qualquer coisa assim. Quando enfim chegou o metrô, encaminhei-me para a porta na intenção de abri-la, os dedos estendidos mecanicamente para a maçaneta, como um parisiense nato. De dentro, porém, tinham-se adiantado a mim. A alavanca moveu-se sozinha e a porta foi aberta de um golpe. O estrondo me fez erguer os olhos, e eis que tomei um susto memorável, aquele que me apresentou ao mundo.

À minha frente, uma figura lisa e negra, pouco mais baixa do que eu, mas sem feições, verdadeiramente indeterminada. Uma mancha de breu constituída de algum material que custei a identificar. Uma representação, como naquele breve instante cheguei a imaginar, da morte, ali para buscar minha triste alma condenada. Mas essa idéia foi efeito do susto. A figura, na verdade, encarava-me apenas com um misto de pudor e enfado. Só queria que eu me apartasse de seu caminho e a deixasse descer para a estação. Fitava-me, essa assustadora criatura, de trás de uma tela que lhe deixava entrever um par bem feito de olhos escuros e de uma humanidade inesperada.

A julgar pelas grandes pupilas, a maquiagem e o mistério intencional daqueles olhos profundos, concluí que só poderia ser uma mulher. Minto… Não foi pelos olhos que julguei. Sei bem que era uma mulher. Mas a experiência foi arrebatadora: nunca antes eu estivera diante de uma burca. Xadores, sim, já vi centenas; nesse mesmo dia, estive observando a maneira engenhosa como são atados, com o auxílio de grampos enfeitados e dobraduras complexas. Burca (e que não me obriguem a escrever burqa), ainda não. Posso atestar que é marcante.

Digo que fui apresentado ao mundo nesse dia porque a burca é tomada com freqüência por um símbolo dos maiores vícios contemporâneos. É a imagem do extremismo encarnado na submissão da mulher, da mesma maneira que o neo-nazismo representa um renascimento das doutrinas de pureza racial (ou nacional), que se criam mortas, e os neo-cons americanos revelam que uma teocracia cristã não é uma idéia assim tão perdida na poeira da História. Na França, discussões intermináveis tentam determinar se a vestimenta radical, extrema, extremista, deve ou não ser proibida pura e simplesmente. Escolha complicada, mas reveladora da impressão que causa nas mentes à sua simples menção. Que dirá de sua aparição súbita, como me ocorreu no metrô.

Frequentemente, parece-me que vivo num mundo em que radicais têm o poder de interpretar leis à sua maneira, até subjugar povos inteiros e levá-los a concordar com a submissão. Sem querer soar irônico demais, isso vale para talibãs e ministros do STF igualmente. Mas o fato é que em países onde há fome endêmica, chefes onipotentes gastam todo seu orçamento desenvolvendo armamento nuclear. Ainda nesta nossa pobre Terra, a maior potência econômica se recusou por anos a evitar o colapso do planeta. Já no terceiro mundo, a espiral da violência é alimento de uma economia claudicante e corrupta, mas isso, todos já sabemos, não vale a pena repetir.

A simbologia da burca, acredito, faz muito sentido. Tenho a impressão de que todo radicalismo expressa desespero; é a reação a uma adversidade conjuntural, em que um mundo bem estabelecido parece se esfarelar diante dos olhos do indivíduo, esse pequeno universo tão desamparado. Adaptar-se é difícil. Fácil é escolher um dos dois caminhos extremos: de um lado, o abandono irrestrito, melancólico, niilista. Do outro, o radicalismo reacionário, negativo, incapaz de aceitar o câmbio irrefreável dos eventos. Entende-se. É duro ser sensato ao perceber a evidência de ser efêmero e contingente.

A burca se insere no segundo caso, claro. Ecoa vagamente o esfacelamento do último grande império do Islã, o Otomano, ao final da primeira Grande Guerra. A perda do derradeiro centro cosmopolita arrancou à cultura muçulmana seu senso de unidade e entregou vastos territórios, às franjas do antigo império, nas mãos de chefes tribais incultos e violentos. O Afeganistão, hoje capital da burca, tem uma história um tanto mais complicada, envolvendo soviéticos, americanos e um saudita.

Mas isso vale para populações inteiras, desprotegidas, abandonadas à tirania de pequenos e grandes déspotas. É triste, mas, de certa forma, normal. Como explicar, por outro lado, os olhos graves que me encararam no metrô de Paris? Mesmo sem ter visto nada senão olhos, sei que a mulher que os dirigia a mim é jovem, instruída e nada provinciana. Apressada, como é típico nos grandes centros urbanos, ela desceu do trem com a agilidade de quem está no auge da forma física e conhece o terreno em que pisa.

Por que, então, a burca? Por medo da família? Por falta de oportunidades fora da comunidade? Por convicção? Talvez seja apenas uma forma de afirmar uma identidade. Não quero aqui comentar o recente debate, em muitos países europeus, sobre a proibição dos véus islâmicos, sobretudo os que, como a burca e o nicab (ou niqab, para os chatos), cobrem todo o rosto da mulher. (Na Holanda, e agora no Reino Unido, a justificativa é que terroristas podem vesti-los para melhor disfarçar suas bombas. Na França e na Turquia, este último um país islâmico e antiga sede do já citado Império Otomano, recorre-se à laicidade do Estado.) O que me interessa é que a própria idéia do multi-culturalismo liberal do Ocidente está em jogo a partir do momento em que proibições e confrontos entram em cena.

A burca é um símbolo visível e impactante. Mas eu poderia perguntar, também, por que os cabelos raspados dos jovens altos, louros e bem alimentados; por que as jaquetas de couro negro, por que as calças apertadas, as tatuagens de caveira? A moda entre os rapazes cuja linhagem se traça até Carlos Magno é raspar todo o pelo do corpo. Barba, nem pensar. Tudo para potencializar a diferença em relação aos outros, árabes, negros, imigrantes, os peludos (peludos como… os heróis da Primeira Guerra, os “poilus”?). A reação desses últimos é proporcional: cultivam o cabelo da cara com dedicação crescente, claro.

A porta está claramente escancarada para as radicalizações. As vozes contrárias estão cada vez mais abafadas e desacreditadas. Cansadas, pelo menos. Assim como o velho império turco desmoronou, também está rachada a estrutura da decantada cultura humanista ocidental, se é que em algum momento ela chegou a se impor de verdade. O que virá disso? Não sei, mas a violência está inclusa, com toda certeza. E como vai acabar? Pelo visto, mal.

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9 comentários sobre “O dia em que fui apresentado ao mundo

  1. Dora disse:

    Muito bom seu texto. Discorre sobre a “burca” como a simbologia ambulante do radicalismo que se fortalece cada vez mais no planeta.Mesmo para mentes abertas é extremamente chocante identificar esse comportamento fundamentalista. É difícil compreender como é possível se “internalizar” de tal maneira idéias tão rígidas sobre diferenças entre povos.Tantos estudos científicos já comprovaram que o ser humano, negro, amarelo, branco, tem a mesma composição orgânica. Por que alguém, (ou grupos inteiros), se arroga o direito de ser o “certo”, o “melhor”, o “escolhido”…e por aí afora…? Em nome de Alá, de Maomé, de Jeová, de Cristo…?Radicalismo é sinônimo de ignorância, mas, vc mesmo constata que é uma atitude encontrada em pessoas eruditas, até…(Il y a un tas de choses à penser sur chaque phrase de ton texte…Donc, à nous, ses lecteurs, la tâche d´en penser…).Corrija o francês, sempre…rs Quando eu não sei, invento…Abração!Dora

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  2. MaxReinert disse:

    oi… o código foi criado a partir de um produto já identificado! Então, se me passar nas Lojas Americanas já sei o que vai sair! heheMuito bom seu blog, parabéns!Voltarei!

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  3. cesar ribeiro disse:

    salve pauloestou retribuindo sua visita ao meu boteco.gostei muito deste blogvou linká-lo okapareço mais vezes por aquiabraço

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