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Por quê? Por isso.

Crédito das duas imagens que acompanham o texto: Bruno Maneschy. (http://bmaneschiarte.arteblog.com.br/)

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Meu velho amigo e companheiro de arquibancadas Oraco, jornalista e blogueiro antigo das areias de Copacabana, postou no seu “The Perfect Eye” (não sei usar hyperlinks. O site dele é oraco.wordpress.com) uma pergunta interessante: “por que você bloga?”. Ele dá sua resposta, quem tiver interesse que vá conferir. Oraco convoca também alguns amigos a responder, entre eles, eu, intimado a tocar no assunto.
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Confesso que tremo diante de qualquer pergunta que comece com “por quê”. Na minha vida, sempre agi, quando agi, por uma espécie de impulso convicto, uma certeza injustificada, mas sedimentada, de que estava dando o passo que deveria ser dado. Não é que eu seja um irracional, muito pelo contrário. Mas é como se a minha razão estivesse alojada em algum departamento distante do meu cérebro, ou da minha alma, e apenas transmitisse suas ordens ao centro dos meus impulsos, fim de papo. O departamento manda, eles obedecem, como se meu sistema nervoso fosse uma enorme repartição pública. Por quê, então, é uma questão incômoda.

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Por que posto, então? Por que “blogo” (e acho que as aspas nesse verbo bizarro já não se justificam)? No começo, a resposta era simples: eu queria experimentar. Todo mundo que gosta de encadear frases já tinha aberto seus espaços há mais de ano, só o panaca do Paulo continuava com seu caderninho Maneschie caneta. Todos jogavam “links” uns para os outros, e eu não era “linkado” por ninguém, pelo menos não no sentido cibernético. Eu era um ultrapassado. Um dinossauro. Um excluído digital.

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Bom, mas isso, continuo sendo. Não sei nem colocar as palavras em itálico! Outro dia me ensinaram, tentei e não deu certo. Desisti. Não sei colocar hyperlinks, o que não é problema, porque detesto estar em plena leitura pacífica de um texto e de repente ele ser interrompido por palavras azuis que me desconcentram e tiram o prazer da leitura. Tenho dificuldade para colocar as imagens nos textos, quero às vezes dar uma cara um pouco diferente para o post e não tenho sucesso… Bom, por aí vai. Sou um dinossauro dos blogs!

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Mas tenho um: isso ninguém pode negar.
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Blog experimentado, por que continuar? Gasta-se tempo com as postagens que poderia ser dedicado a outras coisas. Conquistar a Gália, por exemplo. Mas a Gália já está conquistada há muito, e não sou nem César, nem Bismarck. Só me resta ser blogueiro – e desta vez não vou meter as aspas.

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É interessante, aliás. Falamos em ser blogueiro como se falaria em ser padeiro ou marceneiro. Como se fosse uma profissão ou uma classe social. Blogueiro não é nada disso: aí encontro uma resposta possível à pergunta do Oraco. Não ganho por blogar, apesar de ter aderido ao “adsense” num momento de desespero orçamentário. Meu blog é, no fundo, meu grito de liberdade. Na vida real, com meu nome real, sou obrigado a escrever de acordo com uma série de parâmetros. Rígidos, sim. Corretos, também. Importantes, mais ainda. Ao contrário, o blog não me prende a parâmetro algum. Tenho todo o direito de publicar poemas com palavras que não existem, contos de três linhas e artigos intermináveis (ou, por que não, efetivamente sem fim?). Posso colocar uma fotografia, atentar contra a gramática, usar mesóclises (blogar-se-vos-ia?) ou palavrões, atirar idéias sem submetê-las antes ao crivo do meu próprio senso crítico, muito menos ao olhar rigoroso de algum terceiro. Nada contra editores, orientadores e críticos, que são fundamentais, cada um em sua área. Mas o blog é território proibido para eles.
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Não concordo com Oraco quando ele condena os textos longos. No blog, nada se condena, nada se aprova. Lê quem quer, e não pretenderei criar um “best-seller” via blog. Talvez isso fosse possível, mas não sei se é desejável. Afinal, sou um dinossauro ou não sou? Não há retrancas na internet. Ninguém pede 40, 50 centímetros, lide, “abstract” em inglês, índice… Nem é preciso responder a perguntas ou dar um encadeamento lógico. Ao falar de restaurantes e bares, por exemplo, faço questão de não dar o endereço, para não parecer uma reportagManeschi2em ou crítica gastronômica. Deixo links para quem conheço e para quem considero interessante, mas tenho preguiça e não “linko” nem metade dos blogs que leio com prazer (eu mesmo me censuro por isso). Clica nos links quem tiver interesse, assim como pode-se chegar ao meu blog pelos links que me dão. Fica-se enquanto se quiser.

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Para mim, blog é liberdade. Anarquia, dirão? Freqüentemente. Mas não se resume a isso. Ainda existe o reino organizado do papel, com sua extensão na internet normal de “sites” e portais. A anarquia está apenas no mundo dos blogs, para quem tiver o ensejo de explorá-lo. Há que ter paciência e coragem, mas ganha-se algo. Aprende-se, experimenta-se, conhece-se todo tipo de gente. A maioria não vale a pena, dizem. Admito, é uma verdade. Mas em que isso faz da tal “blogosfera” algo diferente do mundo exterior? Nele, também, a maioria não vale a pena.

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Mesmo o mundo dos blogs não é assim tão anárquico. Com o tempo, grupos se formam, mesmo que involuntariamente. Pelo sistema de links, criam-se, paulatinamente, bolhas (“clusters”, diriam os mais atualizados) de páginas afins, seja por gosto ou por semelhança. Dentro de cada bolha, o leitor está a salvo da anarquia tempestuosa. Poetas debatem com poetas, jornalistas lêem repórteres, cronistas buscam contistas, adolescentes fúteis vão atrás de suas semelhantes. Não é a anarquia que pode parecer.

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Mas é livre. Do meu ponto de vista, pelo menos. Inventei um sobrenome certo dia para poder separar minha vida real, e a profissional, do meu blog. Tomei gosto. Estou quase abrindo um blog com meu sobrenome real, mas nem por isso encerraria as atividades do “Para ler sem olhar”. Com meu verdadeiro sobrenome, eu não poderia escrever o que quisesse, com o tamanho que quisesse, sem revisar os textos e assim por diante. Osrevni está aí para cumprir esse papel. Isso, para mim, é blog. E se algum dia essa liberdade for perdida, volto a sujar os dedos de tinta.
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8 comentários sobre “Por quê? Por isso.

  1. CeciLia disse:

    Gosto, Paulo, e muito, da idéia libertária (poots, isso parece panfletário!) dos blogs. Gosto de poder ser o meu próprio contra-senso, de expor a parte que não fica completa com a atividade profissional pura e simples. Gosto de poder não ser cartesiana, embora seja tão previsível como quase todos nós. E gosto do teu texto. A única diferença é que rompo mesmo com os paradigmas e assino nome e sobrenome. Por vezes, alunos e pacientes devem entender nada. Abraço

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  2. Dora disse:

    Paulo. Desde o dia em que você colocou um comentário no meu blog, segui seus passos e vim ler você. Simplesmente fiquei presa ao seu espaço aqui. Primeiro: sou amante do idioma francês, segundo: aprecio imensamente as idéias livres, sem “coesão” interna ou externa(como parecem ser as suas..) e terceiro: porque seu blog é interessante, variado, inteligente e…possui uma porção de qualidades que eu admiro.Estou “mais ou menos” em férias, sem ter muito tempo para o computador( que ficou em casa…) mas, quis marcar minha passagem por aqui, já que acredito que vou passar muito tempo “curtindo” seus posts.Volto breve.Com a licença da “patroa”…rs…envio-lhe um beijo.Dora

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  3. a comentarista disse:

    É isso aí, dentro da prisão que todos vivemos temos que encontrar pequenos espaços de liberdade, senao fica difícil.beijos

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  4. Gabriela Simionato Klein disse:

    Olá senhor inverso, vim retribuir a visita e me surpreender com o seu espaço. Como estou completamente apaixonada pela blogosfera, nem comento. Seria injustiça. Deixo o meu abraço e fico na expectativa de que vc conte a respeito de Xique-xique.

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