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Seção obituário: Augusto Pinochet

Facinora
Estou há dias tentando arrumar um tempo para dar um pitaco sobre a morte do general Pinochet (se você não sabe quem foi o Pinochet, sorte sua). Aliás, acho que tenho uma certa fixação pelo tema: sempre que morre alguém, lá vai o Paulo escrever sua seção obituário. Não me digam, por favor, que isso revela um aspecto macabro da minha personalidade: na verdade, são apenas as notícias que aparecem e suscitam algumas reflexões…

Mas como não ando escrevendo muito, o tempo passa, passa, e o assunto morre. Todo mundo já disse tudo que havia para ser dito sobre o homem. Discutiram sua personalidade, seus méritos ou deméritos no desempenho da economia chilena, a crueldade de seu regime, a corrupção, a existência lamentável de seguidores seus até hoje no Chile (e mesmo fora dele), a declaração de tristeza da Dama de Ferro, Margaret Thatcher (que poderia muito bem ter ficado quieta). Lembraram que ele chegou ao poder por pura “trairagem”, coisa que em qualquer quadrilha de traficantes é imperdoável.

Então não resta muito a dizer sobre a figura nefasta de que a Terra está livre (e daí, tantas outras continuam!). Augusto Pinochet morreu no Dia dos Direitos Humanos (esses que são “di bandidu”, como dizem), ele que matou mais de três mil pessoas por mera diversão. Se, por um lado, até chegou a ser preso rapidamente algumas vezes (em domicílio), nunca foi condenado por um tribunal. Ele não viu o sol nascer quadrado. Não enfrentou o paredão (seria uma doce ironia). Seus crimes seguirão impunes, incentivando outros ditadores deste mundo (principalmente o Terceiro) a manter suas carnificinas.

Ele morreu tranqüilamente, na cama de um excelente hospital, com 91 anos, cercado de filhos e netos, contas bancárias invejáveis na Suíça, condecorações no peito. Conclusão: sim, o mundo é injusto e o mal vence. Não sempre, mas freqüentemente, talvez na maioria dos casos. Dá até vontade de acreditar na existência de um inferno, para esperar que pelo menos sua alma esteja sendo torturada. Mas de que adianta? Pensar que um facínora desprovido de qualquer traço de hombridade ou honradez possa sofrer os mesmos castigos de um sujeito que cometeu alguns adultérios é decepcionante.

Pinochet me faz pensar em Fidel. Muita gente quer fazer do ditador cubano o maior monstro do século XX, mas esse é o tipo de pensamento em que claramente as convicções políticas obliteram a razão. Como comparar um homem que libertou um país da ditadura de um marionete a um outro que encarnou esse papel com gosto e crueldade? De um lado, um indivíduo que, após uma luta sangrenta nas montanhas, transformou uma ilha caribenha, em que os mafiosos passavam férias, no centro da política internacional. Do outro, um caudilho latino-americano dos mais caricaturais, aproveitador barato e corrupto. Na ilha de Fidel, o analfabetismo foi erradicado, os médicos são talvez os melhores do mundo e, em algum momento dos anos 70, a economia chegou a ir bem, apesar do bloqueio dos EUA. Já na tripa de Pinochet, a intervenção de um economista chamado Hernán Büchi salvou o país de um desastre econômico inaudito, apesar de toda a ajuda de Washington (mas em alguns quesitos, como distribuição de renda, os números são vergonhosos).

O Fidel pós Muro de Berlim é um ditador algo ridículo, verborrágico, caricato. Mas nada parecido com Pinochet, que sempre foi o arquétipo do milico latino-americano de cara fechada, óculos escuros, ar de “quem manda aqui sou eu” e cabeça de penico. Sua tirania no Chile faz a ditadura brasileira parecer democracia, até porque aqui pelo menos havia a vergonha na cara de fingir-se que havia alguma. Fidel teve muita grandeza em sua vida e, apesar do que dizem os reacionários enrustidos, não chega a ser um monstro (a despeito de seus fuzilamentos e achaques à imprensa, coisa que não pode ser admitida jamais). Pinochet não teve grandeza de nenhuma espécie.

Augusto Pinochet, “general”. Simplesmente a figura maior da maldição colonial latino-americana. Ele espelha tudo que temos de mais ridículo e abominável. Mas não é o único. Discursos como o seu podem ser ouvidos no elevador de qualquer prédio comercial de Brasília, Rio, São Paulo, Salvador, Porto Alegre, Buenos Aires, Bogotá, Santiago etc., até hoje. Eis a nossa maldição. A tranqüilidade com que o facínora encontrou a morte indica que um tipo como ele é normal para nós, os latino-americanos. Pior, torna a figura do señor Castro profundamente admirável.

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4 comentários sobre “Seção obituário: Augusto Pinochet

  1. Guilherme Roesler disse:

    Paulo, o mundo moderno não pode totelar mais ditaduras escancaradas ou mesmo disfarçadas. A democracia não se sujeita a estas ações.Alias, esta certo completamente certo: a liberalização das fronteiras deve ser precedida pela total e irretrita liberação da mão de obra. Mas aí cairemos em uma grande questão: a não existencia do salario minimo fixado pelo governo. E como sabemos, este é um assunto espinhoso….

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  2. Rodolfo disse:

    Infelizmente, é verdade, tiranos são comuns, e na maior parte das vezes estão no poder. E a vida não é um conto de fadas, como você disse, o bem não vence sempre, estão todos subjugados a tirania e ao poder dos malfeitores. Eles, afinal de contas, tem mais armas ao seu favor, jogam como bem entenderem, e o bem segue regras, sem poder ultrapassar seus limites.

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  3. Merivaldo disse:

    Paulo, o Osrevni, amigo de letras paulistas, agora franco-brasileiras,**Não me imagino admirando qualquer que seja a ditadura: nesse caso, aqui, pinochetiana ou a de Castro que é mais fiel (FIDELíssima) ao castro (castelo) de seu bem-querer.**Mas é muito fácil opinar quando, às claras, as ditaduras usam mãos-de-ferro para expropriar segmentos abaixo da pirâmide humana: individual ou social.**Difícil é percebermos aquela que chamo de ditadura branca, que não usam mãos-de-aço-e-ferro, mas usam o leite das instituições segundo eles democráticas, em prol da igualdade que sabemos inalcansável.**Essa Ditadura é muito mais venenosa e extremamente letal, porque, embora as pessoas estudiosas e inteligentes e escolarizadas a percebam, o muito que se lute contra ela, é sempre muito pouco. Os mais atingidos são sempre os mais pobres, os mais negros, os mais apedeutas, os mais menos.**Paulo, a poesia do poema ou da prosa cumpre parte dessa luta.Abraço de teu irmão brasileiro,Merivaldo.

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