Uncategorized

Carnaval no cemitério

Créditos das fotos: Yo mismo!

Cobertura

Esta semana, recebi várias mensagens perguntando se aqui tem carnaval. Acho que esperam uma resposta direta: não, aqui não tem carnaval. É uma terra fria e triste em que as pessoas se guardam dentro de casa e só saem para ocupar as mesas dos cafés. Pois saibam que, sim!, no Dumas+com+frostbitecalendário das festividades está claramente designado o período do carnaval. Aqui tem carnaval!

Como é ele? Como aproveitá-lo? Simples: basta comprar uma passagem de trem para Veneza. Afinal, o carnaval cai justamente no meio das férias de inverno, a Itália não é tão longe, é menos fria e tem uma festa mais… animada.

É engraçado pensar que o carnaval pode chegar em pleno inverno. Dá para pensar em serpentina, confete, marchinhas, bailes e blocos numa situação em que a fantasia mNijinskiais criativa não dispensa cachecol e luvas? Para os foliões viciados que só voltam na quarta-feira e não tiram nem o sapato, resta uma opção: procurar seus semelhantes, pessoas com “know-how” da gandaia: bem entendido, outros brasileiros. Cheguei a propor a amigos a formação de um bloco, mas a idéia não avançou porque não baixou em ninguém o espírito de Zé Pereira. Pena, pena.

Para compensar o inverno inclemente, só o aquecimento global. É verdade que no ano passado ele não deu as caras e o frio foi respeitável. Mas desta vez ele brindou o carnaval com a temperatura mais alta de 2007: 15oC no domingo. Os locais são incapazes de se lembrar da última vez em que fevereiro esteve tão quente. E lá foram os foliões gaulesesPensador+cagado ocupar as calçadas dos cafés. Eu, aproveitando que as calotas polares ainda não sumiram de vez e, afinal de contas, é carnaval (ê, laiá!), resolvi sair da toca e passear um pouco.

O destino me levou ao cemitério de Montmartre, poucos passos abaixo da igreja homônima e não muito longe de casa. Antes que me condenem pelo sacrilégio, não levei repique, nem rebolo, muito menos meu cavaco. Levei, sim, minha mulher e uma máquina fotográfica que ganhei de brinde, bem furreca mas Zola+totalque quebra um galho. Por que Montmartre, e não os badalados Père Lachaise e Montparnasse? Ora, além de mais perto, este é menor, arborizado, acolhedor (creio) e tranqüilo. Não há hordas de turistas atrás da minúscula lápide de Jim Morrison, por exemplo.

Lá passei o domingo gordo, talvez num protesto inconsciente por não estar no Bola Preta ou no Farol da Barra, nem mesmo no Bar do Cidão. Em vez de batucada, enfiei-me no silêncio dos monumentos de pedra, guardando há mais de século as sobras dos clãs da alta burguesia.

Também é pouso para o poeta alemão Heinrich Heine, e o bailarino ucraniano Vaslav Nijinski, além de Stendhal, Berlioz, Truffaut… Zola, aquele que Heinrich+heineacusa, também esteve por lá, mas, depois que subiu de vida, mudou-se para o Panthéon. A sepultura, porém, segue intacta, em mármore rosado e encimada por um busto imponente. Fica provado que, no fim, não era bem um socialista.

Outra particularidade desse simpático jardim de descanso é que, um belo dia, resolveram construir um viaduto por cima dele. Tudo bem, é só um cantinho. Mas de grande ironia: algumas tumbas um tanto luxuosas ficaram espremidas debaixo do aço, e seus ocupantes, outrora ricaços da Place Vendôme, dormem (eternamente) debaixo da ponte. Por exemplo, o pensador da fotografia, que parece ter sido alguém importante, mas virou alvo dos pombos sacanas.

Em um determinado momento, senti que me flagrava em plena tietagem. É curioso: oDebaixo+do+viadutos famosos em vida pouco me interessam, mas me divirto ao encontrar tumbas de grandes nomes do passado. Macabro? Desejo secreto? Boa pergunta. Nunca tirei foto com a Sharon Stone ou o Bruce Willis, mas registrei a escultura de Alexandre Dumas (o filho) dormindo, dedos dos pés decepados pelo tempo.

Assim foi meu carnaval que passou. Não teve Pierrot, nem Lança-perfume, nem estandarte. É meu primeiro tríduo momesco nos corredores da eternidade. Confesso que não foi assim tão ruim, mas é claro que eu preferiria o Sovaco de Cristo. Não se pode ter tudo.
Anúncios
Padrão

14 comentários sobre “Carnaval no cemitério

  1. CeciLia disse:

    Paulo,cheia de uma inveja saudável, leio teu carnaval. De repente, eis-me de volta a uma Montmartre de muitos anos atrás, num café dos arredores, um vinho. Era dia de embaçamentos de olhos e outras vidraças. Abraços em vocês, parabéns pelas fotos.

    Curtir

  2. katyane disse:

    oi paulo, eu não gosto de carnaval, mas adoraria passar esses dias em meio aos cemitérios, principalmente quando são tão lindos quanto esse das fotos. bjsss.

    Curtir

  3. Anonymous disse:

    Paulo, mesmo no frio o texto teve o calor de suas palavras, como sempre, bom andar aqui na sua casa virtual.Abraços de São Paulo, que apesar do calor, também pareceu que não tever carnaval…Cati

    Curtir

  4. Guilherme Roesler disse:

    Paulo,não vejo a hora de conhecer a França e suas maravilhosas lojas de livros usados antigos.Paris deve cheirar a livros antigos, daqueles de folhas amareladas e tal.

    Curtir

  5. Gabriela Simionato Klein disse:

    Oi, Pelo jeito tá colocando a lista em dia, não viajante? Muito bom. Vim aqui para cobrar outros relatos e fiquei muito feliz com este.Gabi

    Curtir

  6. Cris disse:

    Pois eu trocaria as axilas do Cristo por um recanto debaixo da ponte e um bom livro em mãos. Sacrilégio? Acho que não. Apenas um lugar calmo no meio da civilização.

    Curtir

  7. Conceição Bernardino disse:

    Olá,“ Somos a ponte para a eternidade,Formando um arco sobre o mar,Procurando aventuras para nosso regozijo,Vivendo mistérios, optando por calamidades,Triunfos, desafios, apostas impossíveis,Pondo-nos à prova uma e outra vez,Aprendendo amar.”Excerto de “Richard Bach”É com esta força que renasço todos os dias, para continuar a minha caminhada…Espero que gostem deste pequeno presente.Beijinhos, que a escrita nos una!Conceição Bernardinohttp://amanhecer-palavrasousadas.blogspot.com

    Curtir

  8. Dora disse:

    Caro Paulo. Eu trocaria meu Carnaval de 34º, aqui em Sampa, pelo seu, no cemitério. Porque é em Paris.Porque é na cidade que amo desde a infância. No país que conheci, na escola, no primeiro grau e depois o único que conheci, praticamente, na Europa.(dei uma passadinha pela Suíça…mas, nem valeu…)Tenho uma paixão inexplicada pela França, que se iniciou aos 10 anos de idade. Se eu acreditasse em espiritismo, até poderia lançar mão da hipótese de “reencarnação” e coisas assim…rs Mas, estou mais para agnóstica…Enfim.Sigo seus passos pelos posts e, às vezes, comento, como agora. E, ousei, colocar seu link no meu blog. ( Ça n´est pas grave, n´est-ce pas?) Parfois j´arrive à parler deux mots en français…rsAbraços.Dora

    Curtir

  9. cris simon disse:

    Olha a coincidência aqui. Eu passei o carnaval (pelo menos um dia dele) vendo o cemitério da Recoleta, em Buenos Aires. Túmulos antiguíssimos e verdadeiros monumentos foram o roteiro.Incrivelmente, é um lugar em que me sinto muito bem. Todo aquele silêncio, as estátuas de anjos. enfim, toda aquela coisa me deixa calma 🙂

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s