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País de loucos e de livros

Livros

Além de apertados, os apartamentos de Paris são, em geral, cobertos de livros. Principalmente, claro, os das pessoas de mais idade. Paredes e paredes de prateleiras apinhadas, nos quartos, na sala, nos corredores. Toda essa literatura, para ser sincero, deixa nos ares um ar de sujeira, um clima impregnado, claro, de cultura, mas também de pó e mofo. O cheiro de papel velho é inconfundível e o tom amarelado das páginas entortadas causa um desconforto mesmo no maior dos amantes da palavra impressa. Mas é um charme.

Cultura muita, sim. Por outro lado, também se exala um certo automatismo de leitura, uma riqueza intelectual que parece não servir para outra coisa senão debates aporísticos e enfadonhos no metrô e nos cafés. Mentira… não são sempre enfadonhos, muitas vezes são adoráveis e podem terminar com todos os envolvidos perdendo seus compromissos, como nos botecos da zona sul carioca. De qualquer forma, são sempre sem resolução.

Não me entendam mal: eu gosto. Acharia maravilhoso viver numa casa com livros aos milhares, do chão até o teto, de ficção e teoria, de religião e iconoclastia, do Ocidente e do Oriente, em línguas de todos os troncos e nações. Logo que cheguei em território francês, fiquei hospedado na casa de uma senhora muito simpática e cuja biblioteca corresponde à minha descrição. Era muito agradável, a não ser pelo fato de que atacava minha rinite velha de guerra. Como valia a pena!

Só com o tempo fui perceber que essa era a regra na cidade. Às vezes é difícil se esgueirar pelos corredores, ocupados de ambos os lados por livros e livros, intocados quem sabe desde os movimentos estudantis de 68. Fascinante. Os franceses realmente são os pais da conversa fiada, mas o interessante é que eles são capazes de fazê-la girar em torno de temas profundos, como a imortalidade da alma ou a democracia representativa.

Qual é a diferença, portanto, da conversa fiada no Quartier Latin ou num boteco do Flamengo? A rigor, nenhuma. Mas não deixa de ser impactante que, ao invés de reclamar que “esse Lula é um baita dum mentiroso”, o francês da rive gauche diga que Nicolas Sarkozy “pretende submeter o trabalhador francês ao estigma da precariedade burguesa em nome da oligarquia financeira global”. Não vai impedir que o narigudo faça o que quiser, mas é bonito. E eventualmente, apenas eventualmente, dá algum resultado prático, como na quebradeira comandada pelos estudantes em 2005.

Um exemplo anedótico: os mendigos que mais recebem esmola na França são aqueles capazes de fazer o discurso mais estruturado a respeito da própria miséria. Um sujeito mal-ajambrado com uma placa que diz “tenho fome” ganhará um euro aqui, outro ali. Já o pedinte apresentável, alinhado, que invade um vagão do metrô declamando uma dissertação formalmente impecável sobre as dificuldades por que sua família passa, esse periga enriquecer. Na lógica francesa, ele merece!

Sim, Paris é cheia de mendigos. Aparentemente, toda essa cultura não foi capaz de enriquecer o país. A principal diferença para os mendigos do Brasil é que aqui são todos adultos, mas isso é tema para outro dia. Os mendigos parisienses são sujos, incômodos e mal-cheirosos como em qualquer outro lugar. Mas nesta cinzenta Cidade-luz, eles são cultos. Pedem cigarros, e se você não fuma, cuidado, pode ser submetido nos minutos seguintes a uma argumentação profunda sobre os benefícios do tabagismo. Não estou brincando, estou relatando. Aconteceu comigo.

Mais que mendigos, a capital deste hexágono gaulês é cheia de loucos. Esses doidos de rua, que cantam, dizem coisas sem nexo, tiram a roupa, dançam para músicas imaginárias. Eles estão por toda parte, mas gostam mesmo é do metrô (como os mendigos e, ora, como todo mundo). Interessantes, esses loucos da França: eles têm o hábito de se aproximar das pessoas e, com suas vozes embargadas, comentar a decadência do espírito libertário no país. Tem coisa mais civilizada do que discutir o ethos nacional com um mendigo europeu? Não, não tem.

Com o quê, os loucos também são cultos. Ou será essa cultura toda que os deixa loucos? Pouco a pouco, começo a me convencer disso. Aqui, mesmo os sãos parecem um pouco loucos. Sem dúvida, os livros é que os enlouquecem. Céus! A leitura enlouquece. A França é a maior prova. País de loucos e de livros. Isso me preocupa. Eu que leio muito, e com prazer. Desde que cheguei, tenho lido até mais do que antes. Estarei ficando louco? Não duvido. Até agora, a única loucura comprovada que cometi foi começar a escrever um blog. Mas isso foi ainda em São Paulo. O pior ainda está por vir.

PS: Gostaria de terminar com um pouco de propaganda, que na verdade será uma piada sem graça, com sua licença. Se é verdade que ler enlouquece, há apenas um antídoto: não olhar para o que se está lendo. Portanto, é necessário, é imperativo, é imprescindível, ler sem olhar.

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6 comentários sobre “País de loucos e de livros

  1. Cris disse:

    Acho que, se estivesse na França, seria também uma louca. Se na Alemanha me sentei junto aos Punks numa roda, com um cachorro sem pulgas no colo e uma caneca de alumínio ao lado (onde ganhei 3 euros de esmola), me imagina com os mendigos franceses. Estou eu perdendo tempo em São Paulo?

    Curtir

  2. Pingback: Reprovado em bom humor | Para ler sem olhar

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