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De primatas a monstros

Klimt

São animais, grita a sociedade, outra vez comovida. Um novo crime bárbaro, uma morte inaceitável; mais uma vez, o brasileiro clama por justiça e paz. São animais, os assassinos do pequeno João Hélio. Não sentem remorso, nem vergonha. Animais, os adolescentes capazes de trucidar um menino de seis anos sem motivo, isto é, em um assalto que é quase uma brincadeira inconseqüente. Frios, insensíveis. Agora, em revolta, só nos resta concluir: não podem ser humanos.
É impossível seguir assim, repetimos. Temos de combater a barbárie em nossas cidades. E clamamos novamente: reduzam a maioridade penal, metam na cadeia o animal de 16 anos que não tem coração. Os mais velhos? Ora, enforquem-nos! O Largo da Carioca seria um excelente lugar para instalar um cadafalso. Encarapitado no morro de Santo Antônio, o público ávido de espetáculo poderia acompanhar todos os passos do evento: o rufar dos tambores, a carroça que chega, os guardas conduzindo um condenado que, sob vaias e escarradas, implora, esganiçado, por misericórdia. Ao vivo, para todo o país, pela televisão.

Eles não são humanos. Mas então, o que são? Animais. São uma outra espécie, à qual falta a diferença específica da humanidade. O humano, já sabemos, é civilizado. Os animais não são. Os homens têm cultura, têm leis e têm educação, e com isso o homem se faz diferente das demais criaturas. Certo? Aos monstros, capazes de atrocidades as mais ignóbeis, faltam essas noções. São aberrações, são quimeras: expulsem-nos do nosso convívio. Afastem-nos de nós, os civilizados.
Mas talvez seja o inverso: talvez esses monstros sejam os humanos, e nós, civilizados, os animais.
Acontece que as tais características da essência humana são cada vez menos delimitáveis. Animais também têm cultura, educação e até leis, ainda que não codificadas. Sabe-se, por exemplo, que grupos de gorilas separados apenas por um rio desenvolvem hábitos, códigos e ferramentas diferentes. Mas cultura nada mais é que a faculdade de diferenciar costumes em grupos isolados da mesma espécie. Orangotangos mais velhos, sentados nas clareiras, transmitem aos mais novos o uso de instrumentos e os costumes do clã. Exatamente como numa sala de aula. Finalmente, chimpanzés excluem do convívio, num verdadeiro ostracismo, os indivíduos que se mostram incapazes de seguir o padrão comportamental, isto é, as leis. Mas, ora, macacos jamais arrastam suas proles friamente, até a morte, pela mera posse de um objeto. Nem mesmo um automóvel.

Os outros primatas possuem quase a mesma capacidade, por exemplo, de organizar grupos e partir para guerras territoriais. Chimpanzés criados como humanos desenvolvem linguagens gestuais e pintam telas. O que nos diferencia deles? O que nos torna superiores? Nós, que filosofamos, esculpimos, cantamos, construímos pontes e atravessamos momentos gloriosos como o Iluminismo e a Renascença, mas igualmente tenebrosos, como o nazismo e a inquisição?
Durante a maior parte de sua existência, o homo sapiens sapiens pouco fazia além do que fazem hoje chimpanzés, orangotangos e gorilas. Tínhamos, sim, uma caixa craniana maior e uma linguagem mais desenvolvida. Mas não escrevíamos tratados, não debatíamos o Estado, não possuíamos seguridade social. Nada levava a crer que hoje poderíamos considerar desumano matar friamente uma criança. Mesmo depois que algum milagre fez surgirem as pinturas de cavernas e o domínio do fogo, a tal civilização demorou a chegar. Depois que chegou, lenta foi sua evolução rumo à tolerância e ao controle. Tivemos Goebbels, Torquemada, Herodes, Stalin. Essas figuras nefastas da história humana são muito menos improváveis, muito menos extraordinárias do que as opostas: Sêneca, Diderot, Martin Luther King, Gandhi. Esses, sim, são verdadeiros milagres.

A civilização não é inerente ao humano. É uma conquista (na medida em que seja conquista) árdua, adquirida de forma traumática e cruenta em passos lentos, caminhados durante trinta séculos, senão mais. Como qualquer conquista, está a todo momento ameaçada e exige um esforço constante para sobreviver.
Os criminosos que arrastaram João Hélio são incivilizados, por certo. Mas não são menos civilizados, tampouco menos humanos do que o engenheiro que culpa o solo pelo desastre do metrô. Ou o governador que desvia verbas da educação para seu projeto pessoal de comandar um país esfrangalhado. E não são menos humanos do que nós, vestidos de branco pela paz, ou preto pelo luto, exigindo de vagas autoridades, encasteladas numa cidade perdida no deserto, uma atitude: esquartejar em praça pública aqueles que não reconhecemos no espelho da espécie.
Se nosso país é capaz de produzir esses monstros, esses governadores, esses engenheiros, é porque nosso esforço de civilização já foi por água abaixo. Significa que não cuidamos mais de nos afastar dos primatas da floresta; não estamos dando atenção àquilo que reconhecemos como propriamente humano. Se uma parte da nossa sociedade pode ser definida como não-humana, então a sociedade inteira o é. Esses monstros, esses animais, são, sim, membros da nossa sociedade. Em outras palavras, cidadãos. Qual é o fator que transforma esses cidadãos em monstros? É isso que cabe investigar. Lá estará a falha primordial da civilização a que nos orgulhamos de pertencer.
Não adianta querer excluir de toda a espécie humana esses criminosos brutais. Estamos ligados a eles pelo próprio laço que cremos romper. Mas esse laço, que é a humanidade e sua civilização, prende a todos. Se uma parte é atirada fora, todos são tragados. Eliminamos do nosso ideal civilizatório uma parte de nós, e o batizamos como “eles”. Pois: eles derramam nosso sangue, nós derramamos o seu. A única vantagem dos que se incluem do lado do “nós” é poder se dar ao luxo de chamar a “eles” de animais.
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6 comentários sobre “De primatas a monstros

  1. douglas D. disse:

    Muito bom o seu texto. Estamos mesmo, de fato, ligados a eles por laços, mas não sei se ao menos o sabemos ou se cremos-tentamos com eles romper.abs.

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  2. Lu disse:

    Olá Paulo, passei para conferir teu espaço, selar laços e retribuir tua visita ao Glossolalias. Em deferência ao teu post e a todas as questões evocadas pela tua reflexão a partir da tragédia acontecida com o pequeno João Hélio, deixo o brinde para outra hora.Abraços.

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  3. CeciLia disse:

    Paulo,como na música, né? Todos iguais, todos iguais, mas uns mais iguais que os outros…Infelizmente não consigo esta imparcialidade com que abordas o tema. Acho, sim, que tem gente melhor. Me chame de sectarista, esnobe, burguesa ou outros, mas não me/nos iguale a estes monstros (chamá-los de animais seria ofender aos animais). Assistiria, sim, à morte lenta deles. Prefiro isso a ver os impostos que nos são extorquidos alimentando-os na prisão. Sabe, dia destes vi num adesivo uma frase que gostei demais: “DIREITOS HUMANOS PARA HUMANOS DIREITOS”. Abraço,

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  4. Ivo Korytowski disse:

    Não dá pra relativizar tudo. Existem monstros e existem Monstros. Arrastar uma criança de seis anos por sete quilômetros é uma monstruosidade inominável. Precisamos nos proteger desses Monstros. Se isso vai ou não resolver o problema são outros quinhentos. Mas justiça tem que ser feita! (Leia o editorial no meu blog a respeito.)

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  5. Carlos Roberto disse:

    Ah, então o mau hábito de associar nomes dezprezíveis ao do Líder Supremo já é antigo em você, Paulo! Ao falar como fala de seres humanos e animais, você está redescobrindo o Darwinismo. Que aliás, nos subjuga até hoje com a fantasia de que somos uma mesma espécie, passível de ser subclassificada em civilizados e monstros conforme a conduta. Nada disso: Goebbels, moleques drogados, ministros da fazenda e presidentes “democráticos” são todos alienígenas. Uma outra espécie, enfim. A humana, só existe uma mesmo, na fraternidade socialista ou nos atos de grandeza individual (como há pouco aconteceu em um metrô norte-americano). Sugiro que dê mais atenção a iconografia: já viu por acaso a imagem do general contra-revolucionário russo Wrangel? Pois procure (uma na qual ele está com um longo casaco de pele negra) e coloque do lado do Klimt que está neste seu post. Não haverá a menor dúvida entre o que é inumano e o que é humano (civilização à parte).Carlos Roberto

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